Boletim Letras 360º #455

DO EDITOR

 
1. Caro leitor, neste dia, iniciava este blog. Era uma web totalmente diferente dos dias que correm — basta dizer que os inferninhos das redes sociais, nossas praças para autos-de-fé neste século, ainda era apenas o sonho de algum ocioso jovem do Vale do Silício.
 
2. O blog nunca foi um espaço-brincadeira de jovem estudante de Letras, como pareceu a alguns. Era parte de uma necessidade que se modificou continuamente nesses 15 anos online.
 
3. Como grande parte das coisas que inventamos, isso aqui também se tornou um monstro; perturba-me um tanto e leva algumas horas de uma vida atribulada que poderiam ser gastas com outras coisas (papagueando pelas casas dos srs. do Vale, talvez).
 
4. Mas se o blog ainda acontece é porque carrego algum interesse contra a maré de desesperança fixada num país acusado de ser um mau-leitor e desinteressado da cultura literária — e já agora sei que não estou sozinho pela sempre renovada chegada de amigos e apoiadores. Não tenho dimensão nenhuma se este se tornou um espaço fundamental para corrigir nossas misérias, mas fazemos o possível — sempre colocando em primeiro lugar o respeito pela literário.
 
5. Alguma expectativa para os próximos anos? Por agora, nenhuma. Foi a mesma que nos trouxe até aqui e contribuiu para muitas das ideias e projetos desenvolvidos até agora. A todos que chegaram, chegam, muitíssimo obrigado!
 
*
 
6. Ontem, dia 26 de novembro, saiu o resultado do primeiro sorteio do pequeno clube de apoios à manutenção do blog — está aqui. Foi a ideia mais recente saída daqui depois de um terrível aperto para pagar os custos de permanência do Letras num domínio próprio quando este país virou a economia do avesso, arrastando todos para uma maré de miséria.
 
7. Um novo kit está disponível, agora, com três livros ofertado pela Editora PontoEdita. Você pode saber tudo sobre como participar aqui.
 
8. Reitero os agradecimentos semanais com um abraço por continuar na aposta em trabalhos como o Letras. Que possamos sempre conseguir novas forças para o que nos aguarda.

Clarice Lispector em registro até agora desconhecido, numa entrevista concedida para TVE Rio. 


 
LANÇAMENTOS
 
Uma nova biografia, em capa dura, de Clarice contendo numerosas novas informações, assim como diversas fotografias inéditas.

A procura da própria coisa detalha, por exemplo, a única viagem de Clarice de volta à cidade de sua infância, o Recife, no ano anterior ao seu falecimento, experiência transformadora que inspirou a escrita do seu livro mais conhecido, A hora da estrela. Focaliza toda a sua família, além de apresentar informações surpreendentes como sua ficha policial como suspeita de atividades subversivas desde a Era Dutra. À procura da própria coisa apresenta também um importante caderno de imagens, contendo diversas fotografias inéditas e identificando pela primeira vez a autoria de alguns dos seus conhecidos retratos que até agora têm circulado sem o devido crédito de autor. Dedica, inclusive, todo um capítulo ao tema, “Clarice pela lente dos fotógrafos”, demonstrando como alguns dos seus retratos icônicos contribuíram para a criação da atual mística internacional em torno da escritora. Teresa Montero é, sem dúvida alguma, uma das maiores especialistas na vida (e também na obra) de Clarice Lispector. Publicou, em 1999, uma biografia seminal, Eu sou uma pergunta, fruto de sua dissertação de mestrado em Literatura Brasileira na PUC-Rio, que serviu de referência para as biografias de outros autores que a sucederam, pois teve oportunidade de entrevistar em primeira mão mais de oitenta pessoas que conviveram com Clarice, a maioria das quais falecidas desde então. Promotora de passeios culturais que culminaram na publicação de O Rio de Clarice: Passeio afetivo pela cidade, Teresa Montero foi também responsável por importantes iniciativas públicas de reconhecimento do legado clariceano, ao lado de outras personalidades, tais como a implantação de sua estátua no Leme (de autoria de Edgar Duvivier), e a criação do Espaço Clarice Lispector no Jardim Botânico. Organizou diversas coletâneas do legado clariceano para a Rocco, tais como Correspondências, Minhas queridas, Aprendendo a viver e Outros escritos (com Lícia Manzo). Também co-roteirista do longa-metragem A descoberta do mundo de 2021, dirigido por Taciana Oliveira.
 
O principal livro de César Vallejo em nova tradução no Brasil. 

Escritos ao longo da década de 1930 e publicados postumamente, estes Poemas humanos são um dos pontos altos da poesia do peruano César Vallejo (1892-1938). O vocabulário hipnótico, a um só tempo coloquial e preciso; os versos livres, mas trabalhados em filigrana; a gama de temas, que vão do mundano e do político ao trágico e ao existencial — tudo isso converge em poemas de intenso lirismo e igual modernidade, com poucos paralelos na poesia do século XX. Nesta nova versão brasileira dos Poemas humanos, os tradutores Fabrício Corsaletti e Gustavo Pacheco enfrentaram o texto de Vallejo sem se conceder atalhos fáceis. O resultado é esta edição, bilíngue e acompanhada de notas copiosas, que busca tornar audível em português do Brasil uma das vozes mais poderosas da poesia latino-americana. O livro é publicado pela Editora 34 no âmbito da Coleção Fábula.

Livro marca o centenário de um dos grandes de poesia italiana contemporânea. 

No ano em que se completa o centenário de nascimento de Andrea Zanzotto (1921-2011), a editora 7 Letras apresenta ao público brasileiro a obra desse grande mestre da poesia italiana contemporânea, considerado por muitos como o verdadeiro herdeiro de Eugenio Montale. Primeiras paisagens, em edição bilíngue, foi organizada e traduzida por Patricia Peterle e reúne poemas dos três primeiros livros do autor: Por trás da paisagem (1951), Elegia e outros versos (1954) e Vocativo (1957). Nas palavras de Tarso de Melo, “os três livros de Zanzotto aqui reunidos – que dão início nos anos 1950 à trajetória de um dos maiores poetas italianos do século XX — entregam uma poesia que fala amorosamente da terra, de um lugar na terra, mas que, curiosamente, não se faz do que um homem tem a dizer sobre o que está ao seu redor, mas sim do que tudo ao seu redor tem a dizer sobre aquilo que escapa aos seus olhos, nas profundezas da terra e da vida.”

Em A porta da viagem sem retorno, David Diop encena dramas humanos num período contraditório marcado pelo espírito iluminista e a violência do escravismo.

No leito de morte, o naturalista Michel Adanson – inspirado no homônimo histórico (1727-1806), que elaborou um sistema de classificação das plantas, incluindo a descrição do baobá – se martiriza por não ter contado toda sua história à filha Aglaé. Apesar de ter escrito suas memórias da África e um tratado de botânica, faltou-lhe tornar pública a mais relevante de suas experiências. Num último suspiro, limita-se a murmurar um nome-enigma. Paralelamente, por meio da vida sentimental da Agalé, a obra descortina os jogos de amor e poder na sociedade francesa da segunda metade do século XVIII. Ler A porta da viagem sem retorno é reencontrar convergências entre o continente africano e o território da diáspora, a exemplo do provérbio Fulbe (“A narrativa é o lugar onde se encontra o passado”) citado pelo linguista senegalês Pathé Diagne e da epígrafe de Viva o povo brasileiro (“O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias”) anotada por João Ubaldo Ribeiro. Diop demonstra que a duração dos eventos depende das narrativas que os personagens tecem uns sobre os outros. Por isso, a palavra que inaugura o mundo se torna o eixo mais potente do romance. É necessário atentar para suas derivações que dão forma ao passado sob perspectivas que exaltam o diálogo entre as culturas ou que fixam, desde fora, a imagem do outro. Ciente dessas oscilações, o autor conduz os personagens por uma teia de viagens, onde cada um espera encontrar o fio da sua própria história. A tradução de Raquel Camargo é publicada pela editora Nós.

Best-Seller da literatura afro-americana ganha nova tradução no Brasil e é publicado pela editora Carambaia.

Publicado em 1946, A rua, de Ann Petry (1908-1997), tornou-se rapidamente o primeiro romance de uma autora negra a superar a marca de 1 milhão de exemplares vendidos nos Estados Unidos — e bateu o recorde com folga: vendeu 1,5 milhão de cópias. No cânone da literatura afro-americana, contudo, a autora nem sempre foi devidamente lembrada, apesar de ter alcançado um equilíbrio raro: uniu observação social implacável a características da melhor tradição do thriller, sendo comparada a clássicos do romance policial como Raymond Chandler e Patricia Highsmith. Mais de sete décadas depois de sua primeira edição no Brasil, o romance de Ann Petry recebeu nova tradução, de Cecília Floresta, e vem acompanhado do posfácio da escritora americana Tayari Jones. A maior parte do enredo se desenvolve, efetivamente, em uma rua, a 116th Street, que tem papel-chave na vida da protagonista, Lutie Jones, que tenta sobreviver com um filho de 8 anos no tumultuado bairro nova-iorquino do Harlem. Nas palavras de Tayari Jones, “a 116th Street é a resoluta antagonista e representa a intersecção entre racismo, sexismo, pobreza e fragilidade humana”. São esses os elementos que conferem ao romance um ponto de vista incomum mesmo entre os clássicos da produção literária afro-americana, em geral marcadamente masculinos. Lutie Jones é uma mulher que sai de seu meio familiar na região da Nova Inglaterra e deixa para trás o companheiro que não consegue ajudá-la a criar o filho. Ela tampouco pode contar com o pai beberrão e sua nova esposa. Resta-lhe, de início, o trabalho de empregada doméstica na mansão de uma família rica que a trata com condescendência num ambiente abertamente racista. Lutie, no entanto, compartilha com seus patrões o credo no “sonho americano”, traduzido no elogio ao empreendedorismo formulado por Benjamin Franklin. Essa convicção a leva a abandonar o trabalho doméstico para estudar datilografia e conseguir empregos melhores. “Em outras palavras, Lutie é uma americana”, observa Tayari Jones. “Contudo, ela é uma americana negra, e esses termos nem sempre combinam.” No prédio decadente e sujo onde Lutie encontra um apartamento ao alcance de sua pouca renda, Lutie convive com um zelador de presença ameaçadora e a dona de um bordel que a convida insistentemente a trabalhar para ela. O único personagem branco na 116th Street é o dono do prédio e também de um bar onde Lutie começa a se apresentar como cantora, estimulada pelo pianista e líder da banda da casa – um homem negro que sabe se virar na selva urbana. Enquanto ganha a vida, Lutie tem de deixar seu filho sozinho nos horários em que ele não está na escola. A atmosfera construída por Petry traduz a iminência de perigos por toda parte de um cenário marcado por miséria e atitudes de salve-se-quem-puder. O leitor é envolvido numa multiplicidade de pontos de vista — embora a autora naturalmente dê ênfase à vida interior da protagonista, com frequência leva os leitores aos pensamentos e atitudes de quase todos os personagens, mesmo os mais sinistros.
 
Uma seleção de textos dos diários de Virginia Woolf.

Expoente do Modernismo e uma das autoras de maior impacto na literatura até hoje, Virginia Woolf é uma das raras figuras históricas que demonstrou, desde a juventude, um apuro estético incomum nos seus escritos. Além dos registros cotidianos, utilizava seus diários como um espaço em que o público e o privado, o poético e o prosaico, o sublime e o humano se misturam. Nascida em 1882 na Inglaterra, autora de clássicos como Mrs. Dalloway, Orlando: uma biografia e Um teto todo seu, ela transitava com igual brilhantismo por romances, contos e ensaios. Mais do que isso, sua sensibilidade sobre questões de gênero, políticas e sociais na Inglaterra, transpassadas pela tensão da claustrofobia durante os bombardeios da Primeira Guerra e pela presença crescente do nazismo, aproxima a leitura à vivência contemporânea de forma quase profética. Costurando referências a acontecimentos históricos, a personagens célebres da intelectualidade e aos seus próprios demônios, os diários de Woolf demonstram uma personalidade única e precursora. Esta seleção, traduzida pela escritora Angélica Freitas e organizada por Flora Süssekind, vai desde a adolescência até a morte de Virginia, em 1941. Um marco inédito e uma janela à interioridade de uma mulher ímpar e ao seu talento pioneiro, cujo legado permanece vivo e cada vez mais atual. Os diários de Virginia Woolf. Uma seleção (1897-1941) é publicado pela editora Rocco. 
 
A tradução de Zami amplia a presença da obra de Audre Lorde no Brasil. 

Publicado originalmente em 1982 e até então inédito em português, este livro de Audre Lorde — poeta, ensaísta e ativista negra e lésbica — narra os primeiros passos de sua jornada até a “casa de si mesma”, em uma trajetória marcada, do início ao fim, pela conexão com outras mulheres. Chamado não de autobiografia, mas de biomitografia, é um emaranhado indissolúvel de conteúdo autobiográfico e ficção, no qual as histórias das mulheres que fizeram parte da vida da autora são reverenciadas e integradas à sua própria construção identitária. Zami traz as recordações dos primeiros 23 anos da vida de Lorde — de sua infância, marcada pela personalidade grandiosa de sua mãe, pela descoberta do mundo, da injustiça e do pertencimento; de sua adolescência, quando florescem os primeiros poemas; de sua juventude, com a descoberta do amor homossexual e as consequentes dificuldades de ser lésbica e negra nos anos 1950. Zami é a força dessas mulheres que amam umas às outras. Lorde oferece ao público as suas “praias da memória”, que guardam “a cor da solidão”, os “lugares secretos da dor”, mas também “os rituais de mulheres negras penteando os cabelos de suas filhas”, o “cheiro macio da manhã”, as “marés do corpo forte” da amante no encontro erótico. Mais do que isso, Zami dá voz e reconhecimento àqueles corpos constantemente silenciados, indesejáveis aos olhos do patriarcado branco e heterossexual, mas que resistem, não cedem, permanecem. Que erigem a “morada da diferença” e se fortalecem sob o amor e o afeto que “tornam a vida possível”. A tradução é de Lubi Prate, o livro tem prefácio de Cecília Floresta e é publicado pela Editora Elefante.
 
Livro reúne entrevistas de Rodrigo de Souza Leão.

Do Balacobaco
 traz à tona uma das primeiras e mais frutíferas facetas que a internet, no início de sua popularização nos ambientes domésticos, potencializou no jornalista, escritor, músico e artista plástico Rodrigo de Souza Leão. Além de elucidar as potencialidades da tecnologia digital, o conjunto de entrevistas aqui reunido explicita o que as sociedades experimentariam em seu ápice na atualidade, uma vida sem fronteiras entre o on e o offline. O arquivo digital de Rodrigo, no qual esta obra se fundamenta, encontra-se custodiado pelo Arquivo-Museu de Literatura Brasileira e evidencia suas múltiplas facetas, possibilitando vislumbrar a diversidade e fragmentação que caracterizam os ambientes da vida social na contemporaneidade. Sua produção literária e o arquivamento de sua obra também dialogam com os interessados na formação de acervos em ambiente digital: uma tarefa que caminha sobre a permanente contradição entre as vantagens da replicabilidade e as sensibilidades técnicas, que aportam desafios para a preservação da memória digital e pincelam tons de pioneirismo tanto no trabalho de Rodrigo como nos daqueles que se empenham na manutenção e disseminação de sua instigante e necessária obra. Organizado por Aline Leal, Marília Rothier Cardoso, Ramon Nunes Mello e Lucas Viriato, o livro foi publicado pela editora Numa.
 
Livro apresenta aos leitores brasileiros a prosa de Norwid. 

Para esta primeira apresentação da prosa de Norwid em língua portuguesa foram selecionadas duas novelas e duas memórias. As novelas, escritas nos seus últimos anos da vida, O segredo do lorde Singelworth (Tajemnica lorda Singelworth), em 1883, e Ad leones!, em 1882-1983, narram acontecimentos ocorridos em Veneza e Roma, e o narrador que é também personagem, visivelmente alter ego do autor, faz um complexo jogo estilístico e retórico que realça o seu significado misterioso, por um lado, e parabólico, por outro, mas também permite intervir posicionando-se, com uma boa dose de ironia, diante dos processos culturais, sociais e civilizacionais que representam. Menego: fragmento das memórias (Menego. Wyjątek z pamiętnika), escrito em 1850, é um registro fiel do último encontro de Norwid com o seu amigo pintor Tytus Byczkowski, em Veneza, num dia de abril de 1843, que no dia seguinte cometeu suicídio por afogamento na ilha Lido. E a Viagem pela Exposição Universal (Podróż po Wystawie Powszechnej) é um relato da visita de Norwid na Exposição Universal de Paris, aberta no dia 1o de abril de 1867. Escrito em forma de carta a Joanna Kuczyńska, residente na Polônia, o texto foi enviado a ela com a expectativa de ser encaminhado para a publicação num dos periódicos do país, o que não ocorreu. Com tradução de Henryk Siewierski, o livro é publicado pela editora 7 Letras.

O retorno de Kobo Abe aos leitores brasileiros. 

Jumpei Niki, o protagonista deste livro, é professor de escola e também colecionador de insetos. Por causa desta sua segunda atividade e por querer gravar seu nome na eternidade de maneira um tanto exótica, ele excursiona solitário a um vilarejo distante, localizado em meio às dunas de um grande areal. Os moradores do povoado oferecem-lhe uma hospitalidade duvidosa, que aparentemente não passa de um disfarce para intenções muito menos virtuosas; e ele se encontra de repente sem saída como os insetos que captura, preso junto à mulher que habita a casa em que ele pernoitou. Os dois trabalham incessantemente, tirando a areia que não cessa de impregnar tudo; e a partir daí Kobo Abe faz com que os leitores reflitam sobre o valor do trabalho, sobre o tempo, a liberdade e a solidão, sobre a vida na cidade e fora dela, sobre a perseverança do ser humano em viver apesar de todo o sofrimento. A estranheza de A mulher das dunas reside tanto na linguagem peculiar da narração quanto nas ações e nos modos de pensar dos personagens, além das propositais confusões de tempo e espaço. Entram em cena diversas situações absurdas, que o indivíduo tem de suportar sem que ninguém, a não ser ele próprio, enxergue nelas algo de errado. Num primeiro instante, tais situações perturbam, de tão ilógicas e surreais, mas, conforme se repetem, se revelam reconhecíveis e compatíveis com os fatos da vida além da ficção. Assim, sem dúvida alguma, a estranheza atrai mais do que afasta. Quem atender ao convite à leitura desta obra sui generis, sobretudo aqueles que por acaso tendem um pouco à paranoia ou à claustrofobia, sentirão inevitavelmente certo incômodo. Mas um incômodo daqueles prazerosos, nos quais se descobre uma felicidade profunda e se pressente um aprendizado duradouro. Acompanhar o que acontece com Jumpei Niki é, junto a ele, perder de vista o horizonte, porém, ainda assim, confiar que este continua tecido entre céu e terra. É untar-se de areia dos pés à cabeça, da garganta ao lado de dentro das pálpebras, dos vãos entre os dedos ao fundo da alma. E é também aprender os momentos certos de saber quando olhar para dentro de si mesmo e para fora. Com tradução de Fernando Garcia, A mulher das dunas é publicado pela editora Estação Liberdade.
 
PREMIAÇÕES LITERÁRIAS
 
Jeferson Tenório é o vencedor do Prêmio Jabuti, categoria Melhor Romance.

Os vencedores do 63.º Prêmio Jabuti foram anunciados em 25 de novembro de 2021 na cerimônia realizada virtualmente pelo segundo ano consecutivo e transmitida pelo canal da Câmara Brasileira do Livro no YouTube. Jeferson Tenório foi premiado com O avesso da pele (Companhia das Letras). Na categoria Poesia, a vencedora foi a poeta Maria Lúcia Alvim com Batendo pasto (Relicário Edições). No conto, Flor de gume (Jandaíra), de Monique Malcher. E na crônica, Flávio Carneiro, com Histórias ao redor (Cousa). A lista completa está no site da CBL.

INÉDITOS

A biografia de Clarice Lispector escrita por Teresa Monteiro amplia a riqueza de trabalhos valiosos como o de Nádia Battella Gotlib sobre a escritora. Alguns dos frutos do rico manancial acessado pela pesquisadora é a descoberta de uma entrevista de seis minutos oferecida por Clarice ao programa Os mágicos, na TVE, do Rio de Janeiro, em dezembro de 1976. A imagem que abre este boletim é um frame do vídeo que será conhecido, enfim, no documentário A descoberta do mundo, de Taciana Oliveira, com estreia no 16.º Festival de Cinema Latino-Americano, realizado em dezembro, em São Paulo. A entrevista com Clarice para TV foi conduzida por Araken Távora e traz imagens o que agora formam os primeiros registros sobre a escritora neste gênero. Clarice concedeu várias outras entrevistas, mas para amigos e jornais. Para televisão a até agora mais conhecida é entrevista dada à Júlio Lerner para a TV Cultura, exibida em fevereiro de 1977. 

DICAS DE LEITURA
 
Diários de escritores. Uma sugestão de passatempo entre as suas leituras ou para os dias de algum de descanso que se aproximam. No Letras encontram postagem com uma lista designada como “Os melhores diários de escritores” (vejam a próxima seção deste Boletim). Nos últimos anos, vimos alguma profusão de livros desse tipo entre nós: a nova tradução dos diários de Virginia Woolf (que agora encetou a aparição de uma antologia como noticiamos acima) e dos diários de Franz Kafka, são alguns exemplos. Por isso, resolvemos fazer essa pequena lista.
 
1. Diário. Memórias da vida literária, dos irmãos Goncourt. Edmond e Jules constituíram a fina flor da opinião crítica sobre a vida literária na França da segunda metade do século XIX. Foi pelo interesse deles que o país mais tarde criou o que é agora o prêmio literário mais importante na literatura de língua francesa. Os dois leitores e comentadores viveram um dos períodos mais criativos; basta dizer da presença de obras de autores como Gustave Flaubert, Victor Hugo, Charles Baudelaire, Émile Zola, Guy de Maupassant, Stéphane Mallarmé, entre outros. Sobre a obra dessas figuras e sobre vários outros aspectos da cena literária dentro e fora do seu país, os Goncourt deixaram quase cinco mil páginas que deram forma aos seus diários. Entre nós, o acesso a todo esse material só está ao alcance dos leitores de língua francesa. Mas, a Carambaia editou essa seleção organizada e traduzida por Jorge Bastos.
 
2. Diários: 1909-1923, de Franz Kafka. O leitor brasileiro conhecia essa face do autor de A metamorfose pelas edições da editora Itatiaia (2000) ou L&PM Editores (2019). Neste ano, a Todavia colocou à nossa disposição a tradução de Sergio Tellarori. Trata-se de um livro que abre as portas para o laboratório criativo do escritor: sua busca por uma literatura capaz de introduzir questões caras ao seu tempo e por uma escrita singular; anotações circunstanciais da sua vida, os amores, as leituras, rascunhos de cartas, relatos de sonhos, a família, a profissão, enfim, “o homem de carne e osso” tal como se descreve no texto de apresentação enviado pela editora. É valioso e curioso entrar por algumas sendas de uma das mentes mais brilhantes já conhecidas na literatura.  
 
3. Os diários de Carolina Maria de Jesus. Talvez mais que sua obra literária, esses textos entregam o fazer escritural de uma mulher que habitou a periferia do mundo e foi testemunha de todas as formas de desigualdade praticadas no Brasil. Enquanto não sabemos o que será feito do restante dos inéditos de Carolina — outra vez pelos horríveis imbróglios de herdeiros que pensam antes de tudo no lucro e quase nada na memória — já conhecemos dois volumes apresentados pela Companhia das Letras. No Casa de alvenaria 1 se contempla os anos de quando Carolina deixou a favela do Canindé e foi viver em Osasco nos 1960 depois do sucesso estrondoso que foi Quarto de despejo — algo filtrado por ela nessas páginas; no segundo, encontramos o período de quando a autora esteve em Santana antes de se mudar para um sítio em Parelheiros. Esta edição inclui vasto material até agora desconhecido do público geral.
 
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
 
1. Quem acompanha com regularidade estes boletins sabe do projeto da Relicário Edições de publicar uma robusta coleção com novas traduções, além de apresentar títulos ainda desconhecidos em nossa língua, de Marguerite Duras. Entre os dias 23 e 25 de novembro, a casa organizou o “Circuito Marguerite Duras” — uma série de diálogos entre leitores e especialistas na obra da escritora. Toda a programação está visível no canal da editora no YouTube, aqui.
 
2. Em dezembro o Clube Quindim de Leitura com crianças completa 5 anos. Nesse meio tempo, o projeto chegou a mais de 15 mil crianças em todas as partes do Brasil e entregou mais de 180 mil livros de quase 500 títulos. E para marcar a data, um novo site, conversas com especialistas para discutir sobre a leitura e a literatura no desenvolvimento infantil. Os interessados podem buscar mais detalhes sobre a programação de aniversário aqui.
 
3. No passado dia 23 de novembro foi data de nascimento de Herberto Helder. A edição n.16 da revista 7faces, organizada pelo também poeta Leonardo Chioda, homenageia o poeta português. É possível acessar aqui.

4. Em 2015, acrescentamos aos arquivos de vídeo colecionados na página do Letras no Facebook a entrevista que Clarice Lispector concedida à Júlio Lerner para a TV Cultura. 

BAÚ DE LETRAS
 
1. Sylvia Plath, Ricardo Piglia, José Saramago, Sándor Márai, Robert Louis Stevenson, Dostoiévski... O que esses autores têm em comum? Escreveram e publicaram diários. Recorde aqui a lista com doze autores e seus exercícios de reflexão. 
 
2. No domingo, 28 de novembro de 2021, passam-se 140 anos do nascimento de Stefan Zweig. Destacamos dois textos traduzidos aqui no blog sobre o escritor austríaco e sua obra — “Stefan Zweig: a vertiginosa épica do sentimento”, aqui; e “A primeira volta ao mundo, uma crônica de dor humana”, aqui.

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* Todas as informações sobre lançamentos de livros aqui divulgadas são as oferecidas pelas editoras na abertura das pré-vendas e o conteúdo, portanto, de responsabilidades das referidas casas. 

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Boletim Letras 360º #506