José Donoso e o pássaro que devorou suas entranhas

Por Aurora Villaseñor

José Donoso. Foto: Miguel Sayago.



Nem a vocação para a medicina do pai e dos irmãos, nem a aplicação à lei dos avós advogados conseguiram oferecer a José Donoso um interesse genuíno pelas pessoas. Em entrevista concedida em 1989, aos 65 anos, declarou: “Não de estar comprometido, confesso, mas não sou um homem político. A polis para mim é outra coisa, é um interesse. Sou muito mais egoísta do que tudo isso, muito mais individual, muito mais focado em mim mesmo. Estou muito mais interessado nas minhas doenças do que nas doenças da sociedade”, disse o escritor.
 
A intensidade com que parava de escrever era paralela a um sofrimento de úlceras que o faziam cair de cama, e que o tornaram um doente focado em seu próprio desconforto. Mas muitos anos antes de somatizar os contratempos da escrita, o chileno que fez parte do Boom latino-americano foi um inconformista que deixou sua cidade natal Santiago e fugiu para Magalhães, onde chegou resignado por não poder embarcar em um navio para a Europa porque o fim da Segunda Guerra Mundial complicava a navegação em alto mar.
 
Jovem aburguesado, sim, mas não complacente diante das demandas de seus pais, Donoso decidira renunciar aos privilégios que uma família abastada lhe garantia, já que os bolsos cheios de uns pais controladores estavam longe de seduzi-lo, e a imposição de empregos com os quais seu pai tentava domar seus impulsos rebeldes não provocaram a menor inspiração.
 
Uma vez fora de casa, escreveu uma carta ao pai para informá-lo de sua vadiagem como um menino incompreendido e incidentalmente provocou sua rejeição, mas o que Donoso recebeu de um pai que ele mesmo descreveu anos depois como um mau médico foi um insolente “compreendo-o”: “Sinto-me orgulhoso por um filho meu ter conseguido sair desta vida frívola e vã de Santiago.”
 
Um ano carregando ovelhas numa fazenda foi o suficiente para que ele seguisse para Buenos Aires, onde a inércia o manteve ativo por oito meses até que adoeceu e seus pais não tiveram escolha a não ser procurá-lo e trazê-lo de volta. Em 1947 começou a estudar letras inglesas na Universidade do Chile, mas onde sua própria natureza também o fez sair pela porta da emergência depois de dois anos. “Sou uma pessoa cheia de hesitações, nunca sei bem para onde vou, não tenho uma linha muito fixa”, confessou em 1973 durante uma entrevista ao jornalista José Solar.
 
Donoso começou a aumentar seu amor pela literatura inglesa ao receber uma bolsa de estudos na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. “Eu via Einstein passar pela minha janela todos os dias, Thomas Mann acabara de sair, todos os fins de semana as companhias de teatro de Nova York iam. Foi muito emocionante para um menino como eu, que veio do fim do mundo”, disse a Soler.
 
Aquele estímulo mais que instantâneo foi o início de uma carreira de cataclismo tardio na literatura, pois Donoso havia conseguido publicar seus dois primeiros contos escritos em inglês “The blue Woman” e “The poisoned pastries” na MSS, revista especializada da universidade, e embora esses contos fossem suficientes para ele se proclamar escritor, a verdade é que não se convencia disso, assim decidiu não passar dos 30 sem alguma publicação reveladora. Enquanto isso viajava pelo México e pela América Central, queria ser jornalista, mas asseguraria em entrevistas posteriores que não funcionava para ele, então não teve escolha a não ser voltar a Santiago para se trancar em uma casa para escrever; o resultado foi Veraneio e outras histórias¹ que apareceram em 1955.
 
Para alguém que teve problemas com a matemática e a disciplina depois de ser expulso de dez escolas, a fórmula criada para garantir o financiamento e a distribuição de sua primeira publicação foi mais lucrativa. “Nenhuma editora quis apostar em mim, mas pedi a dez amigas que vendessem dez vales antes da publicação, para pagar a quota do livro, fizemos assim e saíram 100 exemplares que depois fomos vender nos bondes e por aí, nas ruas”, lembrou.
 
Se não satisfez seus impulsos criativos, Veraneio e outras histórias fizeram dele o ganhador do Prêmio Municipal de Santiago, embora fosse apenas uma questão de tempo até que seu primeiro romance Coroação fosse publicado em 1957, enquanto vivia com uma família de pescadores em Isla Negra. “Digamos que este romance seja um ponto de partida, é matematicamente estruturado. O problema e a estrutura foram levantados antes de começar a escrever ... e agora sei que se busca estrutura e significado por meio da escrita. Fala da burguesia e do lúmpen chilenos, com o vínculo intermediário dos criados da casa grande ... É o retrato da minha avó materna com quem vivemos, naturalmente a família ficou furiosa porque como era possível que tivesse retratado a avó como uma louca, havia tornado pública a vergonha da família ...”, disse durante a referida entrevista.
 
Depois de viajar pela Europa, onde colocou sua veia jornalística à prova escrevendo reportagens, voltou ao Chile em 1960, casou-se e começou a escrever e escrever sem saber para onde iam seus manuscritos, logo começou a se sentir afogado no seu país outra vez e soube que precisava de ar puro quando em 1964 foi convidado para um congresso literário em Chichen Itza; assim, partiu para o México carregando uma pequena mala, embora depois tivesse que passar 18 anos peregrinando por diferentes terras para voltar à sua pátria. “O exílio é um mito, porque você nunca vai para o exílio. Você nunca vai embora, você se acha cosmopolita e não é cosmopolita para nada”, chegou a dizer.
 
No México, testemunhou que as imagens profundas são aliadas da memória, já que não havia sido apagado de si a tarde de 1959, quando em uma rua de Santiago viu um menino deformado vestido de smoking no banco de trás de um carro de luxo que tinha ao volante um motorista particular. Cena que dominaria o mais prolífico de seus romances, O obsceno pássaro da noite, que não só levou anos para fermentar, mas literalmente o levou ao delírio. Neste romance Donoso, que não gostava de absolutos, sugere a degeneração e destruição da burguesia chilena que por sua vez lhe permitiu conhecer de perto e que anos depois seria estimulado pela imagem de Humberto Peñaloza, o “el mudito” , um homem que é secretário de Jerónimo de Azcoitía, que construiu para o seu filho deformado um país habitado por criaturas bizarras e monstros de feiras.
 
“Acredito que em todo escritor existe, de fato, um marginal. Se um escritor não tem em si as possibilidades de marginalização ou uma tendência marginal, se ele não tem uma cisão de algum tipo, ele nunca pode se tornar um escritor. (…) Porque a marginalização tem que buscar uma metáfora, que pode ser o desonesto, o velho, a criança, a bicha de bordel, qualquer coisa”, disse Donoso na entrevista de 1989.
 
A loucura impressa em O obsceno pássaro da noite não é acidental se contemplarmos o calvário que representou sua escrita. Antes mesmo de resultar no romance exponencial que é hoje, Donoso publicou outros dois títulos em 1966: Este domingo e O lugar sem limites, adaptado ao cinema por Arturo Ripsetin. “Eram romances com melodia fácil de seguir, mas o Obsceno era polifônico, com pretensões de ser sinfônico. Passei anos sem saber para onde ir, tinha escritas coisas oníricas, modificações, exageros. Estava afogado, levava seis anos e sempre tive úlceras, úlceras que estão ligadas à minha literatura”, lembrou a Soler.
 
Farto até o fundo de suas enfermidades, disse que não escreveria mais e que iria para os Estados Unidos como professor. Ele estava no Colorado quando as doenças se tornaram violentas. “O pássaro estava comendo minhas tripas”, escreveu. Internaram-no e na sala de cirurgia não apenas removeram metade de seu estômago, mas aplicaram morfina sem saber que ele era alérgico a ela. “Produziu em mim um episódio de esquizofrenia de 15 dias, e durante esse tempo eu estava gritando, abrindo-me a ferida, tirando a sonda, gritando com os pacientes do hospital que tínhamos que fugir porque queriam nos deixar loucos, até que acabaram me pondo numa camisa de força […] Depois voltei a Maiorca com uma barba branca, e nessa volta escrevi O obsceno pássaro da noite, em oito meses, do começo ao fim… É na escrita que geralmente são traduzidos os problemas dos escritores”.
 
Foi assim que aquele homem que estava muito mais interessado em suas doenças do que as da sociedade se tornou intransponível na época de sua própria agonia. “Sempre haverá pássaros e sempre haverá entranhas, mas espero preservar minhas entranhas mesmo que os pássaros as devorem”, chegou a dizer.
 
 
Nota da tradução
1 Exceto, O obsceno pássaro da noite e O lugar sem limites os outros títulos são traduções livres a partir do original em espanhol.

 
* Este texto é a tradução de “José Donoso y el pájaro que lo devoro las entrañas”, publicado aqui, em Gatopardo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Afonso Bezerra

Os mistérios de “Impressão, nascer do sol”, de Claude Monet

A ausência, de Peter Handke

Itinerário do tempo, de Jonas Leite

Boletim Letras 360º #431

Vidas de romancista