Boletim Letras 360º #408

DO EDITOR
 
1. Saudações, leitores! Continuamos nosso mês de recesso. As posts por aqui deixaram de ser diárias, mas nossas atividades nas redes sociais continuam. Aqui estão reunidas as notícias que divulgamos em nossa página no Facebook.
 
2. E, já temos uma data de possível retorno à programação normal. Vamos esperar, no entanto, um dos próximos BO's para divulgar.

3. Agradeço aos leitores pela companhia!

Yukio Mishima. Inéditos e títulos fora de circulação no Brasil ganham nova edição.


 
LANÇAMENTO
 
A reunião da obra poética de Alvarenga Peixoto.

A crítica textual, tal como ensinada e praticada no Brasil, sempre se propôs como finalidade a reconstituição de um suposto original, chamado por Segismundo Spina “texto genuíno”, que representaria a etapa final de composição da obra, quando já não é mais objeto de reescritura por parte de seu autor. O texto “genuíno” é um ideal filológico pensado como possível para todos os lugares e tempos e desconsidera a historicidade de várias poéticas, reduzindo-as a uma unidade sob égide romântica: nada se fala, nos manuais de crítica textual que tratam da “genuinidade”, das poéticas da voz, da performance e da recomposição pela escritura de textos que estão sempre in fieri, em estado de instabilidade. Mesmo estudos que objetivam considerar o caráter precário e movente de textos poéticos, como o de Rupert T. Pickens, que nos legou a magistral pesquisa sobre Jaufre Rudel, muita vez se deixam iludir pela ideia de “genuinidade” e acabam por impor a distintos estados textuais uma suposta hierarquia que toma como ponto referencial uma maior proximidade frente à última vontade autoral. Não assim a edição feita por Caio Cesar Esteves de Souza das poesias de Alvarenga Peixoto, em que uma reflexão crítica madura produz uma edição em que o descentramento, pela ruptura com a ideia romântica de autoria, se evidencia na prática de seleção e disposição dos poemas no interior da recolha. Caio Cesar Esteves de Souza recusa-se reconstituir os poemas de Alvarenga Peixoto a partir de uma collatio codicum que lhe permitiria alçar-se ao suposto original ou arquétipo da tradição, apresentando-nos por conta dessa negação um poeta e uma poesia mais pujantes e múltiplos. (Marcello Moreira) A edição de Obras poéticas de Alvarenga Peixoto tem prefácio de João Adolfo Hansen e apresentação de Kenneth Maxwell. Publicação da Ateliê editorial.
 
REEDIÇÕES
 
Reedição de um conjunto de ensaios sobre a obra de Clarice Lispector sublinha o centenário da escritora.

Escreve Clarice: “Eu que escrevia com as entranhas, hoje escrevo com a ponta dos dedos”. Clarice Lispector com a ponta dos dedos, a trama do tempo traz seis ensaios de Vilma Arêas sobre a obra clariciana. Trata-se de edição comemorativa ao centenário da importante escritora, celebrado em 10 de dezembro de 2020. Ilustrado com fotos e manuscritos, além de prefácio de Samuel Titan Jr., no lançamento da editora da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (IMESP) a escritora e professora de literatura brasileira Vilma Arêas estabelece um amplo estudo da obra completa. “Nas páginas de Clarice Lispector com a ponta dos dedos, o texto literário não é objeto inerte de uma teoria ou interpretação já pronta. Ao contrário: Vilma Arêas mimetiza o movimento mais essencial de Clarice Lispector e privilegia a procura reiterada e o encontro com o texto — que se produz, aqui, na forma de uma leitura sem pauta prévia. O resultado é fascinante: a obra fala e dialoga — e, quando lhe dá na veneta, ela cala ou pergunta. O que mais poderíamos pedir a um grande livro de crítica literária?”, registrou no prefácio Samuel Titan Jr., tradutor e professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo. O livro publicado originalmente em 2005 pela Companhia das Letras foi vencedor do prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) no mesmo ano e 3.º lugar na categoria Teoria e Crítica Literária do prêmio Jabuti de 2006. A nova edição conta agora com itens inéditos; além de uma rigorosa revisão, um ensaio novo sobre um conto pouco estudado de Lispector: “A mensagem”, de A legião estrangeira.

Reedição de uma das traduções mais conhecidas no Brasil para um clássico da literatura ocidental moderna.
 
O motivo principal da excelência da tradução que Antônio Houaiss fez de Ulisses está, na opinião de Cid Silveira, em sua radicalidade. Entre verter simplesmente as ideias do texto e subverter o idioma para corresponder às invenções do original inglês, Houaiss optou pela última alternativa. E o fez, por vezes, com mais arrojo que seus predecessores (a clássica e bem-cuidada versão francesa de Augusto Morel e Stuart Gilbert, revista por Valery Larbaud e pelo próprio Joyce é, sob esse aspecto, bastante tímida). A grandeza e a autenticidade da obra de Joyce (que chegou a ser tachada, no começo do século, de “bolchevismo literário”) está em sua essência revolucionária, na sua insubmissão aos ditames linguísticos. É impossível ser fiel ao espírito de Ulisses sem transportar a sua insubordinação linguística para o idioma ao qual se queira vertê-la. A Civilização Brasileira reedita a tradução de Houaiss para o romance de James Joyce.
 
A editora Antofágica é uma das que publicam nova tradução de dois clássicos de George Orwell.
 
1. Em uma sociedade em constante estado de guerra contra outros países e contra os inimigos do sistema, cada cidadão deve viver sob a permanente vigilância das teletelas. Qualquer sinal de comportamento ou pensamento desviante da ideologia do Grande Irmão é severamente punido pela Polícia do Pensar. Funcionário do Ministério da Verdade responsável por reescrever notícias e registros históricos, Winston Smith atua alterando o passado e, assim, o presente. Treinado para obedecer e calar, ele começa, no entanto, a questionar essa realidade. Seus atos de rebeldia contra o sistema, como ousar manter um caderno subversivo, parecem mínimos, até que ele se depara com a oportunidade de fazer algo maior e colocar sua vida em risco por uma sonhada mudança. Publicado originalmente em 1949, este clássico de George Orwell é uma obra fundamental sobre opressão e totalitarismo e possibilita inúmeros paralelos com o momento que vivemos, 70 anos depois. A edição da Antofágica, além de contar com tradução de Antônio Xerxenesky, ilustrações de Rafael Coutinho e apresentação de Gregório Duvivier, também traz textos extras de Luiz Eduardo Soares, especialista em segurança pública, Débora Reis Tavares, estudiosa de Orwell, Ignácio Loyola Brandão, um dos principais autores contemporâneos e membro da Academia Brasileira de Letras e do jornalista Eduardo Bueno, criador do canal Buenas Ideias no YouTube. E, ao fazer a leitura do QR Code da cinta com seu smartphone, o leitor tem acesso a três vídeo-aulas de Débora Reis Tavares, especialista em Orwell, para enriquecer a experiência de leitura. Cada aula é indicada para um momento da leitura: “Antes de iniciar o livro”, comentando o contexto geral da obra; “Durante a leitura”, com alguns insights sobre o que está acontecendo na trama; e “Depois do término”, como uma espécie de posfácio levantando alguns pontos interessantes da obra.
 
2. Os animais da Fazenda Imperial estão cansados da opressão. Depois de perceber que os louros de todo seu duro trabalho acabam nas mãos dos humanos, eles organizam uma revolução e tomam o controle da fazenda. Surge então a esperança de uma sociedade em que todos os animais sejam iguais, trabalhando e desfrutando do bem comum. Mas, além de enfrentar os senhores, os animais precisarão lidar com as divergências entre os irmãos. George Orwell sempre lutou contra injustiças, dentro e fora dos livros, afiliando-se a partidos progressistas durante sua vida. Mesmo nestes, posicionou-se à esquerda, pegando em armas ao lado dos socialistas libertários durante a Guerra Civil Espanhola. Com este conto de fadas político, publicado em 1945, o autor fez uma crítica afiada à ameaça totalitária que acompanha grupos que ascendem ao poder — e que, assoberbados pela autoridade, lá resolvem se manter a qualquer custo. Com nova tradução feita por Rogerio Galindo e mais de 60 artes de Talita Hoffmann, a edição da Antofágica conta com o prefácio que o próprio Orwell escreveu à edição ucraniana de 1947, comentando a instrumentalização de sua obra como panfleto anticomunista, um ensaio do jornalista e escritor Xico Sá como apresentação, e posfácios do especialista em Revolução Russa, Daniel Aarão Reis, que se aprofunda no contexto histórico da obra, e do tradutor Rogerio Galindo, que traça um panorama da vida e obra de Orwell. Ao fazer a leitura do QR Code da cinta com seu smartphone, o leitor tem acesso a duas vídeo-aulas de Débora Reis Tavares, especialista em Orwell, para enriquecer a experiência de leitura. A primeira aula é indicada antes de iniciar o livro, pois traz o contexto geral da obra — aspectos da trama e o momento da História em que está inserido. A segunda aula é indicada para depois do término, como uma espécie de posfácio levantando alguns pontos interessantes da obra.
 
OS LIVROS POR VIR
 
Vários títulos de Yukio Mishima voltam aos leitores brasileiros.
 
Em meados do difícil 2020, a Companhia das Letras disponibilizou toda a obra de Yukio Mishima de seu catálogo em formato digital. Os leitores mais tradicionais, esperam ainda que estes títulos voltem ao impresso. Enquanto isso, a editora Estação Liberdade larga na frente, ampliando entre suas publicações outros títulos do escritor japonês inéditos ou há muito esgotados por aqui. A largada se deu com o inédito Vida à venda. Para março de 2021, poderá sair O marinheiro que perdeu as graças do mar, traduzido direto do japonês pela primeira vez por Jefferson José Teixeira. Este clássico da literatura de Mishima data de 1963 e é uma fábula sombria sobre a desumanização, encarnada numa gangue de adolescentes e sua revolta contra a vida comum e os pactos sociais. Logo a seguir, ainda sem previsão de publicação, saem Sol e aço — um ensaio autobiográfico — e a nova tradução, também direta do japonês, da tetralogia “Mar da fertilidade”.

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