Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Ray Bradbury

Prazer em queimar, de Ray Bradbury

Imagem
Por Pedro Fernandes Há quem diga que a Magnum opus de um criador é produto de uma vida inteira de obsessões. Ou ainda, que todo trabalho criativo existe para culminar na grande obra. Embora as duas afirmativas não sejam gratuitas porque encontram respaldo em muitas situações, elas não constituem, como quase tudo na literatura, uma verdade absoluta. Um caso específico que a princípio pode reafirmá-las parece ser o de Ray Bradbury e sua distopia sobre um futuro sem livros. A prova material acaba de chegar a nós através dessa coletânea de textos publicada sob o título de Prazer em queimar . Organizado por Donn Albright, o livro segue o rastro indiciado pelo próprio escritor estadunidense num comentário sobre seu romance mais conhecido e reúne uma variedade de textos que antecipam o mundo e as situações de Fahrenheit 451 . No início dos anos 1950, Ray Bradbury escreveu cinco contos, chamados por ele de “cinco pulos breves” para “um grande salto”: “Fogueira”, “Fênix brilh...

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

Imagem
Por Pedro Fernandes Fahrenheit 451 foi publicado em 1953 e deste então passou a integrar a seleta lista de uma linhagem do romance que remonta a pelo menos duas décadas antes de quando da sua origem: a distopia. Trata-se daquela obra que geralmente extrapola os limites das convenções estabelecidas e que guardam, nem sempre expressamente, uma interpretação acerca dos seus destinos e as implicações nos destinos da própria comunidade. Os modelos da ficção distópica estão muito bem determinados no romance Nós , do escritor soviético Ievguêni Zamiátin; seus herdeiros exploram desde então as mesmas dimensões que entreveem uma humanidade submetida aos excessos introduzidos pela era da burocracia e da técnica. No caso do romance de Ray Bradbury, a sociedade por ele pensada encontra-se situada no último estágio de consolidação de uma era pautada exclusivamente pela imagem e na total negação dos objetos conseguidos ao custo da linguagem escrita. O protótipo desse modelo se es...

Isaac Asimov e Ray Bradbury: dois centenários

Imagem
Por Albero Chimal Isaac Asimov. Foto: Claudio Edinger / reprodução. Saímos da segunda década do século XXI e no ano se juntam dois importantes centenários: os dos escritores estadunidenses Isaac Asimov (1920-1992) e Ray Bradbury (1920-2012). Ambos são figuras opostas e complementares, da ficção científica ou narrativa especulativa – uma literatura muito mais influente do que parece na cultura de nossa época – e lê-las hoje também dá para pensar, de modo mais geral, sobre nossas atitudes em relação ao futuro, como manifestado nesta era de incerteza. O termo “ficção científica” (tradução literal de Science fiction , narrativa científica) é usado para falar de obras de qualquer período da história literária, mas, na realidade, não chega nem aos cem anos: foi cunhado e popularizado em 1926 por Hugo Gernsbacher (1884-1967), editor e escritor luxemburguês exilado nos Estados Unidos, na revista Amazing Stories , fundada por ele e ainda ativa até hoje. Amazing , e várias o...

A melhor maneira de conhecer o ser humano é viajar a Marte (com Ray Bradbury)

Imagem
Por Pedro Torrijos Em setembro de 1949, Ray Bradbury reuniu várias cópias de seus contos, colocou numa mala e pegou um ônibus com destino a Nova York. Ali se hospedou numa pousada da YMCA por cinquenta centavos a diária durante cinco dias, enquanto passava o tempo oferecendo sua coleção de contos às principais editoras do país. Todas recusaram; não queriam histórias curtas, queriam um romance. Na penúltima noite, Bradbury arrumou uma fita que acabaria por se converter em cena com um editor da Doubleday Publishing chamado, casualmente e sem nenhuma relação, Walter Bradbury. Doubleday também queria romances, assim, o outro Bradbury perguntou a Ray se seria capaz de juntar seus contos numa só história e apresentá-los em formato de um livro completo. “Já que quase todos giram em torno do mesmo lugar, Marte, poderias chamá-lo de As crônicas marcianas ”. Dois dias depois, e com um cheque de setecentos e cinquenta dólares no bolso, Ray pegou o mesmo ônibus e voltou para Los Ang...

A cidade inteira dorme e outros contos, de Ray Bradbury

Imagem
Por Pedro Fernandes A cidade inteira dorme e outros contos , de Ray Bradbury, célebre autor de títulos como As crônicas marcianas (título sobre o qual tivemos o privilégio de esboçar umas tantas notas por aqui ) e Fahrenheit 451 (título mais conhecido do escritor), foi publicado pela primeira vez em 2008; agora, a Globo Livros, através do selo Biblioteca Azul recupera a edição. Embora, tenha chegado por aqui junto com a reedição de As crônicas ... e boa parte da crítica tenha   se debruçado de imediato sobre os dois títulos em questão, achei por bem tratar das duas obras em separado porque elas possuem especificidades que ficariam melhor apresentadas dessa forma. Embora sejam obras em que se verifica a presença marcante do estilo ficcional do autor, do ponto de vista temático e da forma, os dois livros são, por assim dizer interdependentes. Ao dizer isso, ressalto as semelhanças mantidas entre as obras, mas cobro um olhar astuto sobre cada uma. Por exemplo: em A cida...

As crônicas marcianas, de Ray Bradbury

Imagem
por Pedro Fernandes  Grande parte dos leitores em língua portuguesa conhecem – ao menos de nome – um título que já virou clássico, Fahrenheit 451 , chegado ao Brasil pelo selo Biblioteca Azul, da Globo Livros. Agora, através deste mesmo selo e editora recebemos dois outros títulos, menos conhecidos do escritor estadunidense, mas igualmente importante para uma compreensão sobre sua obra e estilo: As crônicas marcianas e A cidade inteira dorme e outros contos . Aqui, comentaremos acerca do primeiro título e noutra ocasião voltaremos a falar sobre a obra de Bradbury a partir de seus contos. Se Fahrenheit 451 é considerado por grande parte da crítica como uma distopia da humanidade ou uma falência do projeto de civilização posto em construção desde o aparecimento da razão e cada vez mais difícil de sua concretização, pode-se dizer que As crônicas... é mais uma peça nesse processo de decadência da existência. Isso nos leva a pensar que o projeto literário de Bradbury não ...

Ray Bradbury: um lugar entre outros mundos

Imagem
Por Jacinto Antón Luto em Marte e em nossos corações. A morte de Ray Bradbury, na terça-feira (5) à noite, aos 91 anos, o mestre da ficção mais lírica, deixa órfãos eles, os marcianos de olhos amarelos em seus crepusculares canais de sonhos, mas também a todos os que aqui embaixo, seus filhos leitores, temos viajado com ele em astronaves às estrelas e bebido o licor de verão das infâncias perdidas sob os alpendres da mítica Green Town, Illinois. Bradbury, que dispõe já de uma cratera com seu nome em Marte e que pediu que suas cinzas sejam espalhadas no planeta vermelho, será lembrado por muitas coisas, pelas Crônicas marcianas , essa excepcional coleção de contos sobre a colonização do planeta Marte que mudou para sempre o gênero fantástico e entusiasmou nomes como o de Jorge Luis Borges; O vinho da alegria e O campanário das trevas , dois dos romances mais comovedores escritos sobre o delicado momento em que as crianças descobrem a existência do tempo, da morte e da res...

Fahrenheit 451, de François Truffaut

Imagem
Por Pedro Fernandes Um clássico é um clássico e ponto. Não tinha nenhuma frase mais óbvia para justificar inicialmente uma obra apresentada na década de sessenta, 1966 para ser mais exato, de um dos grandes nomes do cinema contemporâneo, François Truffaut. Mas, o retorno a esse filme – apesar de nunca ter comentado sobre, é um filme que, nuns tempos em que o tempo me permitia algumas coisas, já havia visto, por isso o termo retorno – esse retorno se deu por localizá-lo on-line dia desses enquanto buscava algumas informações acerca da obra de Ray Bradbury, autor sobre o qual redigi algumas notas para dois trabalhos muito bons do selo Biblioteca Azul, da Globo Livros, As crônicas marcianas e A cidade inteira dorme . Também Fahrenheit 451 faz parte neste projeto de reedição da editora. Quando assisti ao filme de Truffaut, o televisor de plasma ainda era algo de luxo. Mas, já me chamou a atenção a presença do instrumento em cena numa época em que o aparelho comum nos país...

José Saramago, leitor de Ray Bradbury

Imagem
“Talvez os livros possam nos tirar um pouco dessas trevas. Ao menos poderiam nos impedir de cometer os mesmos malditos erros malucos!” — Fahrenheit 451 , de Ray Bradbury. Ray  Bradbury ajudou a sedimentar todo um imaginário sobre a vida extraterrestre, sobretudo em Marte. Exemplo notável são suas Martian Chronicles . Seja pela época, quando os olhares se voltavam surpresos pela corrida astronômica, seja pela formação deslumbrada e irregular do leitor autodidata, José Saramago manifestou apreço pela chamada ficção-científica. Numa crônica de Deste mundo e do outro , “Um azul para Marte”, o escritor português se mostra envolvido por esse tratamento e escreve ele mesmo sua crônica marciana . Este texto integra um conjunto de crônicas reunido no livro antes citado com ars da ficção científica: “Os animais doidos de cólera”, “O planeta dos horrores” e “Um salto no tempo” são alguns deles. Isso não é uma justaposição. Noutro texto recolhido neste livro, “Ca...

Palavras de Ray Bradbury

Imagem
Por Rocío Ayuso  Se houvesse nascido no século XV, Ray Bradbury (Waukegan, Illinois, 1920) seria um perfeito homem do Renascimento, um Leonardo da Vinci prolífico e genial em qualquer campo. E se fosse produto do século XXI, desses anos que antecipou em seus livros e em sua cabeça, seria o melhor exemplo da cultura multimídia capaz de expressar-se com palavras, com edifícios e com sonhos espaciais que hão se tornado realidade. Aos olhos de quem simplesmente o veja sentado à porta de sua casa, banhado pelo sol no alto da escada que conduz ao seu lugar desde há 50 anos, no calmo bairro de Cheviot Hills, o escritor e romancista, visionário e arquiteto, roteirista, ensaísta e poeta, um dos país da literatura fantástica contemporânea, não será mais que um avô simpático e de olhar pícaro disposto a contar batalhas de outros tempos. No próximo 22 de agosto chega às portas dos 90 anos. Uma idade em que o descanso está mais que merecido. Mas esta última visão seria muito simplist...