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Mostrando postagens com o rótulo João Arthur Macieira

Essa gente: uma análise da crise moral da elite carioca

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Por João Arthur Macieira   Figura mais do que conhecida do meio artístico brasileiro, Chico Buarque também criou seu espaço no campo literário, principalmente depois da publicação de Estorvo (1991). Isso porque sua literatura, tal qual sua música, pode combinar, através de uma polifonia que não se imiscuiu de pular do masculino ao feminino, da “alta cultura” à cultura popular, dos apartamentos do Alto Leblon às favelas, rodas de samba e mundo do crime que habitam o Rio de Janeiro. Se em Estorvo , como bem observou Roberto Schwarz, era possível perceber uma espécie de degradação moral daquilo que se pode chamar de “povo brasileiro” — isto é, os personagens que emergem naquela narrativa que representam as camadas pobres da população já eram marcados por um comportamento que seria chamado por Laval e Dardot de produção da fábrica de sujeitos neoliberais — em Essa gente (2019) foi a vez das elites cariocas, em especial aquelas em decadência financeira (o que engloba, possivelmente, t...

J.P. Cuenca e Vladimir Safatle no inferno: o querer da literatura e da filosofia hoje?

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Por João Arthur Macieira João Paulo Cuenca em frame do filme A morte de J. P. Cuenca . Reprodução. Escrever sobre escrever. Escrever sobre escritores, diretores de cinema ou teatro, sobre estudantes de pós-graduação, professores de pós-graduação. Aspirantes a escritores, amantes de escritores. Autobiografias de escritores. Quem lê pode ter a impressão de que há um universo muito restrito de lugares onde a narração pode ir. A experiência mediada pela realidade dos literatos quer se sobrepor à realidade, como se não fosse dela que a própria escrita emergisse. Certamente, não é para isso que queremos a literatura. Tende-se a crer que a literatura oferece esse tal acesso formidável à realidade, às suas dimensões mais profundas, mais verdadeiras do que é para o não-leitor. Ler educa os corpos e ensina-os a obediência à mente. Essa tese ganha força justamente com o realismo moderno do século XIX. Um exemplo maior seria o de Balzac e a descoberta das estruturas sociais através do texto literá...

Linguagem, poesia e exílio em Joseph Brodsky: esboço para um ensaio

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  Por João Arthur Macieira Joseph Brodsky. Foto: Ulf Andersen.   Há uma entrevista realizada na televisão holandesa e disponibilizada no YouTube na qual Joseph Brodsky comenta o momento quando foi avisado pelo pai da morte de sua mãe. Esse episódio também foi narrado em “A Room and a Half”, ensaio autobiográfico no qual o poeta investiga, entre muitas coisas, a relevância que tiveram seus pais e a literatura na sua formação (não apenas como escritor, mas como sujeito no mundo [BRODSKY, 1986]). Talvez justamente pela superficialidade do que desejo ressaltar aqui, certas características que fogem a(o próprio Brodsky provavelmente discordaria dessa direção). Quer dizer aqui que a forma como o poeta pronuncia as palavras em inglês — língua na qual aquela entrevista foi conduzida — podem dizer mais do que conteúdo nelas transmitido. A entonação geral é do tipo britânica, tragedie por exemplo; outras, como more , soam completamente americanizadas. Rather , contudo, parece saída de...

Dois ensaios de Louise Glück e um comentário

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Por João Arthur Macieira  William Scott. Sem título , 1970. A persistência da poesia estadunidense   Como coloca Gilles Deleuze, há uma espécie de sonho traído na literatura estadunidense. Sua definição é de uma “sociedade dos camaradas” e seu sentido é a produção de uma linha de fuga para fora dos horizontes europeus constituídos até o século XIX. Quando pensamos numa poesia como a de Walt Whitman, principalmente na construção do narrador de Folhas de Relva , isso é bastante evidente. Também a literatura e o cinema do século XX — os romances de Jack Kerouac ou os filmes de Jim Jamusch — revisitam os temas que essencialmente já estavam lá em Whitman.   Mas o que dizer do século XXI ou mesmo das últimas décadas do século XX? Ainda é possível, depois da tomada de consciência dos Estados Unidos como um império capitalista em franco declínio diante do presente, ler aquelas ideias a sério? Não só as “massas” — se é que ainda pode-se usar esse termo pouco razoável sociologicam...

Os contos de John Cheever: desejo, tragédia, redenção

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Por João Arthur Macieira John Cheever. Foto: Allen Green.     I  Desejo e literatura   Porque a literatura não é mera reprodução de sensações, mas uma experiência produtiva que acontece tanto em quem escreve como em que lê, a obra de um autor como John Cheever não está limitada ao próprio contexto cultural. A literatura também não é uma expressão essencial da subjetividade do autor, mas acontece justamente fora dela. Quando falamos de um autor como esse, é difícil não se deixar capturar pela explicação psicologizante ou biográfica do texto. Quem por acaso teve acesso aos seus diários intuirá porque toco nesse ponto: quando lemos aquelas linhas, deparamo-nos com um sujeito fragmentado, lutando para dar forma à própria subjetividade e sentido ao conjunto de sua vida. Ainda que essa seja uma marca dos personagens de Cheever e faça parte dos elementos que mobilizam suas narrativas, mas não de seu narrador. Seus diários parecem com uma tentativa angustiada de compreender ...