“Deus, um delírio” ou de como o método científico é libertador


Por Rafael Kafka



Em tempos de negacionismo, Deus, um delírio se mostra uma leitura ainda mais importante. Para aqueles que preconizam uma linguagem mais politicamente correta, não defendo isso por conta do ar iconoclasta que Richard Dawkins assume perante o prestígio das religiões, mas sim esse ensaio ser uma importante ferramenta de compreensão do método científico e de como ele pode servir para garantir a liberdade de ação humana. Mas ao contrário dos cientificistas do século XIX que ainda hoje circulam por aí, Dawkins não coloca a ciência como detentora da possibilidade de produção de provas e saberes concretos inquestionáveis. A ciência para ele está no questionamento e não no produto desse questionamento.

Nesse sentido, entende-se sua busca por colocar a questão da existência de Deus dentro do crivo do método científico. Não se procura aqui provar que ele existe ou não, mas sim o uso de evidências para se apegar à crença da existência ou não do criador e da reflexão sobre o porquê acreditarmos ou não nesse ser. O método científico aqui é reflexão crítica sobre o modo como Deus é usado como um tampão para as lacunas que julgamos ver no universo e a crítica de Dawkins nesse sentido se volta contra o fundamentalismo, o qual alimentado por essa função de anulador de lacunas se torna resistente a todo processo de reflexão e debate crítico.

Tanto o método científico quanto a religiosidade pisam no solo da incerteza. Entretanto, o primeiro busca explicar como as coisas se dão por meio de hipóteses, experimentos, debates etc. A religiosidade dá uma explicação transcendental a qual serve para explicar por si só os fatos apontados, usando uma linguagem simbólica e metafísica. Dawkins mostra como pequenos gestos de sobrevivências aprendidos quando somos crianças se tornam uma estrutura de comportamento que nos protege dos mistérios do universo colocando a figura divina a todo instante como carta branca para o desconhecimento.

Ele não quer dizer com isso que a crença em um ser superior significa necessariamente desprezo pela ciência, mas fica evidente o desacerto existente entre o método que busca tudo investigar criticamente e a lacuna que é usada para dizer que algo é feito por Deus para evitarmos fugir do debate e da investigação mais minuciosa e profunda de certos fatos para os quais não pensamos em explicações mais plausíveis. Na falta destas, dizemos que são ocorrências produzidas por uma vontade superior e podemos desenvolver um hábito renitente de deixar tudo nas mãos da providência.

O contraponto desse tipo de conduta é o negacionismo, termo tão na moda em 2020 que a edição de 2006 que tenho em mãos ainda não o apresenta pelo que lembro de minha leitura. Não de forma explícita, porque o comportamento negacionista é todo descrito no livro nas suas particularidades mais diversas. O negacionismo é a conduta de resistir de todas as formas possíveis aos dilemas existenciais que surgiriam da reflexão crítica sobre o que vivemos ou pensamos viver a vida toda. Ele está fortemente ligado ao tribalismo, a atitude assumida por seres que em uma tentativa esforçada de dar sentido a todos os fatos do universo buscam seguir verdades e ritos prontos que servem de resposta para os mais variados eventos, garantindo a presença de um sentimento de segurança ontológica para seguir a vida adiante.

O tribalismo é um fenômeno fortemente ligado às tendências genéticas demonstradas pela teoria da evolução e por esse motivo é um fato ligado apenas não à transcendência, mas também à própria vida política. Bons romances de crítica ao comunismo real servem de exemplos para um exercício de crítica dessa tendência humana, como os escritos de Kundera e de George Orwell. O escritor tcheco chegou a cunhar em um de seus melhores romances, A imortalidade, o conceito de “imagologia” para mostrar como a imagem que pensamos em levar para a imortalidade é a identidade que buscamos ter. Essa busca por essa imagem é reforçada pelo tribalismo dos que cultuam sistemas políticos de modo dogmático e religioso e a força do regime soviético não estaria, portanto, em seu aparato repressor e sim na passividade de um povo e de uma militância que viam Stálin e o partido como uma nova de Deus e do paraíso. Orwell reflete bem sobre isso com a figura do Grande Irmão e de Napoleão, em 1984 e em A revolução dos bichos, respectivamente, e no partido e nos porcos que são responsáveis em levar a mensagem sagrada aos cidadãos.

O tribalismo nega a dialética, o debate e procura formas de destruir o oponente de todas as formas possíveis. Se o aparato repressor não entra em ação com aquele ar mais tradicional, hoje há a destruição de reputações em redes sociais, que servem de forma tão eficaz quanto os velhos apedrejamentos. Uma leitura mais científica dos fatos faria com que as pessoas analisassem evidências de fraudes e crimes e deixassem a cargo da justiça definir os vereditos de culpa ou inocência, mas atualmente é muito comum a condição de “investigado” virar automaticamente a pecha de “condenado” automaticamente. A cultura do cancelamento é a santificação que pode virar demonização do dia para a noite e muitos usam desse artifício para soltar informações que destroem reputações em ritmo acelerado pelo desespero dos que buscam ver um deus em todos os lugares, uma lacuna preenchida que traga sentido as suas vidas.

Por esse motivo, a obra de Dawkins foca em um ensino plural e na não imposição dos jovens de valores religiosos e políticos pegos de seus pais. Pelo ensino plural, garantimos que uma criança seja desde cedo introduzida em uma sociedade cheia de verdades que não iguais a sua e assim ela aprende a se prender em um modelo de sobrevivência que não preenche lacunas com a figura divina e sim com o método de investigação científica. Fazendo isso, não há necessariamente uma conversão ao ateísmo, mas um apego à reflexão e ao modelo de pensamento mais crítico que garante ao outro a possibilidade de falar e de existir.

Dentro de uma sociedade que se propõe liberal, não há espaço para o tribalismo como ele pulula atualmente nas redes sociais e arenas de debate ao redor do mundo.  A polarização política que há anos assola o país é a prova viva de que falhamos no intuito de desenvolver uma educação plural e que multicultural, que não negue os valores de crenças e de visões de mundo, mas exija a postura racional e ética dentro dos debates políticos. O negacionismo é o paroxismo dessa falha, é a fusão mais insana e concreta dos dois tribalismos, o mítico e o secular, como diria Raymond Aron, e por isso ele tão perturbador e perigoso.

Esse comportamento agride dizendo que defende a democracia, difama alegando estar sendo alvo de perseguição em sua liberdade de expressão, fala de amor defendendo a violência e armas. Ele não olha para sua conduta e sim para o seu discurso e sua violência é ratificação do seu discurso negando ao outro espaço de fala no debate. Não há debate e sim ressentimento manifestado na forma de ódio com o mais parco dos vernizes ideológicos. Dawkins pode soar radical para os crentes mais sensíveis e mesmo para os ateus que preconizam uma sociedade respeitosa com os valores cristãos que moldaram muito de nossa subjetividade, mas a raiz do problema é bem apontada por ele. O extremismo não deve ser visto como o homem barbudo falando em tom vociferante sobre explodir aviões em prédios públicos. Ele deve ser visto numa forma de educação e cultura que prestigia demais os valores passados de pais para filhos e nega a pluralidade de ideias trazida pelos sistemas escolares e acadêmicos, os quais nos preparam para uma sociedade democrática.

Esse extremismo é que chama de doutrinadores professores os quais se negam a um ensino meramente tecnicista e que se propõe a debater os fatos sociais, o que não é necessariamente proselitismo político, outra forma do tribalismo – o secular – exposto mais acima. Doutrinadores não são educadores que passam poucas horas por semana com crianças em salas lotadas e muitas vezes sem salubridade alguma, mas aqueles que defendendo modelos de escola “sem partido” e homeschooling querem proteger seus filhos do absurdo fato de que a vida não é apenas os valores religiosos e políticos daqueles que querem proteger os seus e pensam ter todo o conhecimento do mundo para fazer isso. Doutrinação é negar o pluralismo do mundo, é negar o saber científico não como uma procura pela certeza e sim como a incerteza vista de modo crítico e analítico.

Por esse motivo, os comentários de quem chama professores de doutrinadores soam ainda mais risíveis e ao mesmo tempo mais chocantes. O senso comum de suas falas não os deixa perceber que falando do outro na verdade estão falando de si e que enquanto falam de amor esses seres tribais, inclusive os seculares que usam redes sociais compulsivamente, estão com as pedras prontas para serem miradas na cabeça de quem os confronta com outro olhar sobre as lacunas que encontramos em nossas pequenas e maravilhosas vidas nesse mundo.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os mistérios de “Impressão, nascer do sol”, de Claude Monet

Boletim Letras 360º #393

Dez curiosidades sobre o gênio Heitor Villa-Lobos

Dossiê James Joyce: um guia para entender Ulysses

A superfície de Hemingway (II) – O moderno em A volta do soldado

Desonra, de J. M. Coetzee