Teresina etc. — algumas lições de vida breve

Por Lucas Paolillo


“Para Dona Teresina a igualdade era uma religião [...]. Isso é o que ela chamava de afetividade socialista. Ela vivia de dentro a igualdade, eu aprendi muito com ela essas coisas. E depois era uma pessoa que mostrava que socialista não pode ser vaidoso, o socialista não pode ser egocêntrico, de modo que o que eu aprendi com ela foi muito essa coisa ética. Eu, quando vejo socialista pavão, fico apavorado”

— Antonio Candido, excerto de Antonio Candido, o observador literário (1995).


Antonio Candido. Foto: Versátil Home Video


Quando retomamos os livros escritos por Antonio Candido, Teresina etc. (1980) possivelmente se situa entre os menos comentados como unidade fechada. O que não quer dizer que em seu interior não figurem ensaios célebres. Fora de dúvida, seu texto mais conhecido é também o mais antigo: “Raízes do Brasil” (1969), publicado originalmente como prefácio à quinta edição do livro de Sérgio Buarque de Holanda — admiração cultivada ao ponto de Candido ter guardado consigo a máquina de escrever na qual o livro prefaciado fora escrito. Não é para menos que seja assim. Como se sabe, o prefácio em questão exerceu influência seminal para consolidar a trinca de intérpretes do Brasil — Gilberto Freire, Holanda e Caio Prado Jr. — como cânones de ruptura. Os três, sobretudo os dois últimos embora não apenas, viriam a ser tomados como representantes da tradição crítica brasileira, a qual o nome de Candido viria a ser devidamente ajuntado.

Em ordem de sucessão, o índice do livro é composto por “Teresina e seus amigos” (s. d.), “Radicais de ocasião” (1978), “Feitos da burguesia” (1976), “O congresso dos escritores” (1975), “A verdade da repressão” (1972), “Integralismo = Fascismo?” (1978), o mencionado prefácio e “Clima” (1978). Em sua maioria, foram publicados originalmente na imprensa não hegemônica de seu tempo, em periódicos de esquerda ou revistas acadêmicas. Alguns, vale mencionar, são frutos de intervenções orais. Aglutinados, montam um arco temporal que vai de 1969 a 1978. Ou seja, do período imediatamente posterior ao AI-5 no final de Costa e Silva, atravessam os terríveis anos de Médici e deságuam na tutela de Geisel para serem reunidos e publicados no alvorecer modorrento sob Figueiredo. No trilho dos nomes e datas que lustra a careca desses quatro generais, temos a mudança irreversível de época e, sob ela, a discreta porém urgente proposta de conversa naqueles pequenos coquetéis. Por baixo dos panos, cada uma daquelas garrafas jogadas ao mar rabiscou recados muito bem dados, numa aposta que, se entendida bem, percorreu desafios vivos e nexos históricos com destreza.

Com esse sentido em mente, observar o pequeno punhado de comentários já escritos sobre o volume sugere um consenso ao notar a novidade do recurso à memória e ao testemunho — o tal do comentário à margem. Além disso, um ou outro aponta desobrigações em vista da aposentadoria, acentuando liberdade de estilo, e houve mesmo quem chegou a falar numa suposta desorientação que fez buscar refúgio no passado. Todos esses quatro pontos fazem lembrar de Candido como leitor de Proust e/ou conversam diretamente com a passagem do tempo. Quanto aos três primeiros, concordamos, para início de conversa. Quanto ao último, talvez não seja rumo dos mais férteis à compreensão do que realmente estava em jogo. Lá pelas tantas, há um momento no livro em que se diz: “o intuito desse artigo não é propor comemoração de nada, nem mesmo fazer retórica sentimental sobre acontecimentos passados, como está ficando cada vez mais em moda neste tempo de complacência autobiográfica; mas apenas lembrar que certos momentos do passado podem servir de pretexto ou estímulo para refletir sobre o presente”. Ao pé da letra, não parece indício de refúgio. 

A questão é que, nessa toada viva, Teresina etc. (1980) exala política do início ao fim. Mas não qualquer tipo de política. Política, talvez por falta de palavra melhor, em sentido preciso, atento aos variados efeitos em jogo. Entre a novidade improvável da fratura e o desejo de experiência cumulativa, essa ação política, se entendemos bem, se quer sem cabeçadas, sob auspícios da coordenação motora fina. Para encurtar o argumento, poderíamos imaginar o livro aplaudido, invencionice para além de remotas alergias, por certo estrategista de berço sardo. Para Candido, talvez bastasse, em simpatia nem tão distante assim, a sintonia proposta por ele mesmo ao falar sobre os passos de uma italiana radicada no Brasil, tornada militante: Teresina, nascida em Régio da Emília, Fontanellato. No eco desses passos, os traços de ação política exalados, passados em revista. Porém, a surpresa: junto às nesgas ruinosas da ilustração do final do século XIX, um dado que muito nos interessa está na atenção aos alicerces e alcances modestos, no comezinho. Naqueles ecos de Teresina, temos lentes que conversam com inteireza de princípios e flexibilidade tática. Dimensões fiadas por um sentimento sensível ao tratamento fundamental das situações, o que dá a ver, a seu modo, entrega total e pés no chão. Nesse caldeirão no qual se fermentam as lições da afetividade socialista, pistas mais do que úteis a serem revisitadas diante da profusão de ratoeiras febris do tempo presente, em que posições anunciadas não correspondem ao que são.

Para termos uma noção mais exata desse procedimento — um entrelaçamento entre memória e política, por exemplo, em torno de uma figura menor — vejamos mais de perto o prefácio escrito por Candido ao doutorado Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1920-1940), de Sérgio Miceli (defendido em 1978 com Candido na banca e editorado somente em 1979). Embora excluído do livro, a atmosfera de época fica posta inclusive nas datas. Naquelas linhas, a preocupação exata com a formação da perspectiva histórica, traço comum a todo Teresina etc. (1980). Enquanto Miceli “fala de homens catalogados, quase sempre remotos para ele, autores de livro que leu sem associá-los à figura e ao gesto de quem os escreveu; que se tornaram objeto de informação contra ou a favor, e que ele avalia por comparação, por redução aos conceitos, conforme as necessidades de argumentar”, a perspectiva do arguidor-prefaciador difere: “eu não os vejo assim, porque me formei olhando-os na rua, nas fotografias de jornal, nas salas, no noticiário e na referência viva de terceiros. Tomei partido, julguei os seus atos em função dos meus, orientei os meus pelos deles. Portanto não consigo vê-los de longe e, às vezes, nem aceitar como verdade manipulável intelectualmente os dados das suas biografias e autobiografias”. Ou seja, para o Candido que observamos nesse texto, critérios dão as mãos diretamente à experiência.

Nessa postura, a régua e o compasso do crítico mostram extração de força das coisas acesas por dentro, repensadas. Dimensão que, se perdida de vista, pode desinteressar se passando por detalhes, atenção a personagens menores, anedotas simples e coisas e tais. Tudo, aliás, absolutamente inglório como assunto a leitores umbigados e misantropos. No entanto, em contraponto, é na atenção aos processos que sustentam os entornos (o que compreende a relação entre localismo e cosmopolitismo) que Candido se contrapõe com clareza aos enganos históricos do esquematismo, valorizando, como remédio e em sentido amplo, o testemunho bem pensado da convivência, das forças mais próximas que dão a ensinar. Chegando, inclusive, a valorizar naquela anarquista sem renome algo na linha não de um programa de transição, mas de uma afetividade prática. Por essas e outras, não parece mera coincidência a memória surgir colada à ação justamente no momento em que a formação mesma deu com os burros n’água. Com atenção à ressonância dos efeitos da cultura que podia haver, o livro escolhe bem seus contrapontos: fascistização, violência de Estado, precipitação desastrada etc. Também escolhe bem no que deve se deter para apontar a argumentos e diretrizes.

No livro, o método de apresentação dos capítulos dá a senha: tudo começa com “Teresina e seus amigos” (s. d.), continuação de uma crônica de 1957 publicada em jornal, mas posta no livro sem indicação de datas. Nele, Candido dá início ao retrato de Teresa Maria Carini, a militante mencionada, e, através do entalhe, aprecia naquela recordação refletida as posições cultivadas no entorno dela, pensando o envelhecimento histórico da sua figura e da sua geração conforme escolhas feitas mediante o balanço das horas. Central, é esse o texto que batiza todo o volume (Teresina etc.) com a ênfase e a graça que empurram para o saco de gatos das outras coisas tudo aquilo que não é Teresina (em entrevista, Candido menciona o gosto de se alongar ao tratá-la como assunto: “D. Teresina... Preciso fazer força para falar o mais sintético possível, porque senão falo até o ano que vem”). Trata-se de senha que fala do extraordinário no comum.

É esse o texto que nos interessa para a coluna de hoje. Porém, antes de nos achegarmos, falemos um pouco mais não de Teresina, mas de todo o etc., dado que, ao gosto do crítico, um termo e outro se articulam. Deste modo, levantemos algumas das lebres nos ensaios conforme a disposição no volume: “Radicais de ocasião” (1978) é o segundo da vez, vindo após “Teresina e seus amigos” (s. d.). Ele convida a um olhar a contrapelo, atento à assimilação dos atos discordantes dos conformistas (“uma palavra, um ato, um artigo, uma contribuição, uma assinatura, o auxílio a um perseguido. Se fosse possível computar esses fatos ocasionais, essas atividades temporárias, talvez resultasse um total imenso de forças”) que “no dia do Juízo Final” (atenção ao timbre que de certo timbraria aos ouvidos de Willi Bolle por lembrar Rosa e Benjamin numa tacada) “haverão de ser computados como a sua hora e vez”. Temos, naquele texto, aí sim, todo um programa para organizar a memória do pensamento brasileiro. Não é à toa que ele vem após Teresina. Sobretudo quando consideramos, conforme se verá, as escolhas dela e de seus antigos camaradas. O que dá um pouco a tônica das preocupações e do peso do que Candido antevê como “dia do Juízo Final”. 

O terceiro, “Feitos da burguesia” (1976), compartilha publicamente a arguição de Candido feita na banca de doutoramento de Maria Rita Galvão sobre cinema paulista. Ali, é feito um esforço para convidar à precisão na consideração das realizações de cultura, as quais demandam matizar precisamente pelo efetivo. Por sua vez, “O congresso dos escritores” (1975) retoma o primeiro evento cultural que se contrapôs publicamente aos ditames do Estado Novo, pensando-o junto ao processo de organização e formulação da sua Declaração de Princípios, a qual, na ocasião, contava com a importância de elementos mínimos — com autonomia estratégica de princípios, porém sem sectarismo tático. 

Já “A verdade da repressão” (1972) fala com coragem sobre a relação pulverizante entre ordem social e violência ao comentar passagens de autores-chave da literatura — como Balzac, Victor Hugo e Kafka – e um filme de cinema com o tema. “Integralismo = fascismo?” (1978) é outro prefácio, agora escrito para O integralismo de Plinio Salgado (1978), de J. Chasin. Conversa que dá a ver uma apreciação crítica de olho nos méritos do livro, mas que denuncia e calibra seu engessamento. Por isso, recorre tanto ao compartilhamento de vivências, tomando o integralismo como contraponto precário às oligarquias, quanto aos sentidos do enquadramento proposto, ao pensar a AIB junto às outras organizações de então. 

A edição mais recente de Teresina etc., publicada em 2023.


Chegamos ao mencionado prefácio de Raízes do Brasil (1969), no qual Candido oferece as cores da geração que viveu a passagem de 1930, então com mais de cinquenta anos e, por isso, apta a prestar testemunho, dado que “a certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço no passado sem cair em autocomplacência, porque o nosso testemunho se torna registro da experiência de muitos, de todos que, pertencendo ao que se chama uma geração, julgam-se a princípio diferentes uns dos outros, mas vão aos poucos ficando tão iguais, que acabam desaparecendo como indivíduos para se dissolverem nas características gerais da sua época. Então, registrar o passado não é falar de si; é falar dos que participaram de uma certa ordem de interesses e de visão do mundo, no momento particular do tempo que se deseja evocar”. Como passagem de um ponto de vista periférico ao outro — digamos, do testamento à plataforma —, temos, ao final, o desfecho com “Clima” (1978), transcrição corrigida de intervenção oral sobre o grupo de colegas ao qual pertencia. Nele, o crítico acentua o desejo de participação cultural ativo e suas desventuras e realizações diante da revista. Em seu interior, uma mudança de mentalidades surge em registro próprio à geração universitária, agora marcada pelo rigor e por um modesto radicalismo sintonizado com a esquerda livre.

Arrolada a sequência das partes do livro, temos aberto um leque temático. Com ele, podemos observar, no sobrevoo, preocupações recorrentes que relacionam nuance, discrição, consideração íntima e efeitos políticos plurais. Tudo entre a memória e a ação. Como moral da história, digamos, lições de vida breve que falam, de um modo geral, em não jogar fora o bebê com a água do banho. De um modo como de outro, posto na mesa o peixe, podemos pensar nesse leque não onde estávamos, no etc., mas aterrissando Teresina adentro. Assim, temos uma noção para a compreensão do narrador que encontramos ali. Voltaremos a esse assunto.

De volta ao ensaio de abertura, o mais extenso do volume, temos três partes, cada uma delas dotada de tópicos próprios. Falemos, a título de aproximação, sobre características sobressalentes no interior de cada um deles. A primeira parte, “Crônica inicial”, se divide em três tópicos que percorrem aquela figura que não fez questão nenhuma de ser célebre. “Fontanellato”, o primeiro tópico, informa dados básicos para a caracterização de Teresina, situando seu contexto de nascimento na Itália, em 1863, junto a traços de costumes de berço e coisas assim. Ficamos sabendo sobre o casamento dela com o violoncelista Guido Rocchi e, detalhe importante, tudo pelas rebarbas dos Sanvitale, uma família de nobres decadentes para os quais o pai dela trabalhou e que influenciaram seus costumes. 

“Música e Brasil” dá a ver impressões iniciais do deslocamento geográfico, com a vinda do casal ao Brasil ainda no final do século XIX. Nesse pedaço brasileiro do novo mundo, peripécias e desagravos ora gratificantes, ora frustrantes. No desenrolar destes, são descritos choques térmicos entre costumes europeus e brasileiros. O último tópico da primeira parte, “O casal mal afinado”, conta a passagem decisiva de Teresina pela cidade de São Paulo e fala em como ela se desvencilhou de amarras importantes, fazendo-se mulher livre, percorrendo um caminho junto à cena de anarquistas, socialistas e sindicalistas da belle époque. Sendo a maioria deles imigrantes, como ela. Com os desencontros de temperamento cada vez mais evidentes entre ela e o marido músico, somos informados da separação do casal.

A segunda parte, “O ser e as ‘convinções’”, se divide em quatro tópicos. Aqui é que encontramos mais de perto, pela primeira vez, esboços da afetividade socialista de Teresina. “Nela o sentimento da igualdade era visceral, e provavelmente nunca sentiu entre os indivíduos as diferenças de classe que reconhecia e combatia”. Tudo por extenso, na vida concreta. Nada postulado, sem segredo nem glamour. O primeiro tópico, “Retrato falado”, é um corte abrupto. Não vemos mais a jovem anarquista e sua vida de concertos, mas uma senhora, Dona Teresina, e suas simpatias e manias, agora moradora de Poços de Caldas. Com os dois pés na vida comum, como a maioria de nós, diga-se, encontramos a professora de línguas e de costura, amante de gatos, repleta de casos e anedotas sobre si e sobre os outros. Uma pessoa que sofreu, antes do mais, a passagem do tempo. Como no início, a província. Porém, agora, a personagem está transformada em ferrenha antifascista igualitarista. 

“Ser Socialista”, com ésse maiúsculo e tudo, desenha alguns dos traços típicos das ações de Teresina voltadas ao cotidiano: “um ‘modo se ser’, segundo o qual a revolução se torna concepção integral, iluminando e condicionando o pormenor dos atos e a tonalidade da vida. À sua maneira, foi portanto uma revolucionária, embora a mais complexa que se possa imaginar, englobando fraternalmente as ideologias do contra de Rousseau a Lenin”. Nesse encalço, Candido percorre suas referências literárias e preferências políticas. “Écrasons l’Infâme”, por sua vez, nos convoca a pensar sobre a ruptura fundamental para compreendê-la como exceção à regra da condição de mulher na virada do século: o papel decisivo do anticlericalismo como garantia para a autonomia de perspectivas, dada a aversão a dogmas e demais obrigações disciplinares que impunham restrições profundas. 

“Militância e fascismo” é o tópico que fecha a segunda parte. Ali, temos, de certo modo, um esboço de figura delineado. Nele, Candido comenta como Teresina foi leitora arguta de seu tempo ao examinar de perto suas correspondências — fonte muito presente, aliás, em todo o ensaio. Naquelas cartas, temos registros iluminadores do segredo que une as pontas entre a jovem e a senhora: do interior, e à distância, Teresina avaliou a si mesma e suas relações frente aos horrores descortinados. Ela tomou conhecimento de que muitos dos seus camaradas embarcaram na canoa sinistra do fascismo. Se não bastasse o alinhamento abominável, alguns deles viriam a ser colaboradores de gabinete. Distante da Itália, ela se informou aos poucos dos paradeiros e da situação por cartas, jornais e rádio, acompanhando a devastação no segundo round da Grande Guerra. Derrotadas militarmente as potências do Eixo, os seus anos de vida haviam passado e as retinas já estavam gastas. Teresina, que morreria em breve, ainda viveu para escrever sobre o indizível da bomba atômica.

A terceira e última parte, “Os outros”, se divide em sete tópicos e, neles, o esboço de figura de Teresina, feito, recua para situá-lo junto aos seus amigos. Ali, Teresina é tomada por Candido numa rede de relações que se espelham, fazendo sistema. Percorrendo-a, a passagem do singular ao plural amplia o retrato para vasculhar aspectos da vida política na virada do século. “Visitantes” é o primeiro tópico e fala a partir de Poços de Caldas. Dá traços dos modos de Teresina de lidar com amizades e como as manteve até a velhice, mencionando ligeiramente relações perduradas: Adelino Tavares Pinheiro, português motorneiro que se tornou anarquista e que cuidava de escola. Depois, Edgard Leuenroth, Antonio Piccarolo — que será visto de perto — e de Dr. Badalassi, um católico antifascista saído da Itália, vinculado ao Partido Popular. 

Já o tópico “Cultura parelela” desloca as atenções para São Paulo. Voltamos às origens compostas por anarquistas, socialistas e sindicalistas na belle époque. Tais relações, vinculadas ao universo dos imigrantes, formariam o que Candido chamou de uma cultura à margem dos padrões dominantes. “Era o tempo em que o socialismo e sobretudo o anarquismo pressupunham uma crença muito forte na capacidade revolucionária (transformadora e humanizadora) do saber e da arte”. Ao explorar passo a passo essa tendência numa caracterização geral que situa repertórios e pontos de partida, temos um inventário que projeta ilusão ilustrada e ação inconformada (ainda que o gosto literário não fosse, em boa parte, dos mais aprumados).

Os próximos tópicos se concentram individualmente em quatro figuras. “Bertolotti e o Avanti!” lembra de Alcibiade Bertolotti, engenheiro italiano e socialista moderado, à direita de Teresina. Radicado no Brasil, Bertolotti foi um ativo fundador do periódico Avanti!, pró-movimento operário, e foi simpático por Marx. De ala oposta mas na mesma trincheira, Teresina não deixou de considerá-lo ao longo da vida (em que pese certo estranhamento da parte dele com ela), dado que permaneceu antifascista do início ao fim. “Piccarolo, moderato assai” invoca traços do italiano Antonio Piccarolo, citado anteriormente, cujas posições se aproximam às de Bertolotti, embora menos ativas. Marxista evolucionista, fez História do Direito em Turim e teve o mérito de considerar a realidade brasileira para além das macaqueações das fórmulas transplantadas. 

Candido especula que os conflitos internos nos quais Piccarolo se meteu, e que o levaram ao desligamento do grupo, se relacionam ao seu perfil realista e moderado. Rompido, aproximou-se de salões, organizações e instituições de ensino mais próximas aos de cima do que aos de baixo, angariando algum prestígio. Como Candido, Piccarolo se filiou ao PSB em meados dos anos quarenta. Simpático à industrialização pós-1930 no Brasil e à URSS, foi alvo da imprensa fascista no Brasil e, passado o tempo, se suicidou um ano após a publicação do Relatório Kruschev (1956), aos 89 anos. Sendo citado no primeiro tópico, manteve relações das mais próximas com Teresina até a velhice.

Por outro lado, “Rossoni: herói (e vilão) de dois mundos” lembra de Edmondo Rossoni, da ala radical do Partido Socialista Italiano. Organizador popular radical no Brasil, diferente da matriz mais liberal de Bertolotti e Piccarolo, Rossoni atuou na Escola Racionalista da Água Branca, tendo, por isso, sido extraditado. Na Itália, Rossoni trocou de pele para espanto de todos e, aos poucos, se tornou dirigente do regime fascista. Teresina, em carta que assinala ruptura, chamou-o de cachorro. “De Ambris oscilante”, o quarto retrato, lembra de Alceste De Ambris, italiano próximo à ala esquerda do Partido Socialista Italiano. No Brasil, pois foragido na Itália, De Ambris foi redator do Avanti! e se caracterizou pela retórica sindicalista inflamada e pela boa fé, voltando à Europa antes do primeiro round da Grande Guerra. Impactado por ela, tornou-se nacionalista e se aproximou dos fascistas. Nessa linha, lançou as concepções teóricas do Estado corporativo e foi chefe de gabinete de D’Annunzio. Em 1922, ano da Marcha sobre Roma, De Ambris se arrependeu de seus passos e se exilou na França, onde escreveu livro crítico sobre Mussolini e participou da resistência italiana. Nos altos e baixos, Candido vê um exemplo dos enganos históricos que o fascismo proporcionou. Diferentemente de Rossoni, Teresina manteve em sua casa fotos de De Ambris.

“O peso e a medida” é o tópico que encerra a última parte do ensaio. Nele, Candido faz um balanço sobre os quatro descaminhos mencionados, tomando para si os destinos mistos desfeitos daqueles militantes italianos que mantiveram relações com o Brasil. “A apresentação de quatro amigos políticos de Teresina em São Paulo mostrou alguma coisa que depois ocorreria com muitos outros militantes de esquerda na Itália: enquanto os mais radicais, sindicalistas-revolucionários e socialistas extremados aderiram ao fascismo ou estiveram a ponto de o fazer, os reformistas moderados lhe foram as mais das vezes contrários”. Nessas voltas que o mundo dá, sugere Candido nas entrelinhas, Teresina e sua vida modesta, de certo modo, levaram a melhor. Na dura travessia, ela deu testemunho de como percorrer caminhos largos — lições de sua afetividade socialista — no poente que vai da mocidade à velhice. Testemunha dos horizontes derramados, sua carne não deixou de ser marcada, como a dos outros, pelo tempo. Nesse processo, manteve um olho na política e outro na memória, cuidando fielmente de seu relicário íntimo de relações e amizades como quem cultiva um paiol.

Do início ao fim do ensaio, as janelas que nos levam ao mundo de Teresina possuem tintas narrativas. Candido, com a sua escrita, opta por um modo de contar lastreado por um tempo que não é linear. Entre os vaivéns, o transrealismo ali presente oferece uma chave para a compreensão do potencial político do livro. Para além do que já dissemos, o procedimento memorialístico em “Teresina e seus amigos” (s. d.) pode ser tomado, por exemplo, junto a “Realidade e realismo (via Marcel Proust)” (1983) — preservando, é claro, a diferença de registro de seus objetos. A observação não é inovadora, mas continua a ser uma lenta descoberta. Como já estouramos nosso espaço, fica a breve citação iluminadora: “a obra de Proust delineia uma teoria que pressupõe nesta o tratamento simultâneo da estrutura e do processo, ou, nos termos da presente discussão, do pormenor integrado em configurações expressivas e sua alteração no tempo como lei do significado. Resulta um paradoxo aparente, pois ele descreve a mudança incessante de seres, relações e coisas no fluxo temporal, mas encontra o significado nas permanências que essa mudança revela — o que vem definido no citado volume final de Em busca do tempo perdido, carregado de teoria da arte e da literatura”.

Em vista das conclusões de “Teresina e seus amigos” (s. d.), lembrar dos rumos da esquerda na Itália, desaparecida pela polaridade oposta, não deixa de ser curioso. A questão é que, entre um caso e outro, o ponto não está na exaltação de esquemas abstratos: não se trata de postular essa ou aquela saída, muito pelo contrário. O que está posto, e que fica para jogo como sina, é a coerência possível desenhada no prazo de uma vida, isto é, a efetividade necessária mediante o cotidiano. Que os desafios se somam ao intangível é consenso – não foi outra coisa que Teresina testemunhou no outono de seus anos. No entanto, frente a tanto arrivismo daqui ou dali, as reflexões íntimas e objetivas de Candido sobre sua amiga e seus amigos, uma rede real entre o critério e a experiência, inspiram antídotos: os trilhos da afetividade socialista, atenta ao cotidiano e com os pés no chão, em tempos de arruinamentos. 

Tudo somado, o recado de Candido em Teresina etc. (1980) causa alguma estranheza em tempos tão presentificados. Contagiado por camadas históricas de seu tempo e de tempo anterior, ele guarda o que dizer ao nosso como pérolas de estranho retiradas do mar. Ao articular política e memória, não é exagero lembrar, em medidas modestas, a ressonância com as Teses sobre o conceito de história (1940) de Walter Benjamin. Entre alhos e bugalhos, a atenção aos menores não é mais do que a atenção ao mundo ao redor, o tempo da vida. No caso de alguém da estatura de Candido, maiores não faltaram, conforme outras memórias igualmente necessárias explicitam — exemplo disso é o prefácio à quinta edição de Raízes do Brasil (1936) — frente ao rato roedor de tudo que é o tempo. Nos trilhos da afetividade socialista, não há segredo, a atenção aos menores mostra caminhos. Deles, saem milagres. Entre mãos estendidas e mãos cartelizadas, estejamos, portanto, preparados para o que há de ser computado como a hora e vez no dia do Juízo Final, pois se sabe quem não tem cessado de vencer.


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