Boletim Letras 360º #566

Ernest Hemingway com o toureiro Antonio Ordónez, Espanha, 1960. 



LANÇAMENTOS
  
Publicado pela primeira vez em 1932 e inédito no Brasil uma contemplação sobre a natureza da covardia e da bravura, do esporte e da tragédia costurado pelos comentários pungentes de Hemingway sobre a vida e a literatura.
 
Conhecido por sua habilidade em capturar a essência de experiências intensas em suas obras literárias, Ernest Hemingway nunca escondeu seu fascínio pelo embate entre a vida e a morte. Um admirador inveterado da coragem humana diante das adversidades, Hemingway explorou de maneira ímpar essa temática em sua escrita. Ele acreditava que, após a Primeira Guerra Mundial, o único lugar onde se poderia observar a dualidade da vida e da morte seria nas touradas. Dirigiu-se, então, à Espanha a fim de torná-la palco para suas observações. E sua experiência com as touradas proporcionou-lhe um conhecimento íntimo e uma riqueza de detalhes que ele habilmente incorporou em suas obras. Morte ao entardecer reflete a crença de Hemingway de que as touradas transcendem a mera prática esportiva. Apresentada como uma forma de arte, na qual a técnica perigosa beira a linha tênue entre o esporte e a arte, as touradas são comparadas a um balé ricamente coreografado, nas quais o touro, o matador e os espectadores desempenham papéis ativos, contribuindo para o desenrolar do espetáculo. Hemingway interpretava a tradição como uma dança, abrangendo desde os amadores desajeitados até os mestres de grande graça e astúcia. Além disso, as touradas ofereciam a Hemingway uma metáfora poderosa para explorar temas como coragem, mortalidade e a luta do homem contra forças maiores do destino. Em O sol também se levanta, por exemplo, ele utiliza a tourada como um símbolo da luta existencial dos personagens diante de um mundo em mudança após a Primeira Guerra Mundial. Hemingway desafia os leitores a confrontarem as próprias noções de ética, coragem e tradição cultural ao escrever sobre as touradas. Suas descrições vívidas e emotivas despertam reflexões sobre questões morais e existenciais. Com tradução de Irinêo Baptista Netto, o livro sai pela Bertrand Brasil. Você pode comprar o livro aqui.

A Record inicia 2024 trazendo o primeiro título da publicação da obra de Ricardo Guilherme Dicke.
 
A obra de Ricardo Guilherme Dicke, em sua época injustamente pouco reconhecida pelo público, embora muito prestigiada pela crítica, retorna com a nova edição de seu mais poderoso romance, Madona dos Páramos, quarenta anos depois de seu primeiro lançamento e dezesseis anos depois da morte do autor. “Um escritor que me comove até a medula [...] Madona dos páramos é uma obra-prima”, assim Hilda Hilst — uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX — descreve Ricardo Guilherme Dicke e seu romance Madona dos Páramos, publicado originalmente em 1982 e até hoje uma peça fundamental em sua vasta trajetória literária. O romance conta a história de doze foragidos que cavalgam pelo sertão do centro-oeste brasileiro em busca da terra da Figueira-Mãe, onde os aguardariam o bem-estar e a justiça. Entre eles, uma mulher, a moça sem nome, arrebatada do lar e de sua família à força, alvo do desejo geral. Todos eles em uma batalha contra o clima e a geografia inóspitos, reflexo também de suas personalidades. A riqueza do trabalho de linguagem executado por Dicke é absolutamente inconfundível, tornando-o um dos grandes estilistas da língua portuguesa na segunda metade do século XX. Nascido na Chapada dos Guimarães, Mato Grosso, Dicke escreve sobre um sertão que pouco se manifesta na literatura brasileira que conhecemos; não é o do Nordeste ou o de Minas Gerais, sobre o qual estamos mais acostumados a ler. Também não é sobre um lugar que reduz a condição humana, como bem disse Rodrigo Simon de Moraes — grande estudioso das obras do autor e quem assina o prefácio desta edição —, mas sim sobre um espaço que a amplia e que retrata a natureza como um “veículo privilegiado para um reencantamento do mundo, um sagrado que irá permitir estar aquém e além do tempo e, assim, superar a dicotomia entre a vida e a morte”. Com esta nova edição do romance que ganhou o Prêmio Ficção de Brasília de 1981. Você pode comprar o livro aqui.
 
Uma história sobre um futuro cyberpunk tropical e latino. Com Dengue boy: a infância do mundo, Michel Nieva se revela uma das vozes mais interessantes na literatura latino-americana contemporânea.
 
No ano de 2272, a crise climática atinge um ponto intransponível. As zonas polares derreteram por completo, a temperatura média global é de 90°C e cidades como Nova York e Buenos Aires se encontram submersas. No extremo sul do continente, os Arquipélagos Patagônicos formam o Caribe Pampiano: de um lado, um balneário com belíssimas praias artificiais; de outro, uma miserável e tépida orla. É nesse cenário devastado que cresce o dengue boy. Ninguém gosta do dengue boy. Na escola, seu aspecto bizarro e nojento o transforma no principal alvo das zombarias comandadas pelo pequeno tirano Dulce. Em casa, sua situação não é muito melhor. A mãe, exausta de seus dois empregos, não aguenta a bagunça feito pelo filho, que não possui mãos. E assim, deslocado, o esquisito mosquito humanoide vai levando sua vida, dia após dia, no mormaço insuportável do único canto ainda habitável da Terra. Este é um livro sobre um fim do mundo. Uma prosa cyberpunk latino-americana, tropical e frenética. Um delírio de realidades moribundas, artificiais e virtuais, em que adultos negociam o valor de pandemias na Bolsa de Valores e esgarçam os últimos recursos terrestres. E, enquanto isso, crianças definem os rumos do que sobra como quem joga videogame. Michel Nieva, uma das vozes mais interessantes e singulares da literatura argentina contemporânea, é um autor de ficção científica gaúcho-punk. Mergulhado em influências do universo do mangá, do body horror e do absurdo, o autor trabalha, com humor, cenas da vida no século 21. E nos transporta a um novíssimo século 23, no qual sua estrela brilha próxima a nomes como Franz Kafka, Ursula K. Le Guin, Jorge Luis Borges, David Cronenberg e Junji Ito. Dengue boy: a infância do mundo é seu primeiro livro publicado no Brasil, com tradução de Joca Reiners Terron. Sai pelo selo Amarcord. Você pode comprar o livro aqui.
 
Livro do poeta Jesús García Mora sobre o irmão que não nasceu ganha tradução e a primeira publicação da sua obra no Brasil.
 
Com O rumor de meu irmão, a poesia de Jesús García Mora nos leva, em diálogo com o ausente, na memória do que não foi possível, a uma busca pelo irmão que não nasceu. Nas estrofes do livro a cidade de Tijuana é o destino e o refúgio ao qual sempre se volta: todos os segredos do mundo estão na Libertad (bairro mais povoado da cidade, logo na fronteira com os Estados Unidos). Este livro é uma viagem, uma busca do mito e da infância, é a necessidade de voltar ao sentido original da realidade. Em edição bilíngue, com tradução do poeta paulista Marcus Groza, o livro sai pela Isto É Edições. García Mora é um proeminente poeta mexicano contemporâneo, seu trabalho muitas vezes reflete a rica tapeçaria de cultura efervescente, história e exuberância urbana de sua cidade e de seu estado natal, a Baixa Califórnia, criando um corpo de trabalho atraente e instigante. Você pode comprar o livro aqui.
 
Nova edição e tradução dos contos de Charles Bukowski reunidos em A sinfonia do vagabundo.
 
Charles Bukowski escreveu inúmeros contos ao longo da vida. Nesta coletânea, uma das mais relevantes da carreira, ele destrincha assuntos como sexo, álcool, luto e reflexões sobre existência em histórias protagonizadas por personagens tão divertidos quanto miseráveis. A sinfonia do vagabundo tece envolventes narrativas cômicas e lascivas que reforçam seu tom irônico e minimalista responsável por marcá-lo como o último maldito de literatura. A edição agora publicada pela HarperCollins Brasil é comentada, com tradução de Bruna Barros e posfácio de Luis Fernando Gonçalves Balby. Você pode comprar o livro aqui.
 
Entre a escravidão e a consciência de liberdade. Livro fabula a aprendizagem de negros escravizados sob o regime a que são submetidos numa fazenda do sul dos Estados Unidos.
 
A história de Em algum lugar lá fora se passa em uma região não especificada no sul dos Estados Unidos, por volta dos anos 1850, na fazenda Placid Hall. Nela, os escravizados — ou “Sequestrados”, como se autodenominam — são submetidos aos caprichos de um tirânico e excêntrico captor e nunca sabem o que pode lhes ocorrer além do trabalho físico desumano de todos os dias: um castigo brutal ou a venda inesperada de um ente querido. Porém, o que mais fere William, Cato, Margaret, Pandora e o Pequeno Zander é a falsa crença de que são incapazes de amar. Ainda que tenham aprendido o idioma e a doutrina religiosa de seus captores — chamados por eles de “Ladrões” —, possuem linguagem e rituais próprios e desejam, a todo instante, estar “em algum lugar lá fora”, uma realidade distinta daquela em que vivem. Até que o pastor Ramson, um negro liberto com um passado misterioso, começa a incutir neles ideias de liberdade. Com tradução de Rogerio W. Galindo e ilustrações de Vítor Bravin, o livro sai pela editora Instante. Você pode comprar o livro aqui.
 
Observador privilegiado da cena artística contemporânea, Stéphane Huchet apura e explicita os principais impasses e desafios que envolvem a produção, a recepção e a própria conceituação da arte no mundo hoje.
 
Tomando como referência as reflexões de Joseph Beuys, Enzo Cucchi e Jannis Kounellis em seu encontro na Basileia em 1985, Huchet investiga em onze capítulos — e uma inspirada coda — do seu A sociedade do artista  as relações entre arte, ativismo artístico, regimes estéticos, utopia social e a emergência dos artistas-do-comum, reservando uma atenção especial às interrogações acerca do fim da arte e do fazer do artista, autoridade simbólica cujo ofício dialoga constantemente com a moral e que resiste a todas as tentativas de denegação. Com análises precisas de um grande número de obras e autores — de Baudelaire a Mário Pedrosa, de Hélio Oiticica a Peter Greenaway, de Allan Kaprow a Jacques Rancière, do abade Du Bos a Jeff Wall, para citar apenas alguns —, o diálogo atento de Stéphane Huchet com as permanências e as metamorfoses da teoria da arte lhe permite mostrar como certas preocupações atuais encontram em enunciados antigos seus mais insuspeitos fundamentos, atacando de frente a ilusão do novo ou o apagamento histórico hoje em voga. O livro sai na Coleção Trans editada pela Editora 34. Você pode comprar o livro aqui.
 
O único depoimento de uma mulher a respeito da Guerra do Paraguai.
 
Circunscrita entre os anos de 1864 e 1870, a Guerra do Paraguai foi uma hecatombe humana, política e financeira para os países que dela participaram. A confirmação dos atos sangrentos praticados pelo ditador paraguaio Francisco Solano López, descritos por suas vítimas ou por observadores, interessava a setores políticos nos países envolvidos no conflito. Ao mesmo tempo, esses relatos descrevem com honestidade as experiências pessoais de seus autores. As Memórias de Dorothée Duprat de Lasserre são o único depoimento de uma mulher a respeito do conflito. A autora não só assistiu à violência da guerra, mas viveu na pele os desmandos da ditadura de López. Seu relato, escrito no calor dos acontecimentos, expõe os sofrimentos causados pela guerra na população civil, particularmente nas mulheres paraguaias. A pesquisa de Francisco Doratioto em arquivos brasileiros, argentinos e paraguaios revela fatos inéditos sobre a vida de Dorothée, que durante a guerra fez parte de um grupo de mulheres chamadas de destinadas. Arbitrariamente tachadas de traidoras por López, foram obrigadas a caminhar, sob escolta de soldados, para o interior do Paraguai. Doentes, maltrapilhas e à beira da inanição, as sobreviventes da extenuante jornada foram libertadas em dezembro de 1869, já no final do conflito, pelo Exército imperial brasileiro. Exausta, física e psicologicamente, ainda assim Dorothée aceitou o desafio de escrever suas memórias, a pedido do coronel Francisco Pinheiro Guimarães, no início de 1870. Finda a guerra, teve ainda uma intensa vida pública em Chivilcoy, na Argentina, onde morreu em 1932. Com organização e posfácio de Francisco Doratioto, o livro é publicado pela Chão Editora. Você pode comprar o livro aqui.
 
REEDIÇÕES
 
Na coleção com a obra de Nelson Rodrigues, da HarperCollins Brasil publica-se uma nova edição de O homem proibido.
 
As primas Sônia e Joyce são quase como mãe e filha. Fazem tudo juntas, planejam minuciosamente o futuro e a vida, e chegam ao ponto de quererem se casar no mesmo dia e morar na mesma casa com seus respectivos maridos. Infelizmente, tamanha proximidade é capaz de transformar a linha entre o amor extremo e o ódio intenso em algo tênue. Com o aparecimento de um homem proibido, a relação das primas-irmãs fica estremecida. Fadadas a uma rivalidade impossível de ser superada, ambas se afastam e planejam em segredo suas próprias versões de felicidade. Realidades essas que podem ser mortalmente perigosas. Escrito sob o pseudônimo Suzana Flag, este é o nono romance de folhetim de Nelson Rodrigues publicado pela HarperCollins e conta com um prefácio de Cecilia Thumim Boal mais um posfácio de Henrique Buarque de Gusmão. Você pode comprar o livro aqui.

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Durante o recesso de final de ano, as edições do Boletim Letras 360º são reduzidas; saem sem as demais seções de costume.

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