Seis poemas de Um Rapaz de Shropshire (1896), de A. E. Housman

Por Pedro Belo Clara 
(Seleção e versões)*

A. E. Housman. Foto: Hulton-Deutsch

 

II.

Das árvores mais adoráveis, a cerejeira, agora
Cheia está de flores p’los galhos afora,
Junto à trilha que põe a mata dividida,
Para o tempo Pascal de branco vestida.


Dos meus sessenta anos e dez mais,
Vinte tornarão não mais,
E se tirar vinte a setenta primaveras
Com cinquenta fico, deveras.

Como para ver coisas a florir
Cinquenta primaveras é tempo a fugir,
Às matas dirijo a passada,
A ver a cerejeira de neve carregada.


III. O Recruta

Deixa para trás a casa tua, rapaz,
E aos amigos a mão vais estender,
Vai, e vá a sorte contigo,
Enquanto a torre de Ludlow¹ se erguer.
 
Oh, regressa a casa num Domingo,
Quando as ruas de Ludlow quietas estão,
E os sinos de Ludlow chamam 
Para a lavoura, as azinhagas, os moinhos do pão;

Ou regressa numa Segunda-feira,
Quando o mercado de Ludlow é um rumor
E os carrilhões de Ludlow tocam
“O retorno do herói conquistador”;  

Regresses a casa um herói,
Ou nem sequer tornes a voltar,
Os rapazes que deixas pensarão em ti
Até a torre de Ludlow tombar.

E o clarim escutarás,
Pelas terras da manhã ouvido,
E farás os inimigos de Inglaterra
Lamentar ter nascido.

E até soar a trombeta do juízo final
Nas terras da manhã repousarás,
E o coração dos teus camaradas
Pesado deixarás.

 Deixa para trás a tua casa,
Deixa na vila, nos campos, os amigos ficar;
Oh, a vila e os campos pensarão em ti
Até a torre de Ludlow tombar.


VIII.

‘Adeus ao celeiro, às medas, à árvore,
Adeus à margem do Severn.
Terrence, olha-me uma última vez,
A casa não tornarei mais.

‘O sol queima a colina ceifada a metade,
Agora já o sangue secou;
Maurice no meio da palha jaz,
E em seu flanco a minha navalha.

‘A mãe pensa que longe estamos;
É tempo de ceifar o campo.
Ao nascer do dia dois filhos tinha,

Esta noite estará só.
‘Aqui tens uma mão sangrenta para apertar,
E, homem, aqui tens a despedida;
Não suaremos mais com foices e ancinhos,

Minhas mãos sangrentas e eu.
‘Desejo-te a força que orgulho traz,
E um amor que te mantenha limpo,
E desejo-te sorte, ao chegar o Lammastide,²
Nas corridas sobre a grama.

‘Muito por mim esperarão as medas,
Muito terão os currais de esperar;
Por muito tempo ficará o prato vazio,
E frio ficará o jantar.’


XIX. A Um Atleta Que Morreu Jovem

Quando nas corridas deste a vitória à tua vila,
Erguemos-te aos ombros pelo mercado;
Homens e meninos celebravam-te,
E em ombros a casa te levámos.

Na estrada que todos os corredores percorrem,
Hoje aos ombros a casa te trazemos,
E à soleira te deixamos, agora que és
Cidadão duma vila mais serena.

Rapaz avisado, rápido a escapar
De campos onde a glória não permanece,
E embora cedo o louro cresça
Mais rápido que a rosa esmaece. 

Olhos que a noite sombrosa cerrou
Não vêem o record ser quebrado,
E o silêncio não soa pior que aplausos
Depois da terra os ouvidos ter fechado: 

Não irás aumentar a fila
Dos rapazes que as suas honras gastaram,
Corredores cuja fama os ultrapassou,
Em que o nome morreu antes do homem.  
Então poisa, antes que se esvaiam os ecos,
O pé ligeiro na soleira da sombra,
E ergue diante do lintel
A taça que ainda te pertence.

E ao redor dessa cabeça de louros cedo coroada
Hão-de reunir-se os mortos enfraquecidos,
E descobrir nesses caracóis, viçosa,
A grinalda mais breve que a duma rapariga. 


XXIII.

Os rapazes às centenas vêm para a feira de Ludlow,
Há gente dos celeiros e da forja, dos moinhos e dos currais;
Há os que vêm pelas raparigas, os que vêm pela bebida,
E junto a eles os rapazes que nunca serão velhos.

Estão lá os da vila e do campo, da lavoura e da carroça,
Os robustos são sem conta, e assim os corajosos,
Também os belos de rosto e os belos de coração,
E poucos os que levarão sua aparência, sua verdade para a cova.

Gostaria de poder conhecê-los, gostaria que houvesse sinais dizendo
Dos afortunados que agora não se consegue distinguir;
E poderia falar com eles em amizade, e dizer-lhes adeus,
E vê-los partir na estrada por onde não voltarão. 

Poderás observar o quanto quiseres, agora nada há para ver;
E roçando no teu cotovelo sem que o adivinhes, sem que se conte,
Levam de volta ao cunhador, cintilante, a moedagem dos homens,
Os rapazes que morrerão na sua glória e nunca serão velhos.


XXVI. 

Enquanto caminhávamos pelo campo,
Meu amor e eu, faz agora um ano,
O choupo, sobre degraus e pedras,
Sozinho consigo falava.
‘Oh, quem são estes que trocam beijos e partem?
Um amante do campo e a sua amada;
Dois apaixonados esperando o dia do casamento;
E o tempo levará ambos para o leito,
Mas ela repoisará com terra sobre si,
E ele ao lado dum outro amor.’

E é bem certo que, debaixo da árvore,
Uma outra paixão comigo caminha,
E no alto o choupo faz suspirar
Suas folhas de prata com rumor de chuva;
E eu nada adivinho no seu sussurro,
Talvez que agora a ela se dirija,
De modo claro para que compreenda
Falam dum tempo não longe
Em que dormitarei vestido de trevos,
E ela ao lado dum outro amor. 

______

Alfred Edward Housman nasceu em 1859 na região de Worcestershire, em Inglaterra. Criado no seio duma família numerosa, foi o primeiro de sete filhos. Dois dos seus irmãos seguir-lhe-iam as pisadas no caminho da criação literária.

Desde cedo foi um aluno de eleição, e com notável inclinação para a poesia, tendo vários trabalhos premiados. Frequentou Oxford graças a uma bolsa, iniciando-se em estudos clássicos. O fim desse percurso, porém, não seria tão brilhante quanto muitos esperariam. 

Terminada a experiência académica parte para Londres, onde um colega, com quem manteve um relacionamento muito próximo, encontrou trabalho para ambos num Gabinete de Patentes. Chegaram a partilhar casa, mas a separação tornou-se inevitável quando Housman confessou-lhe os seus sentimentos mais íntimos. 

O jovem Alfred continuou a investir nos estudos clássicos de modo, digamos, independente, escrevendo e publicando diversos artigos académicos sobre poetas gregos e latinos da antiguidade. Apostou até na edição duma colectânea de Propércio,³ mas a rejeição bateu-lhe várias vezes à porta e a ideia acabou renegada. Porém, a sua reputação crescia de tal modo que, em 1892, foi-lhe oferecido o cargo de professor de Latim no University College of London. 

Ao chegar o ano de 1896, o seu primeiro livro de poesia própria é enfim publicado, este mesmo que hoje levamos a discussão: A Shropshire Lad. Não foi um sucesso imediato, mas o carácter musical dos poemas, escritos num estilo algo pastoral, incitou diversos músicos da época a compor sobre os textos, o que lhe valeu notoriedade. 

Em 1911, Housman, já um “crítico textual de proa”, como alguns lhe chamavam, aceita a colocação no conceituado Trinity College, em Cambridge, onde permanecerá até ao fim da sua vida. Bastante mais tarde, em 1922, o poeta edita o seu segundo e último livro de poesia, denominado Last Poems

Bastante reservado em termos de natureza íntima, do mesmo modo o era em relação à sua poesia. Dir-se-á até que a colocava em segundo plano relativamente ao seu trabalho de professor. Algumas figuras próximas esclareceram que Housman só escrevia quando se sentia doente ou depressivo. O próprio, na verdade, apenas abordou publicamente o seu trabalho em idade bastante avançada, numa palestra dada em 1933, onde firmou a máxima: a poesia deve apelar às emoções e não ao intelecto. 

Há, no entanto, outro volume digno de registo na sua bibliografia, editado por iniciativa do irmão e a título póstumo: More Poems — precisamente no ano em que o poeta faleceu, aos setenta e sete anos de idade, no término do mês de abril de 1936. 

O cerne da poesia de Housman está inexoravelmente ligado à efemeridade da vida humana, a inevitabilidade da morte, a vivência do lado mais triste do amor e a graça maior da juventude. Sublinhe-se este último aspecto, celebrado incontáveis vezes e elevado a um patamar lendário pelo efeito da morte, quando ceifa uma vida no auge da sua beleza e glória, antes do declínio e da degradação tomarem de assalto um corpo.  

Estamos diante duma poesia de raízes populares e clássicas, embora mais tarde evolua, em certos momentos, para um quase confessionismo, apresentando-se mais íntima. Resvalando em várias ocasiões para um bucolismo triste, numa visão mais ampla capta-se a ruralidade como palco das alegrias e tragédias humanas, igualmente o cenário onde o ideal se concretiza, quase como num espaço mítico. Isto considerando, em especial, os trabalhos iniciais, como este seu primeiro livro — curiosamente, escrito sem que o autor tivesse alguma vez visitado a região.  

Descortina-se também uma linha que nos guia a uma imensa solidão, prolongável por décadas de existência. Muito provavelmente nascida de amores não correspondidos, duma homossexualidade que à época urgia reprimir e ocultar, desagua num espaço de resignação, de serena derrota, uma espécie de estoicismo epicurista, embora de marca pessimista.

É um poeta clássico, sobretudo, de emoção contida e cultivo aprimorado de rima e ritmo, embora disfarce por vezes tal traço dentro da aparente simplicidade de processo e linguagem, aproximando o poema ao domínio da canção popular. Sendo lírico, é fatalista, com eflúvios de desilusão, mas disciplinado no seu ofício, discreto e preciso. 

Num primeiro momento, é fácil tratar a sua obra como a de um “poeta de guerra”, diversas são as referências a jovens que partem para conflitos e soldados morrendo jovens. Porém, quando o maior confronto bélico da sua existência se verificou já Housman era um homem de meia idade. 

O poeta, embora recorrendo a tais cenários e envolvências, não escrevia sobre o que testemunhava. Há até quem afirme que certos poemas, referindo-se à morte dum determinado jovem, são uma forma embelezada, e decerto artística, do autor exprimir o término abrupto duma qualquer paixão que nutrira. O facto de o jovem perecer na guerra era, assim, um pretexto para alguém que efectivamente morrera no círculo das afeições pessoais, fosse por não retorno ou por não aceitação dos próprios sentimentos. Ainda assim, diga-se que Housman assumiu-se crítico das velhas falácias patrióticas, como, e é somente um mero exemplo, o célebre mote britânico “For King and Country”.⁴

Sem que decerto o pretendesse, acabou tornando-se para toda uma geração um profetizador de eventos, afinal, próximos. Durante a Iª Grande Guerra, o livro Um Rapaz de Shropshire espalhou-se com assinável sucesso entre os jovens combatentes do conflito. Existem relatos de exemplares guardados nos bolsos das fardas de soldados ingleses enquanto combatiam nas trincheiras. Não sobra dúvida que em tais versos encontraram algum conforto ao ver a sua própria realidade ali exposta, as saudades que nutriam de casa, a perda amarga dos companheiros, uma rapariga que ficou entregue à sua saudade.


Notas:   

1 Cidade mercantil na região de Shropshire, na zona ocidental de Inglaterra. A sua parte mais antiga, uma zona murada, remonta ao século XI. A torre a que o poema faz referência será, muito provavelmente, a igreja de São Lourenço, em cujas imediações as próprias cinzas do poeta foram depositadas. Essa parte específica do edifício, a torre, destaca-se no horizonte da cidade, sendo visível a uma distância considerável. 

2 Festa popular de origem pagã, com influências cristãs, comum em regiões rurais do universo anglo-saxónico. Celebra o início das colheitas, no dia 1 de agosto.

3 Poeta romano, célebre pelo culto do estilo elegíaco. Viveu entre 43 a.C e 17 d.C.

4 “Pelo Rei e pela Pátria”.




* Versões a partir do original em A Shropshire Lad (Penguin Classics, 2017). Sempre que possível manteve-se a rima presente no poema original, com o maior respeito, que sempre se traduz no menor dano, pelas ideias e intenções decifráveis na forma primitiva.)

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Com licença poética, a poeta (e a poesia de) Adélia Prado