Literatura sob os escombros

Por Luz Gómez García

Wissan Al Jazairy. Spring of pain


A batalha dos escritores 

Nas letras árabes existia uma anedota que o século XXI derrubou: “Os livros se escrevem no Cairo, são impressos em Beirute e lidos em Bagdá”. Como tantas outras coisas da vida árabe depois das revoltas de 2011, agora nada é como era, tampouco o contrário. As certezas rareiam e o pensamento paradoxal domina também a literatura e a vida literária árabes, mais plurais que nunca.

Depois de um século de construção de grandes narrativas, em que o romance se impôs como o gênero dos novos tempos, embora não alcançasse superar de um todo a aura da poesia, a literatura árabe afronta as misérias de um presente mais miserável do que nunca seria possível imaginar. Os autores iraquianos e sírios vêm fazendo o que fazem desde há décadas, rompendo sem tabus quando em outras latitudes árabes buscam válvulas de escape mais oníricas, líricas ou mais simbólicas. Hoje, iraquianos e sírios dominam o panorama literário árabe e acumulam prêmios e reconhecimentos, o que nem sempre é bem recebido por seus colegas, sobretudo os egípcios e os libaneses.

Síria e Iraque, Damasco e Bagdá, nomes de ressonâncias míticas no imaginário coletivo, vivem atualmente o levante da violência sectária e o autoritarismo mais brutal, para não falar da irresponsabilidade estrangeira, sobretudo daquelas sociedades bem conhecidas por seu orgulho nacional. Ante o esmagador peso desta realidade, que determina qualquer fazer artístico, uma geração de escritores quem nem sequer desfrutou dos cantos da sereia pan-árabe, enfrenta a repressão no seu interior ou a dor da liberdade no exílio. Embora repressão e exílio sejam experiências bem conhecidas pelos mais velhos: já em 1975, Abdul Rahman Munif, o impulsionador da renovação narrativa pós-mahfuziana, agitou o calmo corpo do progresso acomodado publicando Ao leste do Mediterrâneo*, um relato em primeira pessoa de um ex-prissioneiro político; e em 1981, Alia Mamduh, depois de abandonar o Iraque, publicou Laila e o lobo, uma Chapeuzinho Vermelho árabe contra o patriarcado e o autoritarismo.

A brutalidade das ditaduras da Síria e Iraque marcaram com fogo suas literaturas. A repressão, a tortura, a prisão, o exílio, o sectarismo, a delação são temas onipresentes no romance, aparentemente obsessivos para um observador alheio, capaz de sentenciar que os romancistas árabes são todos muito tétricos. É possível que esse todos quase seja certo, pois a desmesura da situação não permite andar muito adiante. O que não significa, como a generalização supõe, que todos sejam iguais nem que o resultado os desmereça. Em tudo e em nada se parecem o eu de Viagem ao desconhecido, de Aram Karabet, e o de A carapaça, de Mustafa Khalifa, para citar dois exemplos próximos entre si e ambos sírios. Mas, e o mais chamativo na atual renovação, não são as personagens fortes masculinas as principais protagonistas. Cidades e mulheres destacam-se e às vezes confundidas entre si. Sobressaem Alepo e Bagdá, que nutrem respectivamente a narrativa de Khaled Khalifa (Não há facas nas cozinhas desta cidade, 2013), roteirista e romancista sírio, uma das vozes literárias da revolução de 2011, e Sinan Antoon (Fragmentos de Bagdá), poeta e romancista iraquiano. Uma recente obra-prima é Frankenstein em Bagdá (2013), do também iraquiano Ahmed Saadawi, em que as borradas fronteiras entre o verossímil e o inverossímil, o pessoal e o coletivo, são habitadas por um Frankenstein bagdamês antropófago da cidade e de si próprio.

Estas urbes literárias, corroídas pelo peso da família e da religião, estão densamente povoadas por mulheres castradas que se rebelam, sempre a um custo muito alto, quando não inútil. São inesquecíveis as jihadistas avant la lettre de Elogio do ódio, também de Khaled Khalifa, publicado em 2008, e as três amigas da classe média de Damasco de Os guardiães do ar, de Rosa Yasin Hasan, que lutam contra a frustração acumulada nos anos e anos de brutal repressão política e sexual.

Não é fácil para um romancista árabe remar entre a seriedade e o humor, meio negro, meio absurdo, ou entre o realismo e o intimismo enquanto se acumulam as ruínas pessoais e coletivas. Até a forte língua literária árabe sucumbe à decomposição reinantes e se apega à oralidade. O cara mais esperto do Facebook, do sírio Abud Said (Editora 34, no Brasil); O louco da praça da Liberdade, do iraquiano Hassan Blasim; ou A fronteira. Memória de minha destruída Síria, de Samar Yazbek, incorporam novos tons que em seu contar enterram o então tabernáculo dos árabes, sua língua. Se para o bem ou para mal, o futuro dirá. 

Síria, literatura sob os escombros

Faz tempo que os sírios perderam a confiança em quase tudo: nas instituições internacionais, na política, na guerra e, principalmente, na paz. É mérito inquestionável da brutalidade do regime dos Assad, com o auxílio impagável dos jihadistas e a displicência da chamada comunidade internacional. Mas, esses mesmos sírios ainda encontram meios quase impossíveis para alimentar sua capacidade de resiliência frente à violência estrutural, os bombardeios e as armas químicas. Nem mesmo a recente queda do bastião do ISIS em Raqqa os garante um futuro digno de tal nome.

Um desses recursos, muito peculiar ao povo sírio, praticamente perdido em outras latitudes, é a fé na força das palavras, na capacidade performativa do simples fato de contar e recontar o que se passa. Um narrar sem truques, sem grandiloquência, nem argúcias dialéticas, deixando que o que se conta discorra por si só, para recordá-lo a si mesmo e recordar os outros, com a convicção de que no contar o que se passa está em jogo algo mais – a salvação da loucura: na guerra da Síria se joga o futuro da democracia no Oriente Próximo, que o mesmo que dizer a estabilidade da Europa. Olhar para outro lado, atitude naturalizada entre os europeus, é querer negar um Mediterrâneo dividido e seguir alimentando o fundo das águas com refugiados, como se a geografia e a história pudessem se ignorar. 

Os sírios não foram acostumados a levantar a voz, mas não deixam de pedir a palavra várias vezes, nos fóruns internacionais, nos acampamentos de refugiados, no exílio e mesmo sob a censura em seu próprio país. Normalmente eles não recebem atenção. Três livros publicados recentemente dão conta de suas penúrias: o romance A carapaça, de Mustafa Khalifa, um pequeno mito para a infortunada geração síria dos anos oitenta que sofreu a repressão desde Assad pai e agora a de Assad filho, uma narrativa assustadora sobre toda sorte de atrocidades do regime; o ensaio-reportagem País em chamas. Os sírios na revolução e na guerra, de Robin Yassin-Kassab e Leila al Shami, dois autores com um pé na Síria e outro no Reino Unido que fazem uma crônica a partir das vozes de seus protagonistas, do estopim revolucionário e seu sequestro por assadistas e jihadistas; e o Diário da tomada de Duma 2013, de Samira Khalil, uma compilação de notas pessoais da ativista pelos direitos humanos sequestrada junto com outros três companheiros há quatro anos, todos eles desparecidos.

Mustafa Khalifa não se considera escritor, quis nunca haver precisado de escrever A carapaça, seu único romance. Do exílio em Paris, nunca para de explicar por que não pode deixar de escrever se ele, sobretudo, se considera um olhar ou, em termos artísticos, um cineasta. Khalifa quase parece não reconhecer sua obra, cuja verdade teme, pois A carapaça mergulha o leitor no terror e no ódio que se formam nas vítimas dos cárceres da ditadura síria, onde o autor passou treze anos. Contudo, para Khalifa não há heroísmo nem na prisão nem na libertação, ambas são condições forçadas, pois “o herói verdadeiro jamais o é por abrir um caminho que foi imposto”. Sua peripécia pessoal, a de um cristão com simpatia pelo comunismo que as autoridades detêm por irmão muçulmano, é um absurdo que se passa num tempo fora do tempo e do espaço: em nenhum momento se nomeiam os lugares, as personagens ou os acontecimentos históricos – não fazem falta, seriam anedotas ante a criminalidade sistêmica denunciada. E nisso reside a força do narrado e sua atualidade. As atrocidades dos cárceres dos Assad só conheceram solução de continuidade. Recentemente a Anistia Internacional qualificou de “matadouro humano” a prisão de Saydnaya, onde haveriam sido assassinados entre 5 e 13 mil pessoas entre 2011 e 2015.

A formação e a dispersão da ditadura dos Assad são questões fundamentais para compreender o estopim da revolução popular de 2011 e a guerra vinda depois. Ignorar o caráter criminoso e sectário do regime, como faz um setor negacionista da esquerda ocidental, é alimentar o falso mito de uma Síria anti-imperialista, que tanto dano tem feito à causa da liberdade neste país e cujas consequências as várias gerações têm sofrido desde o Golpe de Estado de Hafez a Assad em 1970. País em chamas explica com profundidade estes antecedentes para se tornar logo na crônica da revolução desde sua visibilidade e em como o conflito se militarizou. No relato bivocal que Yassin-Kassab e Al Shami apresentam se misturam vozes de toda condição, sem que falte uma dolorosa crítica às elites sírias e uma pertinente reivindicação da nova cultura criada pela revolução. 

A crônica dos autores finda em 2015 – é, portanto, um epílogo importante para compreender os fatores que levaram as recentes metástases da guerra: a intervenção neoimperial da Rússia, a volatilidade dos apoios estadunidenses aos rebeldes, as infiltrações do Estado Islâmico, as rivalidades entre Turquia, Arábia Saudita e Catar e a luta do Irã por consolidar sua hegemonia. Tudo o que podia piorar, piorou.

Samira Khalil desapareceu em dezembro de 2013 juntamente com Razan Zaituneh, Wael Hammada e Nazem Hamadi, sequestrados por milícias jihadistas. Haviam se refugiado em Duma, a poucos quilômetros de Damasco, perseguidos pelo regime. Os jihadistas e Assad compartilham objetivos – o primeiro deles é acabar com a liberdade de consciência. O Diário de Samira reúne suas anotações pessoais e algumas postagens de seu Facebook, recuperadas quase por sorte por seu companheiro, Yassin al-Haj Saleh, importante ensaísta sírio que se ocupou da edição deste valioso e emocionante documento. 

“Não tinha intenção de escrever: só escrevo para contar o que se passa”, é a confissão que abre o diário no Outono de 2013. E o que se passa em Duma é um massacre cotidiano com responsáveis de diversos graus: do Exército assadiano, que toma a cidade; dos grupos jihadistas rivais, que cortam o abastecimento de produtos básicos segundo convenha seus interesses; as agências de ajuda internacional, que abandonaram o lugar; os Estados Unidos e seus sócios no Golfo, que se servem da população refém para seus mercados geopolíticos... O mais surpreendente destas páginas é que apesar da dureza extrema de muitos relatos, Samira Khalil repete a si mesma que há um futuro, que a liberdade chegará apesar da fome, da falta de remédios, do frio, das bombas mais letais, dos franco-atiradores e do gás sarin. Samira, militante comunista que também conheceu os cárceres de Assad pai, encarna em seu dia a dia a convicção de muitos sírios de que a crueldade e a tergiversação histórica acabarão por sucumbir ante a força da empatia e da solidariedade dos incrédulos.

* Exceto o título do livro de Abud Saida, todos os títulos apresentados neste texto são traduções diretas a partir do espanhol. Este texto é também uma tradução de "La batalla de los escritores" e "Siria, literatura bajo los escombros", publicados no suplemento Babelia.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Uma pedra no caminho para a modernidade: o projeto drummondiano de humanizar o Brasil

Os melhores diários de escritores

A partir de quando alguém que escreve se converte num escritor?

Boletim Letras 360º #241

Onze livros sobre escravidão e racismo na literatura estadunidense

Escritos nas margens

A relevância atual de Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos

O túmulo de Oscar Wilde

Angela Carter, a primazia de subverter

Ivan Búnin