O novo cânone literário afro-americano

Por Josep Massot



Jacob Lawrence. The Library. 1960.


Ralph Ellison, o autor de Homem invisível, dizia, numa das cartas publicadas em dezembro pela Random House, que sonhava em confrontar sua literatura com a dos maiores escritores, “descobrir quem e o que eu sou, o que é a vida e o que é a arte”. Teria gostado de “escrever simplesmente como estadunidense ou, melhor ainda, como cidadão do mundo, mas isso é impossível agora porque estaria flutuando no ar das abstrações, enquanto o único fogo que ilumina essas abstrações nasce precisamente por ser negro e em toda a ‘experiência sentida’ que implica ser negro americano”. E se podia fazer em dez tons, por que fazê-lo em apenas cinco, defendeu-se com um símile musical diante de seu amigo Richard Wright (Native Son), fugindo do clichê do preto assumido pelo branco bem-pensante.
 
Esse mesmo compromisso ético com a excelência literária e com a comunidade seria assumido por James Baldwin, Maya Angelou, Terry McMillan e Toni Morrison, entre outros. E, décadas depois, ainda é mantida por escritores nascidos após o assassinato de Martin Luther King em 1968. Colson Whitehead (1969) ganhou o Pulitzer duas vezes: em 2017, por The Underground Railroad: Os caminhos para a liberdade, tornando literária a linha férrea imaginada por os escravos que fugiam do sul, e neste ano, por O reformatório Nickel. Whitehead já frequentou histórias de suspense e de zumbis, mas nenhuma é tão assustadora quanto sua ficcionalização da tortura e das mortes de uma escola verdadeira de crianças abandonadas e o debate voltairiano entre o mal e a bondade. Como é possível que a escola do terror tenha permanecido aberta na Flórida até oito anos atrás?
 
Ta-Nehisi Coates (1975), autor do célebre ensaio Entre o mundo e eu, admirador de E. L.  Doctorow e roteirista da história em quadrinhos Capitão América, retoma as alegorias de Whitehead em seu primeiro romance, A dança da água, com uma personagem de uma propriedade rural da Virgínia pré-guerra civil que tem o poder de levar as pessoas a distâncias incríveis. Sob as águas de sua prosa reside a necessidade de manter a memória e a impossibilidade de esquecer a ferida, ainda dolorosa. O escritor revelou James Baldwin com seus artigos influentes, nos quais ele é tão capaz de dar um sermão em Kanye West por sua aparição ao lado de Trump quanto de atualizar a crítica da “dupla consciência” (esse olhar-se através dos outros) do pioneiro W. E. B. Du Bois, autor do livro The Souls of the Black People.
 
Baldwin, em uma famosa carta a seu sobrinho, aconselhou: “Tente lembrar, eu lhe imploro, que o que eles acreditam, e também o que eles fazem e lhe fazem padecer, não é prova de sua inferioridade, mas de sua desumanidade e medo”. Ta-Nehisi Coates faz seu filho Samori ver em Entre o mundo e eu que “o gigantesco estado policial, a detenção arbitrária de negros e a tortura de suspeitos” nasce “dos medos gerados neles mesmos que levaram as pessoas que se acreditam brancas a fugir das cidades e se refugiar nos seus sonhos”.
 
Um sonho americano cujo fel a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (1977), autora de Americanah, provou durante sua estadia nos Estados Unidos. “O racismo é uma enfermidade mental, deveria ser chamada de síndrome do transtorno racial”, escreveu. Ou a estadunidense de raízes ganensas Yaa Gyasi (1989), que reconstrói em O caminho de casa sete gerações, desde que foram escravizadas na África no século XVIII à discriminação atual. Jesmyn Ward (1977) expõe com violência e aspereza em Sing, Unburied, Sing, o outro lado de Enquanto agonizo, de Faulkner, mas desta vez com a denúncia racial em plano de fundo.
 
Roxane Gay (1974) dinamitou sem pudores o politicamente incorreto em Má feminista as convenções do feminismo da mulher branca heterossexual ou a cultura do estupro. Janet Mock (1983), roteirista e diretora da série Pose, contou sua luta pelos direitos LGTB em Redefining Realness and Surpassing Certainty. Por sua vez, N. K. Jemisin (1972) exibe mundos multiculturais em seus romances de ficção científica, gênero que os homens costumavam dominar. Tomi Adeyemi (1993) canalizou sua raiva com os tiroteios da polícia contra negros desarmados no romance infantil Filhos de sangue e osso.
 
Os conflitos humanos das obras citadas são os mesmos de qualquer outra grande literatura, o que muda radicalmente é a experiência de ser negro, vivida por cada escritor à sua maneira, num país onde, apesar dos avanços notáveis, ainda assim, 43% dos adultos brancos dizem que “vê discriminação racial onde ela realmente não existe”. A pesquisa do PEW revela que o apoio dos brancos ao movimento Black Lives Matter caiu de 60% em junho para 47% em setembro.
 
As leis de Jim Crow foram abolidas de jure em 1964, mas a advogada de direitos humanos Michelle Alexander, em seu livro The Color of Justice, argumenta que a segregação é mantida graças às ações da polícia e às dificuldades impostas aos afro-americanos que saem de seus bairros desenhados com linhas vermelhas: “Não acabamos com as castas raciais, simplesmente as redesenhamos para parecer que são legais”. Isabel Wilkerson, em seu recente ensaio Caste: The Origins of Our Discontents, faz uma pergunta plausível em todas as áreas do mundo: o que leva trabalhadores brancos e negros assimilados a votar contra seus interesses? A autora recupera o conceito de casta, para além da classe social ou do gênero, que Martin Luther King já expunha durante sua estada na Índia.
 
O movimento foi analisado por Keeanga-Yamahtta Taylor em #VidasNegrasImportam e libertação negra, mas tem seus críticos. Revolutionaries to Race Leaders: Black Power and the Making of African American Politics reflete a polêmica levantada por Cedric Johnson quando acusou o BLM de ser “a ala esquerda do neoliberalismo, no sentido de que sua única medida de justiça social é a oposição à disparidade na distribuição de bens e males na sociedade, um ideal que naturaliza os resultados das forças do mercado capitalista sempre e quando sejam equitativos em termos raciais (e outros termos de identidade)”.
 
O livro A origem dos outros resgata um artigo de Toni Morrison em que denuncia o cânone estadunidense. Se o poder da literatura é imaginar o que o eu não é, familiarizar o estranho e mistificar o familiar, como os escritores e os críticos humanistas brancos os imaginaram? Qual é o impacto das noções de hierarquia racial, exclusão racial e vulnerabilidade e disponibilidade racial sobre os não negros que mantiveram, resistiram, exploraram ou alteraram essas noções? Baldwin acrescentaria que a missão que distingue o escritor de outras profissões é dizer o que não queremos reconhecer de nossa sociedade e de nós mesmos.
 
Autores afro-americanos reivindicam uma nova definição de racismo, segundo os postulados dos antropólogos, para os quais raça é uma construção ideológica e “o racismo se baseia em práticas sociais estabelecidas que se reproduzem nas relações de poder que nossos corpos, emoções, relações, conhecimentos, modos de vida e que geram privilégios materiais e simbólicos para uns e opressão para outros”. Uma questão que não se limita aos Estados Unidos (leia-se a francesa Elsa Dorlin, autora de Autodefesa: uma filosofia da violência) e que na Espanha, por exemplo, os escritores guineenses e da segunda geração de imigrantes africanos sentem como sua, organizados em espaços como Wanafrica, United Minds, Afroféminas ou a Biblioteca Afro-Americana de Madrid dirigida por Mireia Sentís, enquanto as editoras espanholas publicam literatura afro de todas as regiões. Além dos mencionados, pode-se citar a publicação da poesia de Audre Lorde; X, de Percival Everett; A fonte da autoestima, de Toni Morrison; I Almost Forgot About You, de Terry McMillan; Woman on the Edge of Time, de Marge Piercy, e a poesia completa de Maya Angelou, entre outros títulos.
 
* Este texto é a tradução de “El nuevo canon literario afroamericano”, publicado aqui no jornal El País.

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