A superfície de Hemingway (II) – O moderno em A volta do soldado

Por João Arthur Macieira

Ernest Hemingway. O escritor esteve na Primeira Guerra Mundial e trabalhou para a Cruz Vermelha na Itália como motorista de ambulância. 

No ensaio de Eric Auberbach, “A cicatriz de Ulisses”, é comentada a forma como o reconhecimento da cicatriz do herói – disfarçado de mendigo, ocultando-se de sua esposa Penélope e dos demais – é suficiente para fazer com que sua antiga ama, Euricléia, perceba a verdade escondida sob aquela superfície. O evento é marcado por diversas características da narração homérica, onde tudo “modelado com exatidão e relatado com vagar”. Na epopeia, essa narração atinge as superfícies dos objetos com iluminação; cuja potência é capaz de arrancar o leitor do Canto XIX, e levá-lo aos tempos do acidente que garantiu a cicatriz a Ulisses, em sua juventude.

A coexistência de temporalidades distintas só pode ser percebida na passagem a partir da percepção de Euricléia; que, mesmo sob a imagem do mendigo, é capaz de atravessar a superfície e encontrar submersa o verdadeiro herói. A experiência estética vivida pela ama, ao reconhecer aquela cicatriz, causa na narrativa uma suspensão temporal, preenchendo o presente com figuras do passado, numa reminiscência lívida. Esse preenchimento não é vazio devaneio, mas atua na realidade do presente, alterando-o e relevando o herói sob o disfarce de Ulisses-mendigo. Na consciência de Euricleia, surgirá o verdadeiro Ulisses, idêntico àquele que habita sua memória, fazendo possível que as coisas voltem a ser como em seu reinado.

Está claro que o trabalho de reelaboração da estrutura narrativa depende de que um par de capacidades funcione na personagem Euricleia; uma delas é a experiência atenta do presente, outra é a imersão rememorativa no passado. Delas, emerge uma temporalidade cíclica, que reafirma a própria estrutura épica – ligada por sua vez ao entendimento das estruturas temporais da Antiguidade. A ciclicidade comunica a verdade inscrita no passado, substituindo a mentira do presente.

Justam-se a esse entendimento das estruturas históricas e as capacidades de experiência demorada do presente, a rememoração, que parecem perdidas no mundo moderno. Para Walter Benjamin, a modernidade é a era na qual perde-se o “olhar aurático”; com ele, vai-se também a ligação entre passado e presente. Ideia desenvolvida magistralmente em dois ensaios: “O narrador” (1936) e “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” (1955), no qual Benjamin vincula a decaída do olhar humano com o desenvolvimento de diversos fenômenos modernos – são alguns deles a metropolização das cidades e a difusão da fotografia. As artes literárias não poderiam se abster da tarefa de continuar a mimetizar esse mundo do “olhar sem aura”, mas também precisa buscar novas formas de mimese.

Um conto de Hemingway que aponta essa direção da mimese, no contexto do pós Primeira Guerra, é “A volta do soldado” (Soldier’s Home). A abertura do segundo parágrafo é bem significativa a respeito do novo papel das imagens na imaginação literária: “Tem uma fotografia tirada no Reno em que ele aparece com duas alemãs e mais um cabo. Krebs e o cabo parecem grandes demais dentro dos uniformes. As moças alemãs não são bonitas. O Reno não aparece na foto”. Pensemos, portanto essas duas imagens – de Homero e de Hemingway – como opostas. Essa comparação põem em evidência como a metamorfose a que a narrativa moderna submete a clareza clássica. De um lado, “exatidão” e “vagar”, de outro desproporção e brevidade.

A história conta o retorno de Harold Krebs da Primeira Guerra para o interior de Oklahoma. O jovem saído direto da faculdade para a Guerra tem na sua volta a impressão de que já seria tarde demais para esperar que ainda alguém queria ouvir suas histórias. No início, ele não quer falar de jeito nenhum sobre elas, pois sente que parece ridículo o fato de ter voltado tão perto do fim da Guerra. Krebs passa a mentir sobre as suas experiências, inventando-as ou copiando partes de histórias que ouviu. Isso o corrói, tira-lhe a possibilidade de investigar a própria memória. A certa altura da narrativa, Krebs se encontra sentado à varanda, lendo um livro sobre a guerra na qual lutou. O narrador dirá que “agora estava realmente aprendendo sobre a guerra”, por mais que nos pareça improvável que sua experiência direta lhe valha menos do que os mapas e análises feitas bem longe do front.

Essa incapacidade de comunicar sua experiência, e de sequer ter uma experiência rememorável, cria uma paralisia perante a necessidade de imaginar futuros; sem um espaço de experiências, é impossível um horizonte de expectativas, como diz Koselleck. Em nenhum outro campo, essa atrofia se fará sentir mais profundamente que no amor. Quando sua mãe lhe pergunta: “você me ama?” ele responderá “Eu não amo a ninguém”. Ele desejaria “ter uma garota”, mas ele não queria “ter de ganhá-la”, entendendo o processo de apaixonamento e cortejo como uma “política” encoberta de mentiras. Krebs torna-se personagem mutilado pelo seu tempo de guerra, não por nenhum trauma confirmável, mas por um estranhamento mútuo entre esse sujeito e o mundo que lhe rodeia.

Experimentando a realidade como negação, sem um passado inscrito na memória para pudesse se perder em reminiscências, Krebs torna-se “corpo estranho” dentro de sua comunidade e família. O último caminho que Hemingway oferece ao personagem será o desvio de seu desejo para a cidade grande; ele se recusa a trabalhar para seu pai, recusa à ser um dos “ajeitados” que sua mãe deseja, mas ele ainda poderá se imaginar em Kansas City. Desvia da rota predestinada, já que é dentro de si mesmo um desterrado, e vai procurar seu lugar junto aos territórios mais voláteis da modernidade. À época, Kansas City é uma das poucas grandes cidades do meio-oeste americano, para onde foi também um dia o jovem Ernest Hemingway. A metrópole sempre terá esse papel de desgarramento e desterritorialização para alguém saído de comunidades mais estáticas na literatura moderna – pensemos em Stendhal ou Balzac; ela sempre foi lar para os que ingressam na vida em fragmentos, contudo, os personagens de Hemingway já nem podem mais fazer deles as suas memórias. Assim como os pedaços de corpos que o autor juntara nos tempos de brigada italiana “não formavam um corpo”, a memória já não é mais capaz de fazer um todo deles mesmos.
 

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