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Mostrando postagens de Setembro 18, 2020

A superfície de Hemingway (II) – O moderno em A volta do soldado

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Por João Arthur Macieira

No ensaio de Eric Auberbach, “A cicatriz de Ulisses”, é comentada a forma como o reconhecimento da cicatriz do herói – disfarçado de mendigo, ocultando-se de sua esposa Penélope e dos demais – é suficiente para fazer com que sua antiga ama, Euricléia, perceba a verdade escondida sob aquela superfície. O evento é marcado por diversas características da narração homérica, onde tudo “modelado com exatidão e relatado com vagar”. Na epopeia, essa narração atinge as superfícies dos objetos com iluminação; cuja potência é capaz de arrancar o leitor do Canto XIX, e levá-lo aos tempos do acidente que garantiu a cicatriz a Ulisses, em sua juventude.
A coexistência de temporalidades distintas só pode ser percebida na passagem a partir da percepção de Euricléia; que, mesmo sob a imagem do mendigo, é capaz de atravessar a superfície e encontrar submersa o verdadeiro herói. A experiência estética vivida pela ama, ao reconhecer aquela cicatriz, causa na narrativa uma suspensão…