António Nobre


António Nobre em Nova York. Foto de 1897.


Não é desconhecida a relação que Florbela Espanca estabelece com a poesia de António Nobre. O reconhecido poeta português que se assume uma das vozes mais singulares da literatura em Portugal no seu tempo vive agora numa condição interessante: é, muitas vezes, pela obra da poeta esquecida no seu tempo que muitos chegam a Anto. 

Em algum momento, e isso está na sua obra com todo trago de sinceridade ainda dominante na poesia herdada dos poderes do romantismo, ela diz se sentir fortemente levada pela capacidade poética de Nobre e não negaria em certa autocrítica  uma incapacidade sua em tornar-se poeta, diante do fenômeno de , a única obra que os dois viram publicada. 

foi publicado em Paris, para onde foi morar depois de iniciar uma incursão literária em seu país; foi na Cidade Luz onde concluiu o curso de Direito. E foi, certamente, entre a variedade de sentimentos do sujeito fora de seu lugar que se viu preso nas próprias redomas, nas memórias que deram a cor cinza e amarelada dos poemas do livro descrito por ele próprio como o mais triste que há em Portugal. 

Fernando Pessoa chegou a considerá-lo, entre esse lamento e nostalgia, ou talvez na composição da mais penosa das saudades, fonte “de todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas”. Florbela, esquecida do poeta de Mensagem e dos poetas do seu tempo cozeu seu lamento em “A Anto” – um dos poemas que provam seu apreço e ambição em torno do poeta.

Poeta da saudade, ó meu poeta qu’rido 
Que a morte arrebatou em seu sorrir fatal, 
Ao escrever o “Só” pensaste enternecido 
Que era o mais triste livro deste Portugal! 

Pensaste nos que liam esse teu Missal, 
Tua Bíblia de dor, o teu chorar sentido, 
Temeste que esse altar pudesse fazer mal 
Aos que comungam nele a soluçar contigo! 

Ó Anto! Eu adoro os teus estranhos versos 
Soluços que eu uni e que senti dispersos 
Por todo o livro-triste! Achei teu coração... 

Amo-te como não te quis nunca ninguém 
Como se eu fosse, ó Anto, a tua própria mãe 
Beijando-te já frio no fundo do caixão!

Relações à parte, o fato é que a crítica não cansará de apontar aproximações de Florbela com Nobre. E são muitas. Logo à abertura do Livro de mágoas e em poemas como “Languidez” nesta mesma obra. Todo grande poeta terá lido os que o antecederam e se sentirá, certamente, limitado pela força dos antepassados. “Barreira” natural de propensão às rupturas e o feitio de novas obras. 

No caso de Florbela, não deixa de ter certa razão a poeta: , que foi editado na França, em 1892 – tem, portanto, forte influência do simbolismo francês, numa época em que o verso de Mallarmé era o que se produzia em termos de poesia – em terras portuguesas teve sua segunda edição, a que foi publicada seis anos depois, vendagem de mais de três mil exemplares, o que leva a entender que, mesmo passado todos os anos até que venha Livro de mágoas, em 1919, seja ainda Nobre um dos poetas mais presentes.

Pádua Fernandes atribui uma série de características que marcam o grande apelo popular dessa obra: “a linguagem que se avizinha da fala coloquial, a busca de uma identificação sentimental com o leitor ... o patriotismo ingênuo, o catolicismo, a forma cândida como trata o amor e o sexo.” A obra de António Nobre, dirá Paula Morão, na mesma direção de Pádua, “está muito marcada pelas paisagens que conheceu, quer se trate do Douro interior e do litoral a norte do Porto, que conheceu na infância e na juventude, quer de Coimbra, onde começou estudos de Direito que prosseguiria a partir de 1890 na Sorbonne, em Paris”. Todas essas possibilidades deve ter desempenhado, sim, junto aos leitores, um certo apelo à leitura, e fez do livro um Best-seller para a época.¹

O poeta nasceu no Porto, em 1867. Quando terminou os estudos em Paris, em 1893, prestou seleção para o consulado e não chegou a ocupá-lo. Na época, já padecia de tuberculose, doença que se agrava a partir de 1895 e levou Nobre a uma peregrinação pela cura da doença em sanatórios nos Estados Unidos, na Suíça, Madeira, e arredores de Lisboa, na casa da família no Seixo e na do irmão Augusto na Foz, no Porto, lugar onde morreu, ainda aos trinta anos de idade.

Apesar de significar nas letras portuguesas, Pádua Fernandes vê a obra de António Nobre como continuidade do que já se fazia em terras portuguesas, outro elemento, aliás, que justificaria o recorde de vendas de seu trabalho. Embora, o mesmo Pádua considere traços para uma linguagem modernista, seja pelo caráter coloquial, seja pela forma como engendra o ritmo no verso, seja ainda pelo tom egotista que encontraria com o modernismo de Mário de Sá-Carneiro; “Caranguejola”, tal como sublinha a crítica, é um poema que mantém relações intertextuais com “Males de Anto”. Aliás, o próprio poeta em Indícios de oiro, livro findado dias antes de seu suicídio, António Nobre é apresentado no poema “Anto”, de 14 de fevereiro de 1915. Vale citá-lo; são apenas duas quadras
 
Caprichos de lilás, febres esguias.
Enlevos de ópio – Íris-abandono...
Saudades de luar, timbre de Outono,
Cristal de essências langues, fugidias...

O pajem débil das ternuras de cetim,
O friorento de carícias magoadas;
O príncipe das Ilhas transtornadas –
Senhor feudal das Torres de marfim... 

Autor de uma única obra, como fizeram, na literatura portuguesa, autores como Cesário Verde e Camilo Pessanha, outros livros vieram postumamente, resultados de significativos textos deixados, como Despedidas, Primeiros versos, além de significativo número de correspondências como as reunidas em 1934 por Adolfo Casais Monteiro.

*

Neste pequeno catálogo reunimos o poema de abertura do livro , “Antonio” e duas cartas de António Nobre para o seu irmão Augusto do livro Cartas inéditas de António Nobre, a edição sobre a qual me referi anteriormente. Os recortes são da edição fac-símile editada pela Biblioteca Nacional de Portugal e da edição fac-símile editada pela Biblioteca Virtual da Casa Fernando Pessoa, respectivamente.

Notas:

¹ O texto de Pádua Fernandes referido é “Som e sentido das palavras”, publicado na edição especial da Revista Entrelivros sobre Literatura Portuguesa; já o texto de Paula Morão está no rol de Figuras da Cultura Portuguesa na página do Centro Virtual Camões.


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