Os melhores de 2020: poesia



Para o meu coração num domingo, de Wislawa Szymborska.
É certeira a escolha dos antologistas Regina Przybycien e Gabriel Borwski do poema-título desta reunião de poemas de Wislawa Szymborska. É esta uma ocasião, quando o eu-poético volta-se para o milagre da existência e confirma a singularidade do poder e da força de estar vivos, afinal, apenas assim, é possível buscar compreender os variados sentidos do mundo, incluindo o próprio ato de viver. Essa confirmação, aliás, pode ser tomada como uma síntese da poética de Szymborska. “Para o meu coração num domingo” guarda uma força excepcional; o eu-poético, despido de quaisquer transcendências, celebra a pulsão biológica da vida, esta que tanto se esforça para que possamos gozar os prazeres mais simples, como o descanso de domingo. Quer dizer, este livro amplia nosso contato com uma poeta que soube matizar as pequenas coisas no interior de uma complexidade própria e nada simples.
 
Batendo pasto, de Maria Lúcia Alvim.
É difícil que as listas de leituras deixem de fora este livro. Trata-se de um acontecimento bonito e de estabelecer novos contatos com um desses ricos universos da nossa poesia.  O livro estava pronto havia algumas décadas e quando dois leitores que tiveram recente contato com outros títulos da poeta, sobretudo a antologia Vivenda, publicada em meados da década de 1990 decidiram saber mais sobre o destino da obra e da autora. A descoberta da poesia de Maria Lúcia Alvim leva esses dois aventureiros da palavra a outro encontro: com a poeta mineira ainda viva e com um manuscrito confiado por ela a um amigo com a recomendações de publicação apenas depois da sua morte. Os dois leitores / aventureiros são os também poetas Guilherme Gontijo Flores e Ricardo Domeneck, este que numa estadia no Brasil consegue estabelecer uma ponte com a poeta e que ela se desfaça da ideia de colocar um livro à espera para leitores do futuro. E o amigo é o poeta e tradutor Paulo Henriques Britto, quem, não apenas carregava o manuscrito como chegou a escrever sobre. Tudo isso chegou aos leitores através da Relicário Edições. Só por esse empenho coletivo e esse caminho é um livro que merece toda a nossa atenção, além, é claro, da oportunidade de se descobrir uma das vozes sempre apontadas como das mais originais da nossa poesia recente.
 
Regresso a casa, de José Luís Peixoto.
Não apenas as pessoas guardam a memória. Também as coisas e os lugares porque feitos de um pouco de nós. É nesse movimento, entre o eu e a casa ― ponto de acolhimento, de estadia, de repouso, de intimidade, de trocas de afetos, testemunho de alegrias, dores e tristezas, já agora, núcleo de salvação de um mundo doente ― que se instaura o poeta. As várias possibilidades simbólicas são recuperadas seja no diálogo estreito com a própria literatura e suas maneiras diversas de alusão à morada, seja das experiências do poeta nômade, seja ainda da sua peculiar maneira de estar no mundo, a casa maior. Publicado pela editora Dublinense, este é o segundo livro do gênero de um escritor inquieto por ampliar e se mover entre os limites criativos da literatura.
 
Bichos contra a vontade, de Frederico Klumb.
É importante pensar a poesia como seiva errante, em movimento constante em toda parte. Mesmo da áspera atmosfera urbana é possível o poeta encontrá-la, se não, estabelecer os mecanismos de sua existência. Se não existe o lugar da poesia, também não existe a forma poética isolada nela própria. Desde os tempos imemoriais, a poesia é criação. E já agora, criação feita de múltiplos contatos e espessuras. No caso da poética em construção de Frederico Klumb nota-se a contínua cisão do verbal, o material mais comum para organização e realização da poesia, com expressões da variada ordem: a imagem, talvez seja a mais preponderante. Neste livro que chegou pela editora 7Letras, encontramos um poeta diante da coisa comum, o ordinário, não como um ente de desinteressada contemplação, mas relacionando-se também enquanto eu-coisa. A captura desse sentido, embora recorrente entre nós desde o desfazimento dos nossos limites na sociedade capital, se manifesta aqui com se testemunho radical sobre o nosso inumano.
 
Casa do norte, de Rodrigo Lobo Damasceno.
Este é um dos livros dos mais interessantes da pungente poesia brasileira contemporânea. Encontramos o poeta entre uma encruzilhada de questões que, se para muitos é pura entrega, devaneio ou mesmo esquecimento, para ele, é enfrentamento. Quer dizer, a poesia como desarticulação de um mundo envolto demais nos dilemas que colocam em crise seus estamentos. No prefácio para o livro publicado pela Corsário Satã, Nícollas Ranieri associa a poética de Rodrigo Lobo a outros nomes da nossa literatura que fizeram bem isso ― que usaram o poema enquanto provocação das realidades caducas ―, tais como Waly Salomão, Paulo Leminski e Torquato Neto. Não é o caso de ser a obra uma extensão dessas poéticas, mas, a partir delas entender uma linha fundamental da poesia: ser a matéria desorganizativa porque renovadora das coisas.
 
O método da exaustão, de Manoel Ricardo de Lima.
Diferentemente dos livros colocados nesta lista, este é o que mais se filia ao tratamento disjuntivo da poesia. Na apresentação da Editora Garupa, se destaca uma passagem do ensaísta português João Barrento que explica haver na poética deste livro um misto de sabotagem e saque com uma imaginação extremamente densa e inventiva, “fora dos trilhos mais habituais da poesia, recusando a fala de um eu para escutar as vozes do mundo, num registro progressivamente menos metafórico e mais cru e direto, e acrescentando a todos esses ecos os que lhe chegam de uma tradição (poética, científica, filosófica, artística em geral, dos Gregos à atualidade)”. Quer dizer o poeta se faz apenas em meio de passagem entre a poesia e o poema; se isso pode ser um retorno à origem da poesia como manifestação, é, no contexto atual, uma recusa a esse imediatismo que se opera entre o eu e o poema. Algo assim se viu entre nós com um João Cabral de Melo Neto, ainda que aqui a lida seja com uma simulação do eu.
 
A sola dos pés de meu avô, de Tiago D. Oliveira.
Este é um livro que revisita a tradição como um elo de irmanação dos homens e de manutenção da memória. Isso se demonstra pela reiteração dos costumes, da cultura, dos afazeres de rotina com a terra e mesmo dos episódios individuais que estabelecem os laços de afeto entre o poeta, o pai e o avô. A ideia de tradição, portanto, não é a viciada pelo herdado ou a transmissão pura e simples de uma para outra geração; nesse sentido, Tiago D. Oliveira parece pactuar com a compreensão do poeta com o qual dialoga, para quem a tradição se constitui pela relação que mantemos com o passado sem predomínio deste ou do presente, mas uma dialética que permite um contínuo movimento de transformação das forças do mundo. É bem verdade que o avô, e por conseguinte o pai, constituem prolongamentos no neto e filho; mas todos são transformados pela maneira que cada um se percebe no outro. 
 
Arremate, de Armando Freitas Filho.
Este ano cumpre um ponto alto na carreira literária do poeta brasileiro: quarenta anos de poesia. Assim, nada é gratuito neste livro que faz ora uma revisitação aos seus principais interesses criativos ora abre-se para outros caminhos bem possíveis de se desenvolver. Não tem este trabalho, portanto, a dicção crepuscular. O livro está dividido em três longas seções que contornam expressões próprias para três títulos: “Pincel lápis tesoura goiva lente martelo tela”, “Canetas múltiplas” (seção na qual visita uma variedade de nomes da prosa e da poesia) e “Casa corpo adentro”. O livro foi publicado pela Companhia das Letras.
 
Sara Luna, de Tom Maver.
Por toda inovação que se invoque para a poesia, sua aproximação com os labirintos da memória, outra vez ela, entendendo-se por esta um complexo de conjugações dentro e fora do particular, dentro e fora da história, dentro e fora do coletivo, é um de seus mais férteis territórios. Este livro, na dimensão de Regresso a casa, se aproxima daquelas pequenas singularidades da tradição, mas aqui, a voz de uma tradição, a que nos conta histórias, e coloca a poesia em movimento por entre as dinâmicas de um mundo que foi e se reaviva pelas revivências do poeta. A delicadeza com a qual o poema se arvora e se infiltra também por nossas revivências é talvez uma das coisas mais bonitas neste livro. É o sentido exato do que chamamos de irmanação pela palavra ― algo, aliás, bastante caro ao trabalho literário como um todo.
 
O morse desse corpo, de Ricardo Domeneck.
Em vida, quantas errâncias dão forma ao corpo? As experiências diárias, incluindo as pequenas e grandes violências, os prazeres em mesma proporção, as maneiras de sentir pelos afetos e desafetos, tudo se nos imprime, dão-nos a forma que se deforma continuamente, transformam-se em código secreto, nem sempre acessível à primeira tentativa ou a nenhuma tentativa. A poesia pode ser via de leitura, não ideal, nem verdadeira, mais criativa, expandindo tudo ainda mais para a distância do ideal e da verdade, forjando outro corpo (e mundo) que é rizoma das nossas tentativas de leitura do codificado em nós. Os sinais de tentativas muito particulares dão forma se deixam ver neste livro de Ricardo Domeneck, peça a mais na feitura de uma das poéticas mais significativas da nossa literatura contemporânea.  

Investigações. Novalis, de Gonçalo M. Tavares.
Noutras observações desta lista se destacou a ideia de poesia enquanto sopro de criação, entendendo-se por este termo, certo valor primordial. No caso específico do escritor português aqui indicado, esse tratamento irradia como base de seu trabalho seja em qual forma literária adote ou invente para escrever. Essa qualidade que o faz um dos mais importantes da literatura em seu país se observa desde seus primeiros livros, como este publicado pela Chão da Feira. O diálogo estabelecido aqui, não no sentido de puro intertexto, mas de experimentação radical com a tradição, é com o poeta alemão Novalis. Habitante e habitado pela sua poética, este livro abre a poesia para o campo do investigativo, espécie de máquina sensível que perscruta as reentrâncias do pensamento. 

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