Êxodo – Deuses e reis, de Ridley Scott

Por Pedro Fernandes

Ridley Scott quis escrever seu nome entre os dos cineastas que entraram para o panteão pelos feitos de colocar na tela uma grande epopeia (uso o termo pensando no sentido de uma narrativa grandiosa que encerra feitos igualmente grandiosos). Tentou. E tentou bem. Mas, a depender de seu último filme, não conseguiria. Deste só restou do epíteto de grande o extenso tempo em que ficamos a assistir uma galeria de disparates. Agora, é evidente que, há pontos positivos responsáveis por colocar esse título num rol de películas merecedoras de nossa visão. E, claro, um cineasta que tem no currículo realizações como Blade Runner, Alien, Gladiador, Hannibal e Prometheus – para citar ao menos quatro títulos impressionantes da história do cinema – não pode deixar de suscitar no telespectador certa curiosidade em ver seja o que for que traga sua assinatura. Mais: todos os citados são títulos que o colocam entre os que filmaram grandes produções.

Do ponto de vista da narrativa, claro, sempre o primeiro ponto ou o ponto principal que não consigo ficar sem observar quando vejo qualquer filme, Exôdo é bem escrito. Traz a forma redondinha de narrar e tece até mesmo nos episódios mais fantásticos do Antigo Testamento, de onde busca bases para sua escrita, considerações justificáveis (para grande parte, não todas). Sobre as pragas do Egito, por exemplo, e à exceção da mortandade das crianças egípcias ou da travessia do mar Vermelho, Scott busca construir uma sequência de acontecimentos lógicos para desconstruir a ideia de milagre divino ou ao menos se questionar sobre ela. Sim, não há nada de religioso nesse filme, mesmo acreditando que poderia ser mais provocativo em relação a exegese.

Ao dizer isso, penso que a tentativa do cineasta, antes de querer entrar para a galeria dos realizadores de grandes produções épicas, feito já alcançado noutras ocasiões como enumerei, é a de buscar desconstruir as bases meramente religiosas com que as escrituras bíblicas são lidas. A narrativa de Exôdo não permitiu a entrada de seres fantásticos como os gigantes de pedra de Noé; nem se restringiu a economizar na ação como próprio Scott havia feito em Gladiador e conseguiu construir, ao menos um Moisés mais complexo se comparado novamente ao Noé de Darren Aronofsky. O cineasta quis ser mais próximo da história – embora haja muitas incongruências nessa relação, conforme é possível ler no box abaixo.

É com esse sentido ao menos que eu interpreto não apenas a lógica para as pragas do Egito, mas também a personagem substituta da voz divina com a qual Moisés trava diálogo na Bíblia; Scott traduz essa voz por uma criança, um tanto indefesa, com poderes sobrenaturais, mas sobretudo, construída da mesma arrogância e petulância com que é construída a personagem de Deus no texto bíblico. Sim, Scott consegue fazer com que tenhamos ódio por Deus e compreende a decadência do homem quando tomado a apenas servir aos seus despautérios. Do mesmo modo, quando esse mesmo homem é tomado a servir apenas ao poder desmedido – aqui estou me referido a Ramsés, o faraó movido pela ganância de sempre ter mais, acumular mais.

As duas personagens principais são representações muito claras, por que não metonímias, do homem contemporâneo: ou cego pelo dogmatismo da fé a ponto de acreditar que há a figura de um Deus a sempre colocar os ditos bons contra os ditos maus e travar entre eles uma luta mortal que já se arrasta desde que o homem construiu sua idolatria; ou cego pelo poder da posse e do capital. Isto é, Scott reconstrói essas imagens do texto bíblico garantindo a elas uma interseção com aquilo que ainda somos hoje ou sobre duas pragas que nos castra a consciência.

Nessa selva de cegos, o cineasta constrói, num determinado momento, o exílio ideal para o homem. Tal como um paraíso no inferno, simulado num oásis em meio ao deserto, a família que formará Moisés e Zípora, por exemplo, é a leitura para a Canaã prometida: uma sociedade fundada nos princípios revolucionários franceses, pode-se dizer. Liberdade. Igualdade. Fraternidade. Mas mista de um modelo socialista baseado no necessário e na partilha. 

Não é disparate compreender que a narrativa de Exôdo, por vezes, se mostra submetida a uma espécie de marxismo ao desenvolver nesse ínterim de bons e maus uma disputa de classes – o levante de um povo escravo contra a sede megalomaníaca de um rei e fuga em busca de um modelo de sociedade ideal. E, me parece que, está aí a grandiosidade da obra: fugir da ortodoxia ou do dogma prescritivo para ser uma interpretação sobre um texto e apontar determinadas situações da sociedade contemporânea.  

Sobre a luta de classes, noto como Scott engendra isso desde os detalhes menores e internos do plano social pela relação entre Moisés, um agregado criado como príncipe, e Ramsés, o herdeiro do trono. A força com que se nutre toda disputa é regida pelo poder e não mais desígnios pessoais. E a necessidade de, antes de pensar em esperar dos céus a ajuda, logo ser o homem motor da revolução necessária. A certa altura, Moisés lidera uma ofensiva com ajuda dos escravos para derrubada do rei; espalhar o caos para reconstruir outra ordem, ainda que essa ordem nunca seja a ideal.

Bem, aquilo que torna o filme cansativo é a morosidade com muitas cenas são desenvolvidas e a repetição de outras: creio que deva ser o maior desafio de qualquer cineasta aventureiro em trazer para a tela o texto bíblico mais intenso do Antigo Testamento não cair na repetição vazia. Penso, quando digo isso, na extensa leva de ‘castigos’ sobre os egípcios. Scott, entretanto, não conseguiu fugir dessa cilada, por exemplo.

No mais, reafirmo, é um título necessário à consulta sempre quando o assunto for a filmografia de Ridley Scott.

***

Para além das críticas vindas dos sectarismos da religião, o filme de Ridley Scott tem recebido censura em algumas partes do mundo: no Egito e no Marrocos, por exemplo, Exôdo foi proibido por conter ‘mentiras’. Bom, há erros históricos, se o interesse do cineasta era aproximar-se da história para desconstruir a mitologia bíblica. Quem aponta é Jacinto Antón num texto editado no El País.

1. Na época de Ramsés II havia mais de mil anos que os egípcios deixaram de construir grandes pirâmides. No filme se vê uma enorme em construção junto a outras duas.

2. As pirâmides não foram construídas por escravos estrangeiros, mas por trabalhadores egípcios livres. Um dos motivos que levaram à proibição do governo egípcio se dá pelo filme apresentar essa grande realização como produto de outro povo. Também não se tem notícia de que foram utilizados elefantes para carregar suprimentos na construção.

3. Não há documentação histórica que prove a existência de um povo semita escravizado no Egito, logo, sua fuga é apenas uma lenda bíblica que explicaria o nascimento de uma nação. Moisés não é uma personagem histórica.



4. Em todo caso, Ramsés não teria colocado seu exército para buscar os que estavam em fuga (o filme coloca em cena 4000 carros, inchando a conta da Bíblia que fala em 600), pois existia uma ampla cadeia de fortificações ao largo do Sinai até Canaã. Além disso, os carros hititas que aparecem logo na batalha inicial eram mais pesados que os dos egípcios e levavam três homens e não dois. O uso de carros por parte do faraó está bem representado embora os cavalos egípcios fossem pequenos.

5. Nunca se falou em evidência arqueológica do Êxodo. Uma migração massiva similar (600 mil homens capazes de portar armas, segundo a Bíblia, mas todas suas famílias, uma verdadeira multidão) havia deixado testemunhos em forma de acampamentos ou outras pistas.

6. Os Speos (templo cavado na rocha) de Abu Simbel, um dos monumentos mais famosos e visitados do Egito, não estava construído quando morreu Set I. E nunca serviu de sepultura. O filme mostra o enterro de Set I realizado aí. ,

7. A bonita coroa de ouro usada por Ramsés II na guerra como capacete não é era de uso obrigatório, e sim, algo semelhante ao que usa Moisés, embora o restante da indumentária pareça assíria.

8. A estética do Novo Império egípcio não era em geral como a que se vê no filme, inspirada certamente em pinturas românticas de Alma Tadema. No fim, também a cena de abertura das águas do mar Vermelho é mais artística que bíblica. A Bíblia especifica que no episódio não se salvou um egípcio. Ridley Scott deixa escapar Ramsés II e graças a isso fazê-lo chegar à grande idade registrada pela história (92 anos) e ter muitos filhos (vários deles enterrados na tumba coletiva KV5 do Vale dos Reis, incluindo, segundo opina Kent Weeks, o primogênito).

9. No filme, o primogênito do faraó é mumificado tão logo morre. A mumificação, entretanto, era um processo lento que requeria, no mínimo, até três meses.

10. Ainda que pese a tradição de representá-lo careca (desde Yul Brinner), Ramsés II era (é o que acredita a partir de estudos sobre sua múmia) ruivo. 


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