Boletim Letras 360º #432

 
 
 
DO EDITOR
 
1. Outro sábado, um novo Boletim. Continuamos uma atividade que começou por aqui há 432 semanas. Esta é uma coluna fixa até quando for possível que reúne as informações copiadas em nossa página no Facebook ou não. Obrigado pela companhia e boas leituras!

Carolina Maria de Jesus. Arquivo: Audálio Dantas.


 
LANÇAMENTOS

Romance premiado consagra Mariana Enriquez como escritora fundamental do século XXI.
 
Um pai e um filho cruzam a Argentina de carro, de Buenos Aires até as Cataratas do Iguaçu, na fronteira com o Brasil. São os anos da ditadura militar argentina, soldados armados estão no controle e o ambiente é de tensão. O pai tenta sozinho proteger Gaspar, seu filho, do destino que lhe é designado. A mãe do garoto morreu em circunstâncias obscuras, em um suposto acidente. Como o pai, Gaspar recebeu o chamado para ser médium em uma sociedade secreta, a Ordem, que se relaciona com a Escuridão em busca da vida eterna por meio de rituais atrozes. Para tais rituais, é imprescindível a presença de um médium, mas o destino desses detentores de poderes especiais é cruel, já que o desgaste, físico e mental, é rápido e implacável. As origens da Ordem, comandada pela família da mãe de Gaspar, remontam a séculos, quando o conhecimento da Escuridão foi trazido da África para a Inglaterra e dali se estendeu à Argentina. O terror sobrenatural se mistura com terrores bem reais neste romance perturbador e deslumbrante –– casas cujos interiores sofrem mutações, passagens que escondem monstros inimagináveis, rituais com sacrifícios humanos que envolvem êxtase e dor, andanças na Londres psicodélica dos anos 1960, fetiche por pálpebras humanas, liturgias sexuais enigmáticas e a repressão da ditadura, os desaparecidos, a chegada incerta da democracia e os primeiros casos de aids em Buenos Aires. Um romance que amedronta e envolve na mesma medida, de uma das escritoras mais proeminentes da América Latina atualmente. Nossa parte de noite tem tradução de Elisa Menezes e é publicada pela editora Intrínseca.
 
Esta obra atesta, mais uma vez, a maestria de Olga Tokarczuk em criar personagens e situações que encantam, assustam e fazem pensar.
 
“Minha energia vem do movimento — do chacoalhar dos ônibus, do barulho dos aviões, do balançar das balsas e dos trens”, escreve a narradora deste livro único, que investiga as possibilidades do gênero romanesco para falar sobre o corpo, o mundo e as estratégias sempre insuficientes com as quais tentamos mapeá-los. Inquieto como a narradora, Correntes não para nem por um segundo: de ônibus, avião, trem e barco, o texto a acompanha em saltos de país em país, de tempos a tempos, de história a história, compondo um panorama do nomadismo moderno. E são os vestígios da nossa batalha com o tempo que a autora observa nos quatro cantos do mundo: das figuras de cera dos museus de anatomia aos meandros da internet, passando por mapas e planos de fuga. Correntes mobiliza e encena nossas grandes inquietudes, como a história de Kunicki, que, durante as férias, é obrigado a enfrentar o desaparecimento da esposa e do filho, assim como seu reaparecimento enigmático e enlouquecedor. Ou o da bióloga que retorna ao seu país para se reconectar com seu primeiro amor, agora nas últimas. Esta obra atesta, mais uma vez, a maestria da autora polonesa em criar personagens e situações que encantam, assustam e fazem pensar. O resultado é um livro irresistível e iluminador a cada página. A tradução é de Olga Bagińska-Shinzato e é publicada pela editora Todavia.
 
Nova edição e tradução para dois romances de aventura mais importantes do gênero.
 
1. A ilha do tesouro, de Robert Louis Stevenson. Com a morte do pirata Billy Bones na hospedaria Almirante Benbow, Jim Hawkins, um menino de 12 anos, abriu o baú do velho lobo do mar e descobriu, além de moedas de várias nacionalidades, o mapa de uma ilha onde haveria um tesouro enterrado pelo terrível Capitão Flint. Jim mostrou o mapa para Dr. Livesey e Sir Trelawney, homens influentes da região. Logo partiram no navio Hispaniola para uma expedição à ilha. A tripulação tinha como cozinheiro Long John Silver, um veterano do mar que havia trabalhado no barco de Flint. Silver os ajudou a escolher o restante da tripulação, homens experientes, entre os quais alguns aliados de Long John — que, como tantos outros piratas, queria mesmo era pegar o tesouro. A partir daí, começa uma eletrizante aventura, com lutas, armadilhas, mortes sangrentas, barcos à deriva, tempestades e descobertas impressionantes. Trama cheia de traições e reviravoltas, tem todos os ingredientes para manter o leitor empolgado e sem fôlego a cada página. Clássico para ler e reler muitas vezes, a obra é, muito provavelmente, uma fonte na qual beberam os autores da série Piratas do Caribe, entre outros. A edição agora publicada pela editora Autêntica tem tradução de Márcia Soares Guimarães e ilustrações de Louis Rhead.
 
2. As minas do rei Salomão, de Henry Rider Haccard. Em posse de um antigo mapa indicando o caminho para as míticas minas do rei Salomão, o aventureiro inglês Allan Quatermain lidera uma expedição em busca do irmão de Sir Henry Curtis, que desapareceu procurando as minas, no coração da África. Em seu caminho, encontram feras selvagens, um deserto escaldante, uma civilização oculta liderada por um tirano usurpador e uma feiticeira ancestral, que guarda o segredo das ruínas de uma mina de diamantes. A tradução é de Samir Machado De Machado e o livro é publicado pela editora Todavia.
 
Livro de Ariana Harwicz coloca ponto final na Trilogia da paixão.
 
Após Morra, amor e A débil mental, a argentina Ariana Harwicz conclui a Trilogia da paixão com um romance perturbador sobre mãe e filho adolescente que levam uma vida marginal, em uma narrativa na qual a angústia e a loucura desempenham um papel central. Em um ambiente rural, mãe e filho levam a vida no limite — do amor, da obsessão e da indigência. Caçam, vasculham o lixo, vagam pelas ruas, são perseguidos por policiais e assistentes sociais. A mulher, embora dependente do amante casado que a rejeita, é também a mãe obstinada que teme perder o filho, o qual vê rapidamente se transformar em homem. Nessa relação ambígua, a distorção na estrutura familiar tradicional questiona os papéis conferidos à mulher pela sociedade, sobretudo aquele ligado à maternidade: “Mas agora me beija e nos desfazemos, não mãe e filho, dois clandestinos que se cruzam numa parada, dois aturdidos no alto de um refúgio, dois punks que atravessam a Europa comendo do lixo público, na França, na Alemanha, na Itália, os lixos cheios, sanduíches mordidos”. Precoce foi publicado originalmente em 2016 e fecha a chamada “trilogia da paixão”, na qual Ariana Harwicz contesta a imagem beatífica da maternidade e escancara, como ela mesma afirma, o sinistro e o belo do vínculo entre mãe e filho, marcado por pulsões carnais e pelo tabu do incesto. No mundo ficcional cruel e poético de Harwicz, o amor é desequilibrado, movido por desejo e violência. A tradução de Francesca Angiolillo é publicada pela editora Instante.
 
Um novo romance de Teresa de la Parra ganha tradução no Brasil.
 
Trata-se de um livro publicado em 1929 e que seria o segundo e último romance de Teresa de la Parra, no qual ela refletia seu caráter distintamente venezuelano e, como em Ifigenia (Diário de uma jovem que escrevia porque se irritava), o conteúdo autobiográfico incorporado na trama ficcional é evidente. Memórias de Mamá Blanca se baseia em aspectos biográficos de sua infância e nela descreve a fazenda da família El Tazón, localizada entre os rios Turmerito e Piedra Azul (nome que a fazenda leva no romance). A tradução de Lizandra Magon Almeida é publicada pela Oficina Raquel.
 
O abismo entre a noção universal de justiça, “justice”, e a ideia segregacionista por trás de “just us”.
 
O título deste livro traz um trocadilho intraduzível para o português. Just us, a formulação original, ecoa a palavra “justice”. A origem desse jogo sonoro é uma frase do comediante Richard Pryor, aliás usada na epígrafe: “Você vai até lá procurando por justiça, e o que você encontra, só nós”. Em outros termos: para um negro, ir a um tribunal em busca de justiça é se deparar apenas com negros na condição de réus. Esse abismo entre a noção universal de justiça, “justice”, e a ideia segregacionista por trás de “just us” é o cerne do argumento de Claudia Rankine. Aqui, porém, o racismo não é visto a partir do embate com suas formas mais violentas, como o caso do assassinato de George Floyd pela polícia americana. Estão em jogo suas expressões sutis, escondidas sob a polidez de brancos ilustrados e progressistas. A autora examina situações típicas de seu círculo social, formado por intelectuais e artistas. O livro nasceu desta curiosidade: e se ela perguntasse ao acaso a pessoas brancas como elas encaram o próprio privilégio? No aeroporto, no teatro, num jantar entre amigos ou na sessão de análise, ela flagra situações — gestos, diálogos, atos falhos — em que a neutralidade e os bons modos deixam ver crenças e preconceitos típicos da supremacia branca. Num arranjo brilhante de ensaios, poemas e imagens, o livro é enfático ao mostrar que o “privilégio branco” não se resume a uma questão econômica. Ser branco é poder ir e vir. É, acima de tudo, poder viver. A tradução é de Stephanie Borges; o livro é publicado pela Todavia.
 
Marana Borges nos enlaça em uma trama sobre lugares e relações difíceis de abandonar.
 
Um teclado sem pilhas, carreteis vazios, o jardim de inverno em um país tropical. A partir dos objetos e espaços de uma casa, a narradora reconstrói a arquitetura da sua própria história: a ausência do pai, a relação com a mãe dominadora e o amor dúbio pelo irmão. Em Mobiliário para uma fuga em março, romance-poema, inúmeros tempos e olhares atravessam um corpo que lembra, ama, sofre e odeia intensamente. A casa aos poucos ergue-se como grande personagem e o centro de um segredo silenciado pela família. Com toques de ironia e um lirismo incomum, Marana Borges nos enlaça em uma trama sobre lugares e relações difíceis de abandonar. O livro é publicado pela editora Dublinense.
 
A Companhia das Letras publica dois volumes dos diários de Carolina Maria de Jesus.
 
1. Com edição integral, ampliada com conteúdo inédito e refeita a partir dos manuscritos originais da autora, este primeiro volume de Casa de alvenaria abarca os meses em que Carolina Maria de Jesus morou em Osasco (SP), em 1960, após deixar a favela do Canindé. Através deste testemunho precioso que borra as fronteiras dos gêneros literários, acompanhamos a recepção de Quarto de despejo, as viagens de divulgação, o contato frequente com a imprensa e os políticos, o desenvolvimento de seu projeto literário e seu desejo de ser reconhecida como escritora. Dessa narrativa do cotidiano, entremeadas às contradições de seu tempo, emergem reflexões que permanecem mais atuais do que nunca. Eis aqui Carolina por completo, uma escritora brilhante e sem-par em nossa literatura, que desafiou todas as barreiras impostas por uma sociedade racista e desigual.
 
2. Em dezembro de 1960, depois de deixar a favela do Canindé e morar brevemente em Osasco, Carolina Maria de Jesus comprou sua tão sonhada casa de alvenaria, em Santana, onde viveu antes de se mudar para um sítio em Parelheiros. O segundo volume de Casa de alvenaria inclui diários que se estendem até dezembro de 1963, com conteúdo inédito ou fora de circulação há décadas. Através desses registros, acompanhamos a nova vida de Carolina, a movimentação em sua casa, as viagens e, sobretudo, a dificuldade de transpor as barreiras do racismo e da estigmatização para ser reconhecida como escritora. Feita a partir dos manuscritos originais de Carolina, esta nova edição é uma oportunidade de conhecer uma das maiores escritoras brasileiras na íntegra e por ela própria — seus sonhos, suas vontades, seu projeto literário e suas desilusões. O livro inclui introdução de Conceição Evaristo e Vera Eunice de Jesus e pode ser lido independentemente do volume anterior.
 
Com uma prosa inquietante, este livro ressoa de maneira fervorosa a experiência da expropriação.
 
No verão de 1949 — um ano depois do Nakba, episódio catastrófico que expulsou mais de 700 mil palestinos de suas terras —, soldados israelenses atacam um grupo de beduínos no deserto do Neguev, dizimando a todos, exceto uma adolescente, que é capturada e violentada. Anos mais tarde, uma palestina busca desvendar alguns dos detalhes que cercam o caso. Com uma prosa inquietante, este livro ressoa de maneira fervorosa a experiência da expropriação. A tradução é de Safa Jubran. Detalhe menor, de Adania Shibli, é publicado pela editora Todavia.
 
A edição da Autêntica para esse clássico presente em todas as casas editoriais brasileiras.
 
No original, Animal farm. Na versão que circula no Brasil desde 1964, A revolução dos bichos — sendo que, em todo o livro, não aparece a palavra revolução: a que define a ação dos animais é rebelião. O primeiro tradutor era secretário do general Golbery do Couto e Silva, criador do Serviço Nacional de Informações (SNI) da ditadura militar. Sátira contundente ao totalitarismo soviético, o livro foi usado pelos anticomunistas para propagar que “toda revolução termina em regime de terror” — e está explicado o porquê de um título tão infiel como o brasileiro ao original e à intenção do autor. Até agora. Rigorosamente, seria Fazenda animal. Optamos por A fazenda dos animais, bastante próximo e que também promete o que o texto cumpre: uma denúncia da corrupção promovida pelo poder, pela ganância, que não fazem mais do que provocar a opressão dos fracos pelos fortes, numa fábula às avessas em que a exploração dos mais frágeis pelos poderosos alimenta a posse, o domínio, a manipulação de informações e de vidas. Atualíssimos, portanto, título e texto. A tradução é de Fábio Bonillo e o livro conta texto de apresentação escrito por Paulo Scott.
 
O terceiro romance do filósofo Michel Henry.
 
José, o narrador, está preso num hospital psiquiátrico e acredita ser filho de um rei. Sua convicção de ser um membro da realeza se baseia numa lógica mental tão rigorosa que marca profundamente todas as pessoas que o rodeiam — pacientes, enfermeiras e até os médicos. José também é um analista. Examina, com uma lucidez impressionante, os casos dos pacientes do hospital: esquizofrenia ou paranoia incurável, mania de perseguição, escatologia, fobia, melancolia suicida etc. É através desta galeria de personagens que se encontram nos limites da vida, que se abrem os abismos da natureza humana diante dos nossos olhos. Mas José deseja sobretudo ajudar seus companheiros, proporcionar-lhes alegria e inclusive cura. Lucile se apaixona por ele: eles se conheceram (diz ela) na infância, depois se perderam e agora se reencontraram justo ali dentro do hospício. A terapia de grupo racionalmente empreendida por um interno em benefício de todos será coroada pela “festa dos loucos”, em que José será rei. Ao fim do cerimonial, alguém se oferece em sacrifício. Então, no cúmulo do desespero e nas trevas da loucura, há tal sagacidade de percepções que se termina por reafirmar, finalmente, a luminosidade da condição humana. O livro é publicado pela editora É Realizações.
 
Uma narrativa sobre a capital da Lituânia.
 
Escrita com base na cartografia histórica e geografia humana local, a cidade que também foi conhecida como “a Jerusalém da Lituânia” abrigou ao longo dos tempos inúmeros povos, falantes de diversos idiomas, em uma miscelânia cultural: judeus, poloneses, lituanos, ucranianos, bielorrussos, russos, alemães, letões, armênios, tártaros e outros grupos minoritários. Impregnada dentre seus vários componentes pelo barroco, que esteve no limiar da Europa e no contexto de suas mudanças, a cosmopolita cidade também é apresentada através de textos de pessoas ilustres ou desconhecidas, de muitas procedências e línguas, que viveram ou passaram por ela, através de relatos de experiências, sensibilidades e perspectivas próprias. Publicado pela editora Hedra, Vilna, cidade dos outros tem tradução de Fernando Klabin e prefácio de Celso Lafer.
 
O primeiro livro do alemão Timo Berger a chegar ao Brasil.
 
Timo Berger é poeta, tradutor e mediador de literatura brasileira e latino-americana na Alemanha em Berlim, onde organiza o festival de literatura Latinale. Os seus contos foram publicados em jornais, revistas e antologias alemãs e alguns deles foram traduzidos ao espanhol. Moldávia e outras histórias é o seu primeiro livro de contos publicado no Brasil. A antologia reúne contos sobre literatura, relacionamentos e os desafios de viver em uma metrópole contemporânea onde todos parecem estar de passagem. Com tradução de Douglas Pompeu, o livro é publicado pelas Edições Jabuticaba.
 
Um clássico da literatura médica, o romance que consagrou A. J. Cronin no mundo literário.
 
A cidadela oferece um panorama das condições de trabalho dos médicos no início do século XX. Por meio do protagonista, o recém-formado Dr. Andrew Manson, jovem idealista e sonhador, o autor apresenta as dificuldades do exercício da profissão na região do sul do País de Gales, onde a mineração era a atividade principal, o que acarretava tragédias, fosse em acidentes ou em consequências na questão respiratória. Andrew Manson inicia sua jornada profissional em uma pequena aldeia, chamada Drineffy, onde se dedica com paixão aos seus pacientes, revelando um lado mais humanitário e altruísta do ofício da medicina. Com o passar do tempo, o rapaz encontra novas oportunidades de trabalho e, claro, também encontra o amor, ao lado da professora Christine Barlow. É em Londres que Manson se depara com os maiores questionamentos de sua vida até então: entra em contato com a classe médica mais conceituada e com os luxos aos quais eles têm acesso. O texto de Cronin em A cidadela evidencia o drama das escolhas éticas na prática da medicina e o confronto entre abdicar de luxo e conforto pelo ofício mais humano e a esperteza de saber enriquecer por meio da profissão. Essas questões são, ainda, muito relevantes e atuais, tornando esta obra fundamental para aqueles que praticam medicina e para aqueles que têm um ideal ao qual se apegar. A tradução de Genolino Amado é publicada pela José Olympio.
 
A confirmação de Alberto Barrera Tyszka como um dos grandes contadores de histórias venezuelanos.
 
Em uma cidade devastada pela violência e pela fome, nas mãos de um Alto Comando que às vezes lembra o Big Brother de Orwell, aparece o corpo sem vida de Magaly Jiménez. Um bilhete de despedida ilegível e a organização que deixou em sua casa são todas as pistas que seu filho precisa para reconstruir os dias anteriores à morte da mãe. De mãos dadas com uma jornalista que investiga a tendência crescente de suicídios entre a população feminina, Sebastián mergulha na vida da mulher que sempre achou que conhecesse, mas da qual realmente nada sabia. Ela nem mesmo mencionara aquele clube do livro no qual ingressara para apaziguar a solidão e o ambiente hostil do país. Quando Sebastián consegue encontrar um dos membros do clube, descobre também um lado obscuro em meio ao que parecia ser um inocente encontro semanal em torno da leitura. Com uma sensibilidade única para compreender o universo feminino, seus gestos íntimos e desejos indizíveis, com o ritmo frenético de um suspense e com a profundidade analítica de uma testemunha atenta dos nossos dias. A tradução de Marco Catalão para Mulheres que matam é publicada pela É Realizações.
 
OS LIVROS POR VIR
 
Novos títulos prometem recolocar a obra de Marguerite Duras entre os leitores brasileiros.

A obra de Marguerite Duras é vasta: escreveu meia centena de romances, ensaios e textos para o teatro e o cinema. Pouquíssimo se conhece da autora no Brasil, apesar de muito publicada por aqui. O fato é que o muito que se publicou ficou pelo caminho, sem atualização com novas edições. O cenário poderá mudar. A Relicário Edições anuncia certa força tarefa para recolocar a obra da escritora francesa outra vez em circulação. Uma coleção coordenada por Adriana Lisboa tem já certa a chegada de Escrever, um conjunto de ensaios sobre a arte da escrita, e novas edições e traduções para o romance Moderato Cantabile e o roteiro de Hiroshima, Mon Amour, que resultou no filme de mesmo título dirigido por Alain Resnais. Esses títulos começam a ser publicados a partir deste semestre.

REEDIÇÕES
 
A tradução de Cláudio Aquati, então editada pela extinta Cosac Naify, é publicada pela Editora 34.
 
Tudo é impreciso quando se trata de Petrônio Árbitro, a quem a tradição atribui a autoria do Satíricon: personagem da política romana sob Nero, chegou a cônsul e chefe de cerimonial — elegantiae arbiter — no palácio do imperador, antes de ser obrigado a cometer suicídio em 66 d.C. por envolvimento numa conspiração. Seja como for, uma coisa é certa: a prosa do Satíricon não tem nada de vago ou de impreciso, pródiga que é de traços fortes, detalhes argutos e alusões ferinas. Convidando seus leitores a um riso sem cerimônias, Petrônio lança-os no meio do caos plebeu e mundaníssimo da Roma imperial, que se descortina ao sabor das cambalhotas do enredo. Seus personagens são de toda origem e de vária plumagem, de retores a gladiadores, de prostitutos a novos-ricos, cada um deles dotado de voz própria, crassa, lépida. Andam todos às voltas com o desejo e a ambição, motores centrais desse universo — e, vez por outra, também com a nostalgia e a melancolia. Têm todos, sobretudo, que se haver com a escrita cômica e paródica de seu autor, que não poupa nada nem ninguém — e que faz do Satíricon uma das obras centrais da literatura latina e — por que não? — do romance ocidental.
 
A influência de Blaise Cendrars entre os modernistas brasileiros revista e ampliada.
 
Nesta nova edição, revista e ampliada, a historiadora e crítica de arte Aracy Amaral examina detalhadamente; e de forma pioneira; as relações do poeta suíço-francês Blaise Cendrars com os modernistas no Brasil. Blaise Cendrars no Brasil e os modernistas aborda, entre outros fatos, o encontro do artista com o grupo brasileiro em 1923, em Paris, a vinda do poeta ao Brasil no ano seguinte e as marcas que essa visita causou tanto em Cendrars como em Mário, Oswald de Andrade, Tarsila, Paulo Prado e outros.
 
OBITUÁRIO
 
Morreu Vicente Franz Cecim.
 
Vicente Franz Cecim nasceu a 7 de agosto de 1946. Seu início no universo criativo principia com o cinema; nos anos 1970, realizou o ciclo de filmes “KinemAndara”. A atividade será retomada trinta anos depois, intervalo quando esteve mergulhado na maior parte na criação de uma obra literária vasta e singular. Viagem a Andara, o livro invisível se tornou a grande obra de uma vida, composta e recomposta continuamente entre 1979, quando estreia na literatura com A asa e a serpente até Oniá, um dos três inéditos que se publica na obra definitiva em 2020. Reconhecido dentro e fora do Brasil, sua obra foi agraciada com prêmios como o de Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA, 1980 e 1988). O poeta morreu decorrente de complicações com a Covid-19.
 
Morreu Janet Malcolm.

Janet Malcolm nasceu em Praga em 1934 e emigrou com a família para os Estados Unidos em 1939. Neste país fez sua formação e se tornou um dos nomes mais importantes do chamado novo jornalismo, atuando em redações importantes como The New Yorker. Escreveu importantes livros de reportagem, muitos publicados no Brasil, como: A mulher calada, Psicanálise: a profissão impossível, Nos arquivos de Freud e Duas vidas: Gertrude e Alice, O jornalista e o assassino, Anatomia de um julgamento e ensaios como, 41 inícios falsos e Lendo Tchekhov. Em 2013 recebeu o National Book Critics Circle. A jornalista e escritora morreu a 16 de junho, em Manhattan.
 
DICAS DE LEITURA
 
Chegamos à primeira metade de 2021. E repetimos a dose do que fizemos no ano anterior nesta seção de recomendações de leitura: destacamos alguns títulos que apareceram neste semestre que precisamos acrescentar (por aqui já acrescentamos) ao nosso radar de interesses. Começamos com os títulos de poesia e agora trazemos prosa de literatura brasileira; é uma alternativa de privilegiar um pouco mais dos nossos frente à grande quantidade de títulos estrangeiros editados — estes farão parte na edição seguinte deste boletim.
 
1. O último gozo do mundo, de Bernardo Carvalho. Este é um escritor há muito integrado ao rol dos importantes nomes da nossa literatura recente que pedem atenção constante às suas novidades que nos chegam. O romance publicado em maio pela Companhia das Letras se organiza entre duas linhas de longas distâncias e, por isso, ainda que aparentemente, tidas como intocáveis: individualidade e coletividade; cotidiano e história. Nesta novela, uma mulher parte com o filho pequeno para um retiro no Brasil profundo tomada pela variedade de memórias e em busca de algumas respostas para um rastilho feito de perguntas que toldam a já tumultuada ordem de seus sentidos.
 
2. O riso dos ratos, de Joca Reiners Terron. Situado num universo em degeneração, este romance se ergue por entre duas instâncias — a da violência e da vingança. Depois de saber sobre a violência sofrida por sua filha, um homem, passando pelos dias finais de sua vida, decide gastar este tempo que ainda resta para fazer o criminoso pagar caro pelo que fez. O que se coloca como impasse é que nem o inimigo nem a filha estão ao seu alcance. “No retrato desse país sem nome e sem esperança, Joca Reiners Terron imprime a urgência do presente ao mesmo tempo que investiga as chagas do passado.”
 
3. Você não vai dizer nada, de Julia Codo. As miudezas de um cotidiano envolto — ou seria revolto — numa atmosfera de peso grotesco que se sustenta pela palavra aliada ao seu valor lírico. Ou seja, o mundo entrevisto pela cadência do poético; uma narrativa situada no meio caminho de um realismo brutal e uma intimidade única, forma feita do valor paradoxal e necessário para a captura de um tempo de natureza igualmente prolixa. O livro está publicado pela Editora Nós.
 
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
 
1. No último dia 18 passaram-se onze anos sobre a morte de José Saramago. Recomendamos este vídeo gravado pelo editor do Letras para uma campanha da Fundação José Saramago de incentivo à leitura no início da pandemia em 2020. 
 
2. Por falar sobre José Saramago e sobre a fundação que cuida do legado do escritor português, vale sublinhar a ampla reforma apresentada no site da instituição. Os leitores passam a contar com uma página especial com agenda para o rico programa de celebrações do ano do centenário (em 2022 — falamos sobre na edição anterior deste boletim), uma loja virtual e uma variedade de materiais em torno da obra saramaguiana.
 
BAÚ DE LETRAS
 
1. No dia 16 de junho, é comemorado o Bloomsday, feriado instituído na Irlanda para homenagear a personagem Leopold Bloom, protagonista de Ulysses, de James Joyce. Em todo o mundo, é o único dia dedicado ao personagem de um livro. No nosso Twitter preparamos este fio com algumas das várias publicações no Letras sobre este romance.  

2. Já sobre José Saramago, também a variedade de materiais no blog é enorme: contos, ensaios, resenhas, listas de recomendações, curiosidades etc. etc. O leitor pode percorrer por esse universo todo a partir daqui
 
3. Neste 19 de junho celebramos o aniversário de Chico Buarque. Numa visita ao baú do Letras, o leitor poderá encontrará textos sobre a obra do escritor para cada um dos seus romances já publicados. Mas, nesta ocasião, recordamos uma sequência de posts para um dossiê marcando os seus 70 anos, em 2014. 

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Comentários

Anônimo disse…
que notícia maravilhosa a chegada desses livros - dez!!! - da Marguerite <3

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