A cidade inteira dorme e outros contos, de Ray Bradbury

Por Pedro Fernandes


A cidade inteira dorme e outros contos, de Ray Bradbury, célebre autor de títulos como As crônicas marcianas (título sobre o qual tivemos o privilégio de esboçar umas tantas notas por aqui) e Fahrenheit 451 (título mais conhecido do escritor), foi publicado pela primeira vez em 2008; agora, a Globo Livros, através do selo Biblioteca Azul recupera a edição. Embora, tenha chegado por aqui junto com a reedição de As crônicas... e boa parte da crítica tenha se debruçado de imediato sobre os dois títulos em questão, achei por bem tratar das duas obras em separado porque elas possuem especificidades que ficariam melhor apresentadas dessa forma. Embora sejam obras em que se verifica a presença marcante do estilo ficcional do autor, do ponto de vista temático e da forma, os dois livros são, por assim dizer interdependentes. Ao dizer isso, ressalto as semelhanças mantidas entre as obras, mas cobro um olhar astuto sobre cada uma.

Por exemplo: em A cidade inteira dorme... vejo um Bradbury muito mais afiado pela ironia e pela crítica mordaz exercida primorosamente em obras do porte de Fahrenheit 451. Também aqui, a percepção sobre as principais dificuldades humanas em lidar com determinadas criações legitimadas pela cultura é ainda mais disposta em relevo na narrativa. Quando digo isto estou pensando em textos como “Uma pequena viagem” e “O messias”. Novamente estamos numa era em que a Terra parece ter se tornado sonho distante e a vida em Marte segue na mesma medida quase do que se passaria no nosso planeta. Nos dois textos citados, é o tema da salvação, nos mesmos moldes da crença ocidental, de que se ocupa o escritor no desenho de sua crítica. No primeiro, um grupo de cem velhinhas lideradas pela sra. Bellowes dão inicio a um motim por terem caído num conto do vigário: o sr. Thirkell vende a falsa promessa de um encontro com Deus.

No segundo conto damos com um grupo diverso de religiosos que mesmo num tempo muito além do passado e do presente discutem a partir da crença no retorno do Messias – elemento que ainda sustém o discurso cristão – num mundo misto de terráqueos e marcianos. Bradbury parece afirmar: ainda que a humanidade alcance o pleno desenvolvimento tecnológico, ela não deixará de ser confrontada com seus próprios mitos, com suas próprias características que a define enquanto humanidade. Há nisso, não apenas a crença de que estamos presos num eterno círculo e em muitas das questões nunca evoluímos de fato, mas permanecemos (e futuramente também) no mesmo passo, e pensado dar voltas diferentes. Outra coisa, Bradbury aposta com todas as forças que seu pessimismo acerca dos rumos da comunidade humana não é todo vã: mesmo que o homem vença a atual curva negra porque passa no contexto em que está o autor de A cidade inteira... prevalecerá certa mesmice, produto da ignorância que parece ser (e isso é uma pena) um dos elementos principais no enforme do caráter do homem.

Tudo isso, entretanto, não se apresenta de maneira destituída de beleza. Ray Bradbury concebe uma ficção científica que difere da comum: não há mundo paralelo ao criado por ele; o mundo é só este da ficção. E apesar do tom desolador com que descreve as situações desenvolvidas ao longo das narrativas, prevalece um valor poético muito forte na elaboração da sua linguagem, elemento que já havíamos notado em As crônicas marcianas. A poesia, portanto, não é apenas estágio de alargamento dos sentidos na redução sofrida pela extensão do romance e do conto; é, sobretudo, no caso da obra do escritor estadunidense, forma de transmutação da realidade. O corriqueiro é a matéria para sua obra. A realidade em Bradbury é produto de um potente jogo de burilamento dos sentidos: “O Ford caindo aos pedaços vinhas por uma estrada que erguia plumas amarelas de poeira que levavam uma hora para assentar e não mais se mover naquela modorra especial que toma conta do mundo em meados de julho.”; “Camisa aberta revelando o corpo bronzeado até a cintura, os cabelos alourados da cor do trigo maduro de julho, os olhos do homem incandesciam azuis de fogo, em um ninho de rugas de sol.”

No mais, quero findar estas notas, destacando a atualidade dessas narrativas – o que certamente reforça o que disse no terceiro parágrafo; digo isto porque não tenho a imagem do escritor, mesmo o de ficção científica ou o poeta, como um visionário. São, sim, leitores argutos de seu tempo e como o rol das coisas que dão forma à sua contemporaneidade não é vencido assim de uma hora para outra, o jogo de situações desenhadas na realidade literária está sempre atual. Fantasia e realidade aparecem imbricadas num complexo protocolo de leitura da história, afinal estes contos de A cidade... têm outra particularidade que é colocar em pauta temas sociais e políticos bastante recorrentes na ficção de Bradbury – o cerceamento dos direitos civis, o uso da tecnologia para serviços escusos (eis o ludibriar no primeiro texto sobre o qual falamos acima), a castração das liberdades, o empobrecimento das experiências de vida.

Mas, nem só ficção científica se faz esta obra de Bradbury. Eis outro elemento particular em A cidade... O conto principal que denomina a própria antologia, por exemplo, se despe dos traços do gênero preferido do escritor para se constituir uma espécie de thriller policial ou narração de um sonho sufocante. Entre a zona rural e uma pequena cidade de Illions, de um grupo de jovens, Lavinia desafia o medo que ronda todos os moradores pela presença sorrateira de um estrangulador, quando decide, ir a qualquer custo ao cinema com as amigas e depois voltar, tarde da noite, para sua casa, quando todos estão recolhidos em suas camas. Mais uma vez o gênero tem suas fronteiras ampliadas: nesse caso, o leitor ficará por descobrir a identidade do assassino, uma vez que o interesse do narrador é o de pelo tom da ficção policial, pelo suspense que domina todo o texto, elaborar uma metonímia das formas de criação e monopólio do medo impetrado pelos poderes dominantes.

A cidade inteira dorme e outros contos prova que Bradbury não foi mestre apenas na elaboração de uma distopia da modernidade, foi também mestre na reelaboração dos gêneros e deteve o pleno domínio da narrativa curta; tudo isso prova a necessidade de ter esta obra entre a lista de leituras devidas.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Uma pedra no caminho para a modernidade: o projeto drummondiano de humanizar o Brasil

Os melhores diários de escritores

A partir de quando alguém que escreve se converte num escritor?

Escritos nas margens

A relevância atual de Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos

Angela Carter, a primazia de subverter

O túmulo de Oscar Wilde

História da menina perdida, de Elena Ferrante

José Saramago e Jorge Amado. A arte da amizade

Ivan Búnin