A necessidade humana de expressão artística – parte I

Por Pedro Fernandes

Bisão, na Caverna de Altamira

Se fizermos uma pequena viagem pelo que chamamos evolução da pintura, desde a Pré-História à contemporaneidade, teremos a oportunidade de algumas observações acerca da Arte que talvez nos ajude a melhor compreensão de alguns dos seus “problemas” antigos e modernos. Digo isso porque, apesar de não me ligar diretamente ao terreno das artes plásticas, mas em específico ao da literatura, (a literatura é uma forma de arte e como forma arte é influenciada por movimentos semelhantes aos que ocorrem noutros campos artísticos, como o das artes plásticas) ouço muitas vezes certos desaforos acerca de alguma obra de arte.

Não quero, contudo, discutir aqui a questão “o que é arte”, mesmo sabendo que ela é inerente. Os desaforos de que falo (e esse é um dos problemas que perpassa toda a trajetória de constituição da arte) são aqueles do tipo “Como pode uma bobagem destas obter tanto valor no mercado?” ou “Isto, até eu faço! Mas, se fosse eu quem o fizesse não valeria um centavo...” Ou ainda, “Pra quê que serve um romance? Vidas secas é macento! Grande Sertão: Veredas, uma chatice só!” Nisso, quando a questão é a noção de valor, pintura e literatura se associam; são opiniões comuns e, desse tipo, são em comum a todos os campos artísticos – sejam os das artes plásticas, sejam os da Literatura – logo, as reflexões que aqui apresento são válidas a todos eles. Mas digo: esqueçamos por um instante esses devaneios críticos – são reflexões muito amplas para discorrer num curto espaço – voltemos, pois, ao que eu dizia inicialmente.

Entre as observações que naturalmente nos ocorrem, no decorrer de uma viagem pelo desenvolvimento da pintura, devem estar certamente, em primeiro lugar, as da necessidade de expressão artística que o homem possui e é isto o que destaco neste texto. Essa necessidade de expressão artística no homem parece ser tão biológica, permanente e universal quanto outras necessidades consideradas básicas, como a própria necessidade de se alimentar. Basta que observemos nas garatujas que o homem começou a fazer ainda nas cavernas, assim que se desprendeu da pura animalidade. Aparecendo assim a arte tão precocemente nas idades iniciais do homem como espécie, também precocemente ela aparecerá nas idades iniciais do homem como indivíduo, conforme vemos todos os dias nas crianças em nosso meio; se também a encontramos na humanidade remota do machado de pedra, estamos encontrando-a ainda na humanidade atual dos computadores e das inteligências artificiais.

Outra observação que certamente nos há de escapar acerca da necessidade artística, é a de que ela não parece depender de condição geográfica. Encontramos com ela em todos os climas – sejam eles frios, sejam eles quentes ou temperados –, nos habitantes das planícies e das montanhas, dos litorais e dos interiores. Parece também independer de raças, está presente em todos os tipos raciais – num índio da Amazônia brasileira, num negro da África. Parece ainda independer do que se vem calhar como civilização, visto que está presente naqueles povos considerados altamente civilizados, armados de desenvolvimento mental e progresso técnico, como também nas populações bastante primitivas, assim como nos indivíduos letrados ou iletrados. Vamos encontrar a arte, ainda, nos pobres como nos ricos, nos materialistas e nos espiritualistas, nas pessoas de bom ou de mau caráter.

Logo, por esse caráter universal, por sua permanência e elementarismo, acima de tantas circunstâncias, é que essa necessidade de expressão artística deve pertencer não apenas à natureza social do homem, mas também à sua natureza biológica, tanto sob a forma ativa do artista que cria e comunica a emoção estética, como sob a forma passiva do contemplador da obra. Como estamos vendo – universal, permanente e elementar, no homem pré-histórico e contemporâneo, na criança e no adulto, no selvagem e no civilizado, no crente e no descrente, no rico e no pobre – essa necessidade de expressão artística parece ser como um instinto, como aqueles instintos de conservação e de reprodução.

* Texto publicado no Jornal Correio da tarde, no dia 28 de maio de 2010, p.2.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

20 + 1 livros de contos da literatura brasileira indispensáveis

Carolina Maria de Jesus, a escritora que catava papel numa favela

José Saramago e As intermitências da morte

Visões de Joseph Conrad

Cecília Meireles: transcendência, musicalidade e transparência

Sor Juana Inés de la Cruz, expoente literário e educativo do Século de Ouro espanhol

Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto

A melhor maneira de conhecer o ser humano é viajar a Marte (com Ray Bradbury)

Não adianta morrer, de Francisco Maciel

Boletim Letras 360º #246