Boletim Letras 360º #667

DO EDITOR

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Roberto Bolaño. Foto: Basso Cannarsa



LANÇAMENTOS

Três narrativas póstumas de Roberto Bolaño, em que autobiografia, fabulação alucinada e memórias da ditadura chilena se entrelaçam no inconfundível universo literário do autor.

Entre os encantos oferecidos pela leitura de Roberto Bolaño está a sensação de testemunharmos a expansão de um vasto e intrincado processo criativo. Este livro amplia ainda mais esse território ficcional com três textos póstumos, que antecipam ou dialogam com outras obras do escritor chileno.
Em “Pátria”, Rigoberto Belano recorda os efeitos do golpe de estado do Chile na vida de sua família e relata as aventuras do poeta revolucionário Juan Cherniakovski, que apareceria depois em Estrela distante. A novela “Sepulcros de caubóis” acompanha a jornada de Arturo Belano, famoso alter ego do autor, numa sucessão de encontros e perdas que refletem tanto sua juventude errante quanto uma América Latina em convulsão social e política. Já em Comédia de horror da França, uma simples ligação telefônica é porta de entrada para o enigmático Grupo Surrealista Clandestino, fundindo sátira, ironia e uma visão radical da literatura. Para leitores já familiarizados com Os detetives selvagens ou 2666, e para aqueles que se aventuram pela primeira vez na obra de Bolaño, Sepulcros de caubóis é um convite a percorrer tesouros de uma escrita incomparável, que parece não ter fim. Com tradução de Josely Vianna Baptista, o livro é publicado pela Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.

Novo livro de contos de Bernardo Kucinski.

Bernardo Kucinski afirma ser mais contista que romancista. Argumenta que K., seu primeiro livro, foi concebido como um ajuntamento de contos, não exatamente como um romance. Não se pode, entretanto, dizer o mesmo para O congresso dos desaparecidos, sua obra-prima até o momento, já traduzido para o inglês e para o árabe. Nele, o romance deriva de uma concepção teatral que encontra na Catedral da Sé um grande palco onde as vítimas da ditadura se encontram para defender um programa de emancipação que envolve passado, presente (o nosso) e futuro. A verdade é Kucinski não respeita muito os gêneros. Seu traquejo de jornalista o faz dominar discursos diversos e adequá-los a cada história. Kucisnki já navegou pelo conto em A cicatriz e outras histórias, pelo livro infantil O curumim que enxergava no escuro, o romance Júlia – nos campos conflagrados do Senhor, a distopia A Nova Ordem (e sua sequência, O colapso da Nova Ordem), além do citado drama em prosa O congresso dos desaparecidos. Cada livro traz uma marca própria, que, ao mesmo tempo, não deixa de fazer nunca jus à assinatura do autor, com seu olhar político realista e profundo mesmo para as coisas do dia a dia. O conto que dá título a este livro é um excelente exemplo: expressa um tempo terrivelmente autodestrutivo. E mais não digo, porque a surpresa bem desenhada é uma das forças da prosa de Kucinski. O exterminador de cães: novos contos sai pela Alameda Editorial. Você pode comprar o livro aqui.

Livro reúne estudo e antologia em torno e da poesia de Nicanor Parra.

Desde a publicação de Poemas y Antipoemas, em 1954, o poeta chileno Nicanor Parra (1914-2018) se estabeleceu como uma das vozes mais influentes e originais de todo o século XX. O conceito de antipoesia é o objeto deste que é o mais amplo estudo sobre a obra de Parra já publicado no Brasil. Resultado de uma pesquisa de mais de dez anos sobre o tema, realizada pelo poeta e ensaísta João Mostazo, A Grande Comédia da Antipoesia analisa a obra de Parra nas suas mais variadas dimensões: da relação com a poesia lírica e com as vanguardas às figuras da morte e do morto falante, das raízes na poesia medieval à profecia apocalíptica, da preocupação ecológica à poesia visual e à natureza cômica dos antipoemas. Compõe o livro, ainda, uma antologia de 48 poemas de Parra — muitos publicados pela primeira vez em português —, cobrindo um período de mais de cinquenta anos de produção. Publicação da Edusp. Você pode comprar o livro aqui.

Uma edição fac-similar recupera um dos principais livros do modernismo brasileiro. 

António de Alcântara Machado (1901-1935), herdeiro de uma família tradicional de São Paulo, teve uma passagem fulgurante pelo meio intelectual brasileiro. Mesmo com a morte precoce aos 33 anos, foi jornalista, cronista, crítico literário e teatral, historiador, fundador dos periódicos Terra roxa, Revista de antropofagia e Revista nova, deputado federal eleito em 1934 e autor de três livros que são marcos do nosso modernismo: Pathé-Baby (1926), Brás, Bexiga e Barra Funda (1927) e Laranja da China (1928). Brás, Bexiga e Barra Funda, cujo título remete a três bairros operários da capital paulista, com forte presença de imigrantes italianos, traz onze contos escritos em uma linguagem veloz e precisa, incluindo clássicos como “Gaetaninho”, “Carmela” e “Corinthians (2) vs. Palestra (1)”, além de um prefácio intitulado “Artigo de fundo”. Este texto, espécie de manifesto do autor, aponta as diretrizes de uma nova prosa, acompanhando as revoluções modernistas que haviam ocorrido nas artes plásticas, na música e na poesia. A presente edição, fac-similar (mas que respeita a ortografia atual), foi organizada pelo editor e crítico francês Antoine Chareyre, também autor do posfácio. O volume inclui notas explicativas aos contos, cinco textos adicionais de Alcântara Machado, bibliografia e uma fortuna crítica que apresenta um verdadeiro achado do organizador: uma resenha de Carlos Drummond de Andrade, inédita em livro, de 1927, assinada com o pseudônimo de Antônio Crispim. Publicação da Editora 34. Você pode comprar o livro aqui.

Laura Pugno nos oferece um exercício de ficção especulativa, na direção das propostas de Donna Haraway para Ficar com o problema em meio à crise do Antropoceno e das ideias de Ursula K. Le Guin da necessidade de uma nova teoria da ficção, de formas de narrar não lineares para contar a história da vida em sua diversidade

Na proposta de Pugno, as palavras se fundem, tatuadas, nas pessoas, e gravam-se também em línguas não humanas na diversidade das formas de vida que restam. Essas palavras formam textos em movimento, perecíveis, mutáveis, evocados (entre eles destaca O último dos moicanos, de James Cooper), que constituem o alicerce plural de um livro que ensaia múltiplas direções para o pensamento em alerta. Aqui se reúnem fragmentos de livros, rastros, citações de cientistas e poetas, como se fossem quipus, isto é, conjuntos de nós que guardam informação e sentido, aos quais a nova leitura (anacrônica, imprevista) confere clarividência. Um desejo apaixonado guia a reflexão: pensar o limite, pensar até o além, como na poesia, para superar as fronteiras do nosso mundo em desaparição, nós sem mundo: “encontrar um modo para pensar num outro modo como viver. Alguma coisa que ainda não tenha sido pensada. Pode fazer isso a poesia? Pode fazer isso a literatura?” Por isso a linguagem é ao mesmo tempo evocadora e precisa, capaz de convocar vidas e leituras, mas também de descrever o desassossego da crise capitalista e colonial que nos alcança, a fractalização do fim (em palavras de Débora Danowski e Eduardo Viveiros de Castro, pois as leituras do Brasil também estão muito presentes aqui). A tradução de Patricia Peterle recria esses movimentos em português, em um gesto cúmplice que acompanha Laura, tecendo formas de relação, localizando as referências e instigando as nossas pesquisas. É este um livro de livros, um palimpsesto de histórias e referências, um livro de vozes, que incitam à transformação e à criação de formas de vida mais conscientes e justas. (Meritxell Hernando Marsal) Nós sem mundo é publicado pela editora 7Letras. Você pode comprar o livro aqui.

Jazmina Barrera tece a trama de Mila, Dalia e Citlali, três amigas unidas na adolescência por fios improváveis e separadas pelo transcorrer da vida, mas têm suas lembranças reavivadas após uma tragédia

Linhas trançadas ao tecido, ponto a ponto, formam imagens, objetos, símbolos que quase sempre narram uma história. Aqui, o texto de Jazmina Barrera tece a trama de Mila, Dalia e Citlali, três amigas unidas na adolescência por fios improváveis e separadas pelo transcorrer da vida, mas têm suas lembranças reavivadas após uma tragédia, tal qual um trabalho em ponto-cruz abandonado há tempos e retomado com paixão e nostalgia. É o artesanato Ponto-cruz que dá título a esta obra que, com arte, destreza e minúcia nos detalhes, conta a vida das três jovens através da agulha e linha de Mila. Entre recordações dos tempos de colégio, viagens internacionais, visitas a museus, experiências transformadoras e aprendizados ancestrais, a narradora resgata as sensações e os sentimentos compartilhados pelas garotas, diferentes na personalidade, semelhantes na intensidade, unidas por gostos inusitados; o bordado, um deles. Ao trabalhar com linhas ora coloridas ora monocromáticas, Jazmina passeia por diferentes fases dessas meninas que vão se tornando mulheres a cada ponto. A delicadeza artística da autora enreda os leitores ao amarrar vidas distintas, suas alegrias e tristezas, amores e traumas, à própria história do bordado, enriquecendo o trançado com pintura de Diego Velázquez, literatura das irmãs Brontë e trilha sonora de Mercedez Sosa à Björk. O resultado é um tecido cuidadosamente trabalhado, sensível nos detalhes, rico nas emoções. Se os bordados contam uma história, Ponto-cruz entrega uma experiência a ser compartilhada. (Aline Teixeira) Publicação da Editora Moinhos; tradução de Silvia Massimini Felix. Você pode comprar o livro aqui.

O itinerário polonês de Alfred Döblin. 

Viagem à Polônia (1924) foi concebido a partir de uma viagem financiada pelo jornal alemão Vossische Zeitung, que publicou alguns dos textos ainda durante o percurso, e pela editora S. Fischer Verlag, responsável pela edição posterior em livro. Mais do que um registro documental, a obra combina o retrato multifacetado de uma jovem república com a experiência de um autor formado nos paradigmas iluministas da razão e da ciência e que, diante das tradições judaicas do Leste Europeu, se vê colocado à prova. Döblin se aproxima desse universo com olhar de etnógrafo: participa de rituais religiosos, escuta mestres cabalistas, percorre guetos e sinagogas. Assume como princípio a neutralidade, não deseja se deixar conduzir por idealizações ou respostas políticas prontas. Ao contrário de Martin Buber ou Stefan Zweig, que projetaram sobre os judeus da Polônia um mito do “Oriente judaico”, Döblin procura uma objetividade crítica, sensível às contradições e ambiguidades. O livro inspirou escritores e jornalistas que visitaram a Polônia muitas décadas depois, entre eles Hans Magnus Enzensberger e Reto Hänny. Com riqueza de informações e imagens de um mundo que já não existe, Viagem à Polônia permanece como um marco no gênero relato de viagem, além de um testemunho incontornável dos dilemas judaicos diante da modernidade. Publicação da editora Hedra. Você pode comprar o livro aqui.

Já pensou em passear pelas ruas de Havana com Leonardo Padura? 

Em Ir até Havana, o escritor cubano leva o leitor a uma caminhada por locais que marcaram sua vida e sua literatura. Os relatos são entremeados por trechos de seus livros e romances, com claras referências e inspirações. A segunda parte da obra conta também com reminiscências do autor, que vão de 1984 aos dias atuais. Comoventes, resgatam a história de ambientes importantes da capital cubana: pontos turísticos, bairros, construções e monumentos. Ao fim, completa o volume um belo caderno com fotos da cidade. No texto de abertura, Padura escreve sobre sua obsessão com a cidade e afirma que esta é uma obra que ele sempre quis escrever. “Este livro é um canto de amor à cidade em que nasci e vivo, escrevo e padeço, o lugar do mundo ao qual pertenço, como uma bênção ou uma fatalidade inapeláveis: como a água que nesta ilha nos rodeia por todos os lados.” Publicação da editora Boitempo; tradução de Monica Stahel. Você pode comprar o livro aqui.

REEDIÇÕES

Em 1990, inconformada com o limitado alcance de seus livros, Hilda Hilst decidiu dar uma guinada radical: se despediu da “literatura séria” e, com os três romances aqui reunidos, inaugurou sua fase pornográfica.

Autora de uma obra existencialista e profundamente filosófica, Hilda Hilst não abria mão do humor e da provocação. Em seus livros, sofisticação e transgressão convivem sem hierarquia ou distinção. Com um estilo que mescla dramaturgia, sátira e fluxo de pensamento, a escritora convoca os leitores a olhar pelo buraco da fechadura e refletir sobre as convenções que moldaram o modo como vivemos e pensamos.
Trilogia obscena reúne os livros O caderno rosa de Lori Lamby (1990), Contos d’escárnio — textos grotescos (1990) e Cartas de um sedutor (1991). Para a escritora e pesquisadora Bruna Kalil Othero, autora do posfácio a esta edição, o volume pode ser lido como atos de uma peça de teatro. Trata-se de uma performance estética, planejada justamente para perturbar. Concebida essencialmente como uma reação de Hilda às vendas escassas de seus livros e à parca atenção recebida da crítica e dos editores, essa resposta ganha tons de denúncia, com humor escrachado e rebeldia sem ressalvas. Eis a escrita de uma autora extraordinária, cuja obra — jamais domesticada ou submissa — continua a surpreender e a fascinar legiões de leitores. Publicação da Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.

RAPIDINHAS
 
Do filme para o livro. O roteiro de O agente secreto, filme de Kleber Mendonça Filho, ganhou edição em livro com prefácio do diretor e imagens inéditas dos bastidores da produção. Publicação da Amarcord.

Mais da Pinard para 2026. A editora planeja recolocar em circulação entre os leitores brasileiros duas obras-primas da literatura cubana: Paradiso, de José Lezama Lima e  Três tristes tigres, de Guillermo Cabrera Infante.

DICAS DE LEITURA

1. Lamiel, de Stendhal (Trad. Jorge Coli, Editora da Unesp, 240p.) Com o retrato da jovem camponesa que dá título a este romance, o escritor francês compõe um registro da sociedade francesa do século XIX e levanta sua crítica à exploração da mulher e outras questões inerentes à burguesia. Você pode comprar o livro aqui. 

2. Os peixes também sabem cantar, de Hálldor Laxness (Trad. Luciano Dutra, Zain, 340p.) A história de um menino órfão criado pelos avós adotivos em um casebre dos arredores da futura capital da Islândia é uma oportunidade de passar em revista a identidade, sua construção, e a formação de uma nação. Você pode comprar o livro aqui. 

3. Antologia do poema em prosa no Brasil, Fernando Paixão (Org.) (Ateliê Editorial; Editora da Unicamp, 376p.) A incursão de vários poetas da literatura brasileira que, tomados ou não pela criação de Charles Baudelaire que em meados do século XIX revolucionou a forma de se fazer poesia. Você pode comprar o livro aqui. 

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

A imprensa espanhola divulgou novas imagens de Federico García Lorca. Os registros datam de 1932 e foram encontrados pelo diretor de cinema Manuel Menchón em pesquisa para o documentário La voz quebrada. As imagens foram realizadas durante uma das viagens de Lorca com a sua companhia de teatro La Barraca. O filme sobre os últimos anos e o assassinato do poeta sai em 2026. Veja aqui. Até agora, as imagens do granadino em movimento já conhecidas eram essas

No dia 27 de novembro passou-se o aniversário de 90 anos de Raduan Nassar. Em nossa página no Instagram recordamos nesse dia outra data redonda e importante para a obra do escritor: os 50 anos da sua estreia na literatura com o até agora único romance, Lavoura Arcaica

BAÚ DE LETRAS

Ainda Raduan Nassar 1. Recordamos do nosso arquivo algumas das publicações dedicadas ao escritor e sua obra. Começamos por este breve perfil acrescentado aqui na seção Os escritores em 2008. E, nesse mesmo tom biobibliográfico, este ensaio de Maria José Cardoso Lemos que lê a obra do escritor brasileiro entre os signos da tradição e da pós-modernidade.

Ainda Raduan Nassar 2. Dos livros, entre resenhas e comentários, recordamos que, em 2020, a nossa então colunista Flaviana Silva comentou sobre Lavoura arcaica, a obra que projetou o nome do escritor entre as novas frentes da literatura brasileira. Quatro anos antes, dedicamos uma matéria à volta da sua então recém-publicada Obra completa.

Ainda Raduan Nassar 3. Também acompanhamos a passagem da obra de Nassar pela sétima arte. É de 2008 esta resenha/ comentário da adaptação de Um copo de cólera por Aluízio Abranches; mais tarde, reproduzimos este material da revista BRAVO! Sobre Lavoura arcaica, de Luiz Fernando Carvalho.

Quando os inéditos e póstumos de Roberto Bolaño que agora chegam aos leitores brasileiros saíram em língua espanhola, traduzimos este texto de Patricio Pron acerca de Sepulcros de caubóis.

DUAS PALAVRINHAS

Obsceno é toda mitificação. Obsceno é dar um tamanho às chamadas grandes individualidades que reduz o homem comum a inseto. Obsceno é não fazer uma reflexão pra valar sobre o conceito de mérito, dividindo tão mal o respeito humano. Obsceno é prostar-se de joelhos diante de mitos que são usados até mesmo como instrumento de dominação. Obsceno é abrir mão do exercício crítico e mentir tanto. 

— Raduan Nassar, entrevista para os Cadernos de Literatura Brasileira.

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* Todas as informações sobre lançamentos de livros aqui divulgadas são as oferecidas pelas editoras na abertura das pré-vendas e o conteúdo, portanto, de responsabilidade das referidas casas.


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Com licença poética, a poeta (e a poesia de) Adélia Prado