Boletim Letras 360º #451

DO EDITOR
 
1. Caro leitor, findou a espera. Alguém esperava? Tomara. Revelamos em nossas redes na sexta-feira os livros do primeiro sorteio para a campanha que desenvolvemos para manutenção do blog.
 
2. No dia 26 de novembro, às vésperas do aniversário de 15 anos online do Letras, conheceremos o ganhador do kit ofertado pela Editora Mundaréu. Você pode saber tudo sobre aqui. Se estiver numa das redes do blog pode consultar mais detalhes no Instagram, no Facebook ou no Twitter.
 
3. Você pode ajudar também passando adiante as informações dessa nova ideia. No mais, ficam os agradecimentos pela partilha nessa estrada. Boas leituras!

Alejandra Pizarnik


 
LANÇAMENTOS
 
Outros dois livros de Alejandra Pizarnik ganham tradução no Brasil. A Relicário Edições publica Extração da pedra da loucura e O inferno musical.
 
Na Idade Média, acreditava-se que a loucura era consequência do crescimento de saliências ou tumores que se projetavam da testa: dois chifres retorcidos, talvez, expressando o inferno interior da loucura. Foi um tema recorrente na literatura da época, bem como inspiração de artistas que procuravam compreender a loucura através daquela imagem inquietante. Não por acaso, pintores como El Bosco, Van Hemesen e Bruegel se inspiraram na estranha metáfora, tentando compreender através dela aquela escuridão meridiana que habita a mente humana. Alejandra Pizarnik igualmente sonhou com a pedra da loucura para construir a imagem de sua dor. Provavelmente por isso, A extração da pedra da loucura (1968) é sua obra emblemática. A palavra como uma visão do eu que se oculta, que se bate e se perpetua, e também se despedaça, abrindo-se em dois lados sem nome que nunca se encontram. Uma ideia quase destrutiva, mas ao mesmo tempo perfeitamente compreensível para uma autora que, durante a maior parte da vida, contornou os limites da angústia e se valeu dela para criar. Está edição traz prefácio de Nina Rizzi e posfácio do tradutor Davis Diniz. Em O inferno musical (último livro de Alejandra Pizarnik, publicado em 1971, um ano antes de sua morte), a poeta argentina escreveu: “Quem me dera viver somente em êxtase, fazendo o corpo do poema com meu corpo, resgatando cada frase com meus dias e com minhas semanas”. Esse fragmento tem um ar surrealista, entendido como uma continuidade entre o caminho criativo e a experiência de vida da poeta. Mas, acima de tudo, resume aquela já famosa intensidade com que Alejandra escreveu. Um processo em que a leitura de diferentes tradições, a escrita cuidadosa, a compreensão da poesia como ferramenta para perfurar paredes da linguagem e o reconhecimento de que tudo o que ela tentava captar no papel tinha que partir de si mesma, mas se transmutar em algo mais do que memória ou escavação psicanalítica; tornado em experiência poética, comunhão com os outros. O livro tem prefácio de Laura Erber e posfácio do tradutor Davis Diniz.
 
Nova edição de Robinson Crusoe.

Nova edição enfoca o caráter de clássico universal e alegoria do homem só numa ilha deserta. Além de textos canônicos de J. M. Coetzee, de Virginia Woolf, de James Joyce, de Karl Marx, de Jean-Jacques Rousseau, um ensaio da professora titular de literatura inglesa da FFLCH-USP Sandra Guardini Vasconcelos sobre o episódio da escravização no Brasil, que tem um papel relevante no livro. Os desenhos são do artista plástico argentino Nicolás Robbio. A tradução é do poeta Leonardo Fróes. O projeto gráfico, assinado por Elaine Ramos, faz com que as páginas do livro, a princípio cinzas, se tornem progressivamente mais brancas, acompanhando a passagem do tempo até o desfecho da trama. Robinson Crusoe é um inglês da cidade de York no século XVII. Contrariando o desejo da família de que ele estudasse Direito, o rapaz decide dedicar sua vida a navegar em busca de aventuras. Uma série de eventos o levam ao Brasil, onde ele passa a coordenar o esquema de plantation de uma fazenda. Interessado no lucro proveniente do comércio de escravos, ele embarca em uma expedição de coleta até o sul da África, mas o navio naufraga próximo a Trindade e Tobago. Crusoe se descobre o único sobrevivente do acidente, em uma ilha deserta, que ele apelida de Ilha do Desespero. O náufrago se adapta à sua situação, construindo uma casa no topo de uma árvore, caçando animais, criando um rebanho de cabras e plantando arroz e trigo. Determinado a deixar a ilha, ele também se empenha na construção de canoas, sem sucesso. Certo dia, ele encontra uma tribo de canibais e ajuda um de seus prisioneiros a escapar, um indígena que Crusoe apelida de Sexta-Feira e passa a escravizar. Alguns anos mais tarde, piratas desembarcam na ilha, o que dá início a um grande conflito. A ficção foi tomada como primeira imagem da noção de individualismo moderno. A tradução agora publicada pela editora Ubu é de Leonardo Fróes.
 
Um itinerário pelas elegias gregas.
 
Das elegias da Grécia Arcaica (sécs. VIII – V a.C.) ouvimos, entre outras, as vozes de Sólon, criticando os excessos das oligarquias e pavimentando a trilha à democracia; de Tirteu, Calino e Simônides, enaltecendo homens comuns ao status de guerreiros épicos; de Arquíloco, dizendo que melhor do que ser épico é estar vivo; de Mimnermo, celebrando o mundo de Afrodite e seus prazeres; de Teógnis, mostrando as alianças, traições e afetos que agitam um mundo em transformação. Como gênero poético destacadamente versátil, a elegia nos permite conhecer os mais variados aspectos da existência do indivíduo na pólis. Elegia Grega Arcaica: Uma Antologia apresenta o que para nós é o alvorecer desta tradição poética, cuja recepção até hoje se estende, e os seus principais poetas, no original e em rigorosas traduções de Rafael Brunhara e Giuliana Ragusa. Acompanham-nas textos introdutórios, bem como alentados comentários sobre as nuances poéticas do original e o contexto histórico, linguístico e cultural subjacente a cada poema — esforço raro em antologias deste tipo —, num convite tanto ao leitor contemporâneo de poesia, quanto ao estudante que se inicia nos estudos clássicos. Organizado por Giuliana Ragusa e Rafael Brunhara, o livro é publicado pelas editoras Ateliê e Mnêma.
 
Uma obra que nos convida a questionar os muitos apagamentos de nossa memória republicana.
 
Em 17 de novembro de 1889, ocorreu no Maranhão, na cidade de São Luís, um grande protesto popular, majoritariamente de negros, contra o golpe militar que dois dias antes estabelecera a República no Brasil. Os manifestantes acreditavam que o objetivo era destituí-los dos direitos conquistados com a Abolição, cerca de um ano e meio antes, e reescravizar a gente de cor. Quando tentaram invadir e depredar um jornal republicano, uma tropa destacada para proteger o edifício realizou uma descarga de fuzil e, de acordo com números oficiais, matou quatro pessoas e deixou inúmeros feridos. O episódio é conhecido como o Massacre de 17 de Novembro e, junto com outros incidentes envolvendo violência e racismo — como a destruição do pelourinho de São Luís e as prisões e torturas que seguiram o protesto —, é descrito em A nova aurora, novela histórica publicada em 1913. Uma das imagens mais recorrentes acerca da instauração do regime republicano é a do povo bestializado, apático, sem tomar posição diante do golpe de Estado que encerrara o longo reinado de d. Pedro II. Que alternativas e limites políticos e culturais uma sociedade egressa da escravidão poderia oferecer para realizar as promessas de uma cidadania sem distinção de cor, linhagem e origem social? Astolfo Marques, um escritor negro que pensou o país a partir do velho norte agrário, lidou com esses impasses fazendo da escrita um espaço criativo em que alia pesquisa documental, relatos orais, ficção e lembranças pessoais, construindo, em A nova aurora, uma narrativa aberta a múltiplas vozes, que nos convida a questionar os muitos apagamentos de nossa memória republicana. O livro é publicado pela Chão Editora.
 
O novo livro de Ieda Magri.
 
Uma mulher de 40 anos revisita a família e participa do processo de preparação dos alimentos para uma grande festa. Entre as imagens da infância camponesa e do presente, ela se coloca simbolicamente no lugar do animal sacrificado e faz o exercício, com Elizabeth Costello, personagem de Coetzee, de ver o coração como “lugar de uma faculdade, a simpatia, que, às vezes, nos permite partilhar o ser do outro”. Uma exposição é tanto uma curadoria do material recolhido nessa viagem quanto o dar-se a ver numa situação familiar e incômoda. Uma exposição, de Ieda Magri é publicado pela Relicário.
 
Nesta obra revolucionária, um dos mais importantes críticos literários e culturais discute a principal figura da literatura inglesa — William Shakespeare — e propõe uma leitura dramaticamente nova de quase todas as suas peças e poemas.
 
A chave para Teatro da inveja é a interpretação original que René Girard faz da ideia de “mimese”. Para Girard, as pessoas desejam os objetos não por seu valor intrínseco, mas porque eles são desejados por outras pessoas — nós imitamos os desejos delas. Ele considera essa inveja — ou “desejo mimético” — um dos pilares da condição humana. Utilizando essas intuições provocantes e iconoclastas para analisar a obra de Shakespeare, Girard revela a coerência anteriormente despercebida das peças-problema como Tróilo e Cressida e oferece bons argumentos para elevar Sonho de uma noite de verão da condição de comédia caótica para obra-prima. O livro está repleto de interpretações originais e provocantes: Shakespeare aparece como “profeta da propaganda moderna”, e a ameaça de uma catástrofe nuclear é interpretada à luz de Hamlet. O mais intrigante de tudo, talvez, é um aparte breve, mas brilhante, em que se apresenta uma perspectiva inteiramente nova para o capítulo do Ulisses de Joyce, em que Stephen Dedalus faz uma palestra sobre Shakespeare. Na perspectiva de Girard, somente Joyce, talvez o maior dos romancistas do século XX, chega perto de entender o maior dos dramaturgos do Renascimento. Nesta leitura de notável fôlego de Shakespeare, a prosa de Girard é sofisticada e contemporânea, além de acessível ao leitor comum. Qualquer pessoa interessada em literatura, antropologia ou psicanálise há de querer ler esta obra desafiadora. E qualquer pessoa envolvida na produção teatral encontrará muitas ideias sugestivas em Teatro da inveja. A tradução de Pedro Sette-Câmara é publicada pela É Realizações.
 
O terceiro ano de “A Colecção” apresenta aos leitores brasileiros a poesia de cinco poetas da novíssima literatura portuguesa.
 
Criada pelas Edições Macondo em 2019, “A Colecção” já trouxe a este lado do Atlântico trabalhos de Manuel de Freitas, Tatiana Faia, Miguel Cardoso, Tiago Alves Costa, Miguel Martins, Patrícia Lino, F. S. Hill, entre outros. Para a temporada de 2021, cinco poetas de gerações muito próximas, e que se colocam em diálogo principalmente por estarem vivos e produzindo no mesmo tempo histórico, além de terem pouca ou ainda nenhuma circulação no mercado editorial brasileiro. Com curadoria de Otávio Campos e Patrícia Lino e apoio da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas da República Portuguesa, os livros agora apresentados são A axila de Egon Schiele, de André Tecedeiro, Groto Sato, de Raquel Nobre Guerra, Ágil mesmo nu, de Miguel-Manso, Antes de mais e depois de tudo, de Regina Guimarães e Política, de Ricardo Tiago Marques.
 
Uma visita ao maior poeta italiano depois de Dante.
 
Se a Europa de seu tempo não lhe deu a devida atenção, as décadas seguintes se encarregaram de corrigir esse equívoco. Hoje o italiano Giacomo Leopardi (1798-1837) é amplamente reconhecido como um dos maiores poetas do Ocidente, e seus Cantos, segundo Otto Maria Carpeaux, são “a resposta moderna à Divina Comédia”. Nos 41 poemas desta obra incomparável, que podem ser lidos como um único canto escrito e reescrito pelo poeta entre 1816 e 1836, os aspectos mais significativos da experiência humana estão magistralmente integrados — da felicidade agônica provocada pelo amor ao sentimento áspero da natureza madrasta e da nulidade dos nossos esforços. Por mais árduo, porém, que seja o sofrimento, a poesia de Leopardi opera o milagre de transfundir o que é dor individual em comovente dor e ardor universais. Com poemas tecnicamente impecáveis, dotados de uma densidade de sentimento e pensamento quase única na literatura dos últimos duzentos anos, poucos livros de poesia são tão diversos e simultaneamente tão coesos quanto estes Cantos de Leopardi, que vão do gesto heroico ao silêncio mais íntimo, sempre intensos, sempre límpidos. Neles até mesmo a beleza das paisagens da Itália se revela uma moldura da condição humana. Precedida por uma luminosa introdução à vida e à obra do poeta, a tradução de Álvaro A. Antunes, publicada pela primeira vez em 1985 e revista especialmente para esta edição bilíngue, reproduz fielmente os metros e os esquemas estróficos do original enquanto acompanha de perto os movimentos da singular sintaxe leopardiana. O livro é publicado pela editora 34.
 
Forte romance da escritora iraniana Chahdortt Djavann ganha tradução no Brasil.
 
Em A muda, forte romance de Chahdortt Djavann, o abandono está presente assim como as dificuldades de se adaptar à sociedade. A narradora tem um péssimo relacionamento com a mãe e o pai é impotente diante da vida, ausente mesmo quando presente fisicamente, no entanto, Fatemeh, declara seu amor por ele e o considera um bom pai. A relação afetiva mais importante da narradora é com sua tia muda, que cuidou dela para que sua mãe pudesse trabalhar fora, e que a ajudava em seus estudos, penteava seus cabelos, participava de brincadeiras e estava sempre em casa. Tudo muda quando Fatemeh é obrigada a se casar aos treze anos com um homem de cinquenta, para salvar sua tia muda do apedrejamento. Aos quinze é condenada à morte pela forca após cometer um crime. A tradução de Liliane Mendonça é publicada pela editora Arte & Letra. Chahdortt Djavann nasceu no Irã em 1967, emigrou para a França em 1993, para fugir do fundamentalismo islâmico de seu país, partindo para o exílio que dura até os dias atuais.
 
Jean-Pierre Sarrazac entre a utopia e o desencanto.
 
Crítica do teatro I: da utopia ao desencanto é uma reunião de ensaios que se inscrevem nos debates artísticos da virada do século XX para o XXI, período marcado pelo ressurgimento da ideia de “teatro público” em meio a um contexto, sobretudo na França, de amplas greves de trabalhadores e intensa movimentação social. Ao reconsiderar tal noção e conferir-lhe perspectiva histórica, Jean-Pierre Sarrazac persegue um objetivo maior: o de refletir sobre os caminhos de um teatro crítico e ativo em um momento no qual antigas utopias tendem a ser vistas com ceticismo. Durante o percurso desta reflexão, o autor busca entender as diferentes formas de pensar e expressar “teatralidade” — que, nas palavras de Roland Barthes, significa “o teatro menos o texto”. Ao buscar a função organizadora da teatralidade, sua capacidade de gerar prazer e imaginação utópica, e de proporcionar comunidade crítica e ativa, Sarrazac oferece-nos um panorama do teatro em sua dimensão mais política e coletiva. O “teatro público” remete aos tempos do Teatro Nacional Popular (TNP), movimento subvencionado pelo Estado francês no pós-guerra que visava uma intensa democratização do teatro por meio de apresentações para grandes audiências. Nesse período, o teatro foi encarado como um serviço público que, por essa razão, deveria ser acessível e estar amplamente presente, dos grandes centros às periferias, formando uma rede descentralizada e diversificada de cultura e arte popular. Ao tratar dessa iniciativa de difusão do teatro, o autor amplia a discussão e considera, de um lado, um circuito paralelo que se desenvolvia em torno de pequenos espaços e com novos autores —entre eles Beckett, Ionesco e Adamov —, e, de outro, a trajetória de Barthes e Bernard Dort, figuras que se empenharam em resgatar o potencial crítico do teatro brechtiano, colocando-se, porém, à altura dos desafios de um novo momento histórico. Ao fim do projeto do teatro popular na França, nos anos 1970, a noção de um diálogo mais amplo com a coletividade fica ameaçada e acaba, aos poucos, para trás, enquanto se observa um interesse cada vez maior por questões da linguagem que, no cenário teatral, viriam a ser enaltecidas nas décadas subsequentes. Assim, no manejo entre utopia e desencanto, entre os ideais e os percalços ligados ao teatro público francês, resgatando-o na atualidade em meio a agitações sociais do presente, o livro ganha contornos históricos, sociológicos, estéticos e culturais. Recuperando certo senso do político no teatro, Sarrazac traça uma aposta poética que visa não o passado, mas olhar o futuro de outra maneira, a partir dos múltiplos instrumentos e reflexões que apresenta ao leitor. Ao abordar temas como teatro crítico, espectador ideal, espectador-cliente e público ativo, entre outras categorias, Sarrazac rejeita a “crítica de teatro” — entendida como uma crítica estritamente jornalística — e propõe uma “crítica do teatro”. Isto é, um debate mais profundo a respeito da própria ideia do teatro, cujo propósito maior não é o de julgar, mas o de avaliar, examinar, ponderar e manter “o estado de crise”, segundo o autor. Para Sarrazac, tal estado se mantém no exame, na observação e na análise de seu objeto, que, aqui, trata-se do teatro propriamente dito. Seu objetivo, contudo, é menos o de fazer ele próprio a crítica do teatro do que buscar seguir os passos daqueles que fizeram dessa crítica o núcleo de sua arte, evocando a “lição” de outros mestres. Segundo a expressão de Sérgio de Carvalho em prefácio à edição, este livro, inédito no Brasil, chega para propor uma postura ativa diante do desencantamento do mundo. O livro é publicado pela editora Temporal.
 
Livro de Penny Hancock discute um dos temas mais espinhosos nos dias de hoje.
 
Jules e Holly são melhores amigas desde os tempos de faculdade. Elas compartilham tudo, desde detalhes do cotidiano até segredos e confissões. Saul, filho de Holly, e Saffie, filha de Jules, cresceram juntos, com apenas três anos de diferença. Quando Saffie faz uma denúncia grave contra Saul, nenhuma das duas amigas está preparada para o impacto devastador que o fato terá na amizade e na vida das suas famílias. Em quem você confiaria? Na sua melhor amiga e confidente por décadas? Ou no seu próprio filho? Em quem você deve acreditar quando um acusa o outro de um crime hediondo? Eu não sei quem você é parte de uma acusação que coloca em lados opostos os filhos de duas amigas inseparáveis. Para além de descobrir se a verdade está com a vítima ou com o acusado, o que faz o livro ganhar relevo é a maneira como a autora aborda os efeitos que a denúncia provoca na dinâmica entre as personagens e suas famílias. E é na construção de uma delicada rede de desconfianças e tensões que Penny Hancock entrega um romance surpreendente, mergulhando com tudo em um dos temas mais relevantes e espinhosos dos dias de hoje, sem jamais desistir de contar uma boa história. Eu não sei quem você é tem tradução de Davi Boaventura e é publicado pela editora Dublinense.
 
REEDIÇÕES
 
Nova edição de um dos principais títulos da breve obra de Max Blecher.
 
Acontecimentos na irrealidade imediata foi originalmente publicado em 1936, e é composto por um amálgama caleidoscópico de situações que cruzam o caminho do narrador, um personagem desajustado ao mundo. Esses acontecimentos arrastam-no a um turbilhão de pensamentos e ações atravessados por forças contrapostas, no qual as percepções misturadas da realidade, do tempo e do espaço dão lugar a um tipo diferente de discurso, que oferece inquietações fragmentadas ao invés de uma ordem racional. A tradução de Fernando Klabin é agora reeditada pela editora Hedra.
 
Nova edição da tradução de Joaquim Brasil Fontes para os fragmentos da poesia de Safo.
 
Instável por definição, o domínio de Eros está fadado à incerteza: sobre cada noite de amor sempre pode pesar a ameaça de ser a última. Daí que a fantasia da permanência ocupe a imaginação dos amantes desde há muito tempo. Ou, ao menos, desde a idade de ouro do lirismo grego, por volta de 600 a.C., quando Safo de Lesbos registrou em versos suas delicadas súplicas para a paixão subsistir ao tempo: “possa para mim esta noite / durar duas noites”. Versos assim, que compõem os fragmentos de Safo hoje conhecidos, deram origem à poesia amorosa do Ocidente. E, com efeito, não será essa outra noite desejada, que vem se acrescentar à noite vivida, a substância secreta de todo poema de amor? Não se poderá reconhecer aí a dimensão imaginária que, fundando a lírica de Eros, se oferece como um prolongamento do encontro amoroso? Safo era atenta à brevidade dos afetos. As jovens mulheres da ilha de Lesbos que frequentavam seu círculo literário para serem iniciadas nas artes da dança, da poesia, da música e também do amor —, ali estavam apenas de passagem. Formadas por ela, essas jovens a deixariam um dia para se casar, abandonando-a ao trabalho silencioso das palavras: “em relação a vós, lindas, / meus pensamentos nunca mudarão”. Não surpreende que seus poemas evoquem com frequência a solidão da amante (“a Lua já se pôs, as Plêiades também; é meia- / noite; a hora passa e eu, / deitada estou, sozinha”), e lamentem a distância intransponível que a separa do objeto amado (“não posso tocar o céu / com as mãos”). Ou, ainda, que revelem a implacável lógica do encontro impossível: “igual à doce maçã que amadurece lá no alto, no mais alto ramo pelos colhedores esquecida — esquecida, não: que eles não conseguiram alcançar” Essa voz solitária e íntima que a tradução sensível de Joaquim Brasil Fontes agora faz chegar até nós instaura um apelo que, desde então, não cessa de ecoar na poesia amorosa ocidental. É o apelo de um Eros sensual e meditativo, “tecelão de mitos”, entregue de corpo e alma à criação de uma outra noite para contemplar o desejo dos amantes. (Eliane Robert Moraes). Poemas e fragmentos é reeditado pela editora Iluminuras.
 
Nova edição de Linha Férrea, de Tércia Montenegro.
 
Linhas férreas cortam paisagens, emprestam-lhes movimento e pouso, determinam os campos de trânsito e comércio, sublinham os espaços de multidão e exílio. Se a imagem que organiza esta coletânea de contos curtos suscita rigor plúmbeo, é apenas para conferir mais acento ao colorido de transbordamentos e latências que dominam cada uma das situações colocadas um vizinho malcriado, o instantâneo de um homem que descansa em frente ao mar, um casal e suas distâncias numa mesa de restaurante, uma menina e os significados da casa da avó. Histórias em que o tempo da ação se vê dominado pela força gravitacional da memória e suas projeções; o foco narrativo dominado pela perplexidade ante o mistério da manifestação exterior de medos e desejos; o silêncio que contorna experiências de cárcere, fraternidade e impermanência os quadros expostos dão notícia de um universo em que pouco interessam identidades regionais ou predominâncias do urbano ou rural: teatros, praças, praias, restaurantes, prisões, asilos, casas de fazenda e apartamentos são os palcos assinalados pelas variadas paixões e sentimentos de seus atores. Linha Férrea, de Tércia Montenegro, foi publicado originalmente em 2001 como vencedor da categoria conto do Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, promovido no ano anterior pela revista CULT. O livro é reeditado no âmbito da coleção Guarda da Editora Grua.
 
A Edusp reimprime texto essencial de Aimé Césaire.
 
Para Lilian Pestre de Almeida, Aimé Césaire constrói, em Diário de um retorno ao país natal, uma espécie de épico invertido: enquanto Os Lusíadas cantam a aventura dos colonizadores buscando impor às “terras viciosas” a marca da Cruz e do Ocidente, o poema de Césaire, aqui apresentado em edição bilíngue, é o canto dos colonizados e desenraizados sonhando em restabelecer o cordão umbilical com a Mãe África. O que o poeta da Martinica pretende é somar toda a experiência coletiva dos negros colonizados, sem abandonar nada do que constitui a história dos seus. O diário se constrói como poema a partir de outras obras (das epopeias marítimas à poesia da Modernidade, de textos iniciáticos à História, da oralidade tradicional à linguagem científica), e conta também com a análise e excelente trabalho tradutório de Lilian Pestre de Almeida, que procura ser fiel em manter os termos regionais ou técnicos de Césaire, para que suas palavras não percam a força e a densidade.
 
Nova edição de Riacho doce, de José Lins do Rego.
 
À época da publicação deste livro em 1939, José Lins do Rego já era conhecido como ficcionista brasileiro que concedera grande realce aos traços regionais de nossa cultura, assim como Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos. Em Riacho Doce, o escritor acabaria, de peito aberto, consolidando novos contornos à sua magnífica trajetória literária. O livro inicia-se com as passagens da infância e da adolescência de Edna, na Suécia. Num segundo momento, o qual ocupa a maior parte do romance, Edna muda-se para o Brasil para acompanhar o marido Carlos, que fora transferido para o litoral de Alagoas a fim de trabalhar na exploração de petróleo. No ambiente paradisíaco de Riacho Doce, Edna aproveita os banhos de mar e o encantador cenário repleto de belezas naturais da região. Sua estada no litoral nordestino e sua vida seriam radicalmente transformadas após conhecer Nô, pescador do lugarejo com quem acaba se envolvendo amorosamente de maneira natural e intensa. É importante registrar que este enredo de José Lins de Rego, marcado por uma atmosfera de romance que tem como pano de fundo belíssimas paisagens tropicais, chegou a inspirar em 1990 uma célebre minissérie na Rede Globo. Tendo no elenco nomes de peso como Vera Fischer e Carlos Alberto Riccelli, Riacho Doce gravaria seu lugar na memória audiovisual de milhões de brasileiros. A edição da Global, que tem capa ilustrada por Mauricio Negro, conta um texto de apresentação de Ivan Marques, professor de literatura brasileira da Universidade de São Paulo (USP). Ao fim, a edição traz um texto de Mário de Andrade sobre o livro de José Lins, publicado no ano do lançamento de sua primeira edição.
 
Vencedor do Prêmio Jabuti nas categorias Melhor Romance e Livro do Ano em 2005, Vozes do deserto, de Nélida Piñon, ganha nova edição.
 
Em Vozes do deserto, Nélida Piñon não só recria a história das Mil e uma noites como também realça o desempenho de uma mulher transgressora em uma sociedade patriarcal. Através de uma narrativa envolvente e irretocável, Nélida acompanha a história de Scherezade, a jovem mais brilhante da corte, que, para salvar as jovens do reino das garras do poderoso Califa, decide casar-se com ele. Filha do Vizir, que devia servidão ao poderoso monarca, ela não acredita que o poder do Califa possa determinar o fim de sua imaginação. Segundo Alfredo Bosi, que assina a orelha do livro: “Nélida vê por dentro, com empatia a um só tempo forte e delicada, a mulher de quem a fabulosa criação oriental nos dera apenas o vulto escondido entre as dobras do véu muçulmano. Agora sabemos quem é Scherezade, pois Nélida nos revelou a sua natureza profunda: é a força mágica da voz narrativa que enfrenta, a cada lance, a opressão e a morte. O sexo sem amor, obscenamente mecânico, imposto à jovem esposa (possuída e não amada), não consegue satisfazer ao Califa entediado; mais insaciável é a sede da palavra, e imperioso é o desejo de ouvir o conto inacabado. E é este desejo que salva a narradora e todas as mulheres pelas quais ela se sacrifica. Desse ritual fazem parte o soberano enredado na teia do poder: Dinazarda, imagem da solerte prudência; e a escrava Jasmine. Nélida soube extrair desta esquiva figurante a mina da fantasia popular com que se alimenta a fantasia da contadora de histórias. Sutil e firmemente, Nélida nos faz ouvir as vozes do deserto, de onde vieram e para onde vão os sonhos da narradora, enfim liberta da missão que se impusera. Quem tem ouvidos, ouça — é a palavra que resta dizer ao leitor desta obra que reinventa o fascínio das Mil e uma noites.” O livro é reeditado pela editora Record.
 
Nova edição de Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária.
 
“O mineiro só é solidário no câncer.” A partir desta frase de Otto Lara Resende, que define com amargor a essência humana, Nelson Rodrigues constrói um enredo que revisita elementos de seu teatro. O enredo de Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária gira em torno das hesitações do contínuo Edgar entre aceitar a proposta de se casar com a filha do dono da empresa em que trabalha e que alega ter sofrido um estupro bárbaro ou manter-se fiel ao seu verdadeiro amor por Ritinha, moça pobre que precisa se prostituir para sustentar a mãe louca e as três irmãs. Esta nova edição traz na orelha trecho de um texto que o próprio Nelson escreveu para o programa da peça na época de sua estreia. O livro é publicado pela editora Nova Fronteira.

MERCADO EDITORIAL

O destino da obra de Carlos Drummond de Andrade.

Em sua coluna para o jornal O Globo, o jornalista Afonso Borges põe fim ao mistério. A obra de Carlos Drummond de Andrade volta a ser publicada pelo Grupo Editorial Record. Há pouco mais de dois meses, a Companhia das Letras anunciara a desistência de renovar o contrato de permanência com a publicação do poeta mineiro.  
 
DICAS DE LEITURA
 
Na sexta-feira, passamos por mais um Dia Nacional do Livro; e, no domingo, é Dia Nacional da Poesia. O maravilhoso encontro de bonitas datas acabou por despertar o interesse para as recomendações de leituras na edição desta semana do Boletim Letras 360.º e por isso destacamos três títulos de poetas da nossa literatura publicados recentemente. Já conhece algum deles? Conta! Ou que outros livros você acrescentaria a essas dicas. Conta também!
 
1. Mesmo o silêncio gera mal-entendidos, de Ricardo Domeneck. Quem acompanha desde há algum tempo esta seção já encontrou o nome do poeta por aqui outra vezes; falamos sobre um dos nomes mais interessantes do que assim chamaríamos novíssima geração da literatura brasileira. Pela primeira vez, ele oferece aos leitores uma mostra inusual de seu trabalho poético. Inusual porque esta antologia rompe em parte com o conceito: por exemplo, o primeiro livro de Domeneck data de 2005, Carta aos anfíbios, mas o início do itinerário aqui proposto volta a cinco anos antes. Depois, a organização dos textos recolhidos não se oferece por temas e nem por ordem cronológica, como é sempre recorrente. Por fim, o poeta preferiu acrescentar alguns inéditos e outros trabalhos seus fora das realizações como poeta. Ou seja, falamos de um livro que demonstra o itinerário experimental que conforma os limites de um universo criativo ainda todo em expansão. O livro é publicado pela Garupa Edições.
 
2. Robinson Crusoé e seus amigos, de Leonardo Gandolfi. O retorno do poeta carioca à poesia se faz por um trabalho de desconstrução com a linguagem cujo indício deixa-se notar desde o título de um livro capaz de confundir um leitor apressado: há qualquer coisa de prosaico, talvez pela reiteração de uma figura fixada no campo ficcional. Mas o território do poeta aqui é mesmo o do nonsense e do proposital interesse pelos deslocamentos capazes de colocar em convívio gente da ficção com gente da história literária, uma mosca e a Teoria da Relatividade. O livro está publicado pela Editora 34.
 
3. Jorro, de Marize Castro. Este é oitavo título de um trabalho que dispensa apresentações, principalmente para uma autora que nos deu logo à entrada da sua obra um livro como Marrons crepons marfins, publicado em 1984. No livro de agora editado pela mesma casa editorial que algum tempo torna público seu trabalho, a Una, a poeta se mostra profundamente marcada pelas vivências da nossa incoerente história tão feita de extremismos, radicalismos e violências gratuitas. Não é uma poesia de engajamento, nem feita da simples transposição dos acontecimentos para as fronteiras do poema, mas daquele exercício reflexivo que tão bem encontramos em poetas como Carlos Drummond de Andrade, em que a experiência se confunde com uma posição gauche num mundo de discrepâncias.
 
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
 
1. O Dia Nacional da Poesia foi criado em consideração ao do nascimento de Carlos Drummond de Andrade. Nesta data também é celebrado o Dia D. Um dos mais importantes nomes das literaturas de língua portuguesa é duplamente recordado; não é muito, estamos diante do autor de livros fundamentais como Alguma poesia, A rosa do povo e Claro enigma. Recordamos três das muitas entradas na galeria de vídeos no Facebook com poemas do poeta mineiro:


BAÚ DE LETRAS
 
1. Ainda de aniversariantes. No dia 27 de outubro de 1892, nasceu Graciliano Ramos. Sobre o escritor, editamos em 2013 uma sequência de postagens de especialistas comentando sobre traços recorrentes e outros nem tanto na leitura da sua obra. Mas, recordaremos aqui outras três matérias do Letras aparecidas posteriormente:
 
a) nesta, Guilherme Mazzafera escreve sobre certa visão do escritor acerca do fazer literário.
b) aqui, Maria Vaz trata sobre a relevância sempre atual de Memórias do cárcere.  
c) e esta crônica do velho Graça, um resmungo contra o futebol, que copiamos no blog numa sequência de textos no ano do Mundial de 2014.

2. E, neste dia 30 de outubro, nasceu Ezra Pound. Sobre um dos mais valiosos poetas do século XX, autor entre outros, dos Cantos, o leitor encontra pelo menos três dos textos neste blog: nestes dois, algo sobre a eventual simpatia com fascismo e seu exílio em Veneza — aqui e aqui; e um breve texto sobre o valor do seu ABC da Literatura.

3. Coincidindo com a reedição de Acontecimentos na irrealidade imediata pela editora Hedra, o blog publicou recentemente um texto de Pedro Fernandes sobre este romance. Ainda está nos primeiros papéis do baú — aqui.

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Comentários

Anônimo disse…
Esses boletins são ótimos, mas poderia vir com os links que nos levam às editoras/obras citadas. Não dá nem para pesquisar com o mouse.

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