Ilustração: T. Hanuka O sexo sempre esteve presente na literatura, embora nem sempre de maneira explícita. Há escritores que mergulharam em sua própria sexualidade como se a arte pudesse ser campo para um exercício psicanalítico e findaram por revelar a partir dessa intimidade o lado mais escuro sobre. Esta lista apresenta um conjunto de livros nos quais os escritores se desnudam, livros que dispensam o pudor para narrar cenas de elevado tom. Christine Angot, até o presente uma romancista francesa quase desconhecida no Brasil embora tenha sido autora de um livro chamado Pourquoi le Brésil ?, tem sido lida como uma das principais figuras que se filiam à tradição da qual faz parte nomes como o de Anaïs Nin. Em 1999, ela publica L’Inceste , a obra pela qual sempre tem sido lembrada, por se tratar de uma narrativa que recupera a relação incestuosa entre um pai e uma filha. Les Petits , outra obra sua, já inicia com uma felação sob o chuveiro que termina numa penetração anal an...
Quem leu Cem anos de solidão , de Gabriel García Márquez sabe que Macondo é "uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos". Dizem que Macondo foi baseada na cidade da Aracataca, onde García Márquez viveu parte da sua infância. Macondo era o nome de um bananal que se localizava nas imediações da cidade. Dizem também que Macondo foi inspirada por Yoknapatawpha Country de William Faulkner, embora muitos digam ainda que o escritor não havia lido nenhuma peça de Faulkner enquanto escrevia o romance. A cidade aparece pela primeira vez no livro A revoada para depois ser protagonista em Cem anos de solidão . Em péssima hora , outro romance de García, Macondo é retomada fazendo uma ligação evidente entre os dois romances. Em Cem anos de solidão , a cidade cresce a partir de um pequeno assentamento com quase nenhum...
Por Pedro Belo Clara Miguel Torga. Foto: Eduardo Gageiro. LIVRO DE HORAS ( O Outro Livro de Job , 1936) Aqui, diante de mim, Eu, pecador, me confesso De ser assim como sou. Me confesso o bom e o mau Que vão ao leme da nau Nesta deriva em que vou. Me confesso Possesso De virtudes teologais, Que são três, E dos pecados mortais, Que são sete, Quando a terra não repete Que são mais. Me confesso O dono das minhas horas. O das facadas cegas e raivosas, E o das ternuras lúcidas e mansas. E de ser de qualquer modo Andanças Do mesmo todo. Me confesso de ser charco E luar de charco, à mistura. De ser a corda do arco Que atira setas acima E abaixo da minha altura. Me confesso de ser tudo Que possa nascer em mim. De ter raízes no chão Desta minha condição. Me confesso de Abel e de Caim. Me confesso de ser Homem. De ser um anjo caído Do tal Céu que Deus governa; De ser um monstro saído Do buraco mais fundo da caverna. Me confesso de ser ...
Goethe à janela de seu apartamento em Via del Corso, Roma. Pintura de Johann Tischbein, 1787. Há uma forma romanesca que tem ganhado espaço entre os leitores nos últimos anos, sobretudo devido ao gosto elevado pela obra da escritora italiana Elena Ferrante indicada nesta lista – a tetralogia napolitana. Neste meio tempo as livrarias receberam ainda livros como O pintassilgo , de Donna Tart ou a reedição de clássicos como A montanha mágica , de Thomas Mann. Mas, o que há em comum entre estas obras e qual forma romanesca é esta? A forma é do romance de formação (cf. enuncia o título da postagem). O termo é uma tradução do alemão Bildungsroman e teria sido empregado pela primeira vez em 1803, pelo professor de filologia clássica Karl Morgenstern numa conferência sobre “o espírito e as correlações de uma série de romances filosóficos”, segundo Friz Martini. Como lembra Wilma Patricia Marzari Dinardo Mass, “mais em tarde, em conferência de 1820, o mesmo Mo...
Por Pedro Belo Clara Afresco de uma jovem nomeada Safo. Pompeia, 55-79 d. C. Se passares por Creta 1 vem ao templo sagrado, onde mais grato é o pomar de macieiras e do altar sobe um perfume de incenso. Aqui, onde a sombra é a das rosas, no meio dos ramos escorre a água, e no rumor das folhas vem o sono. Aqui, no prado onde todas as flores da primavera abrem e os cavalos pastam, a brisa traz um aroma de mel. … Vem, Cípris 2 , a fronte cingida, e nas taças de oiro voluptuosamente entorna o claro vinho e a alegria. *** E de súbito a madrugada de sandálias de oiro. *** No ramo alto, alta no ramo mais alto, a maçã vermelha ali ficou esquecida. Esquecida? Não, em vão tentaram colhê-la. *** Vésper 3 , tu juntas tudo quanto dispersa a luminosa aurora, trazes a ovelha, trazes a cabra, só à mãe não trazes a filha. *** Desejo e ardo. *** ...
DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o Letras. Domenico Starnone. Foto: Isabella De Maddalena LANÇAMENTOS Com este livro, Domenico Starnone foi reconhecido com o Prêmio Strega (2001). Esta é obra mais pessoal do autor, um mergulho na família e nos sonhos frustrados . Via Gemito é uma exploração da família, da memória e da natureza elusiva da verdade. Ambientado na Nápoles do pós-guerra, o romance conta a história de Federí, um funcionário das vias férreas com o sonho de se tornar um grande artista, e sua relação complexa com o filho, que narra os acontecimentos anos depois. O que torna o livro especialmente cativante é sua narrativa em camadas — mesclando autobiografia e ficção —, onde a memória é tanto ferramenta quanto campo de batalha. Starnone capta com precisão a energia caótica de um lar da classe trabalhadora napolitana, expondo as tensões entre ambição, fracasso e controle. Fede...
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