É por isso que Tom Ripley sempre leva a melhor

Por Ernesto Diezmartínez




Perto do final de “The Perfect Little Lady”, um dos contos mais irônicos e perturbadoras encontradas no livro Little Tales of Misogyny (1977), Patricia Highsmith (1921-1995), a escritora texana autoexilada que morreu na Suíça, avisa-nos que nada acontecerá à sua protagonista, Thea, a “perfeita senhorita” do título. Nesse conto inquietante, a narrativa nos apresenta uma garota que é uma precoce femme fatale que destrói tudo e engana a todos, exceto seu pai distante, que suspeita do tipo de monstro que ela criou.
 
Thea é retratada como uma autêntica sociopata sem nenhum pingo de consciência moral ou remorsos que, por sua beleza radiante e bons modos, atrai a admiração de amigos, estranhos e até do próprio universo, o que lhe permite sempre conseguir o que quer. As duas últimas linhas do conto, quando Thea completa 15 anos, narra que uma certa rival de nossa protagonista sofre um acidente de carro que deforma para sempre seu corpo e rosto. E é Claro, a personagem fica feliz com isso, e a narrativa ressalta que a menina tem um futuro promissor, pois “escapará de todas as catástrofes”, já que “existe uma divindade que protege perfeitas senhoritas como Thea”.
 
É talvez o final mais lapidar de qualquer conto escrito por Highsmith e um dos mais próximos da sua forma de compreender as relações humanas e o significado da nossa existência. A escritora disse em mais de uma ocasião que a justiça não punia os personagens de suas histórias e romances — assassinos, golpistas, ladrões, sociopatas, extorsionários — porque esses tipos de histórias edificantes tendiam a ser muito “aborrecidas” e “artificiais”. Além disso, estava convencida de que o universo é indiferente às nossas ações: “nem na vida nem na natureza existe justiça”. E se algum de seus malvados protagonistas acabava sendo punido ou preso — como acontece em um ou outro romance — isso se devia mais a uma causalidade, a um inexplicável jogo cósmico. Em geral, na sua obra, o crime compensa e o criminoso tem tudo a seu favor.
 
É por isso que Tom Ripley sempre se sai tão bem, tanto nos cinco romances de Patricia Highsmith em que ele aparece como protagonista quanto na maioria de suas aparições cinematográficas e, mais recente, na minissérie de oito episódios lançada pela Netflix. Escrita e dirigida pelo roteirista vencedor do Oscar (por A Lista de Schindler) Steve Zaillian, Ripley é, na minha opinião, não apenas a melhor adaptação para as telas já feita de O talentoso Ripley, o primeiro romance em que aparece Tom Ripley, mas é uma perspicaz extensão temática e conceitual do texto original de Higshmith e uma brilhante apropriação genuinamente cinematográfica da história.
 
A adaptação escrita pelo roteirista, criador e diretor Zaillian é muito fiel, em termos gerais, ao romance de origem, adaptado pela primeira vez em O sol por testemunha (René Clément, 1960) e depois em O talentoso Ripley (Anthony Minghella, 1999). Estamos em Nova York, em 1960: Tom (Andrew Scott) é um pobre diabo que sobrevive cometendo pequenas fraudes aqui e ali. Por uma confusão, o rico empresário marítimo Herbert Greenleaf (o cineasta e roteirista Kenneth Lonnergarn em uma participação especial muito competente) contata Tom, acreditando que ele seja um amigo próximo de seu único filho, Richard “Dickie” Greenleaf (Johnny Flynn), que há anos mora na Itália, desperdiçando o dinheiro da família e se dedicando, supostamente, à pintura. Ou seja, al dolce far niente. Mr. Greenleaf pede a Tom que vá para a Itália e convença seu filho bom a voltar para assumir os negócios da família. São, portanto, férias remuneradas, com tudo e um generoso salário incluído. Quando Tom chega a Atrani, o acidentado lugar onde Dickie vive entre pedras, escadas e praias, Ripley se apaixona pela geografia, pelo estilo de vida despreocupado do indolente herdeiro e, finalmente, pelo próprio Richard, sob o olhar atento da namorada de Greenleaf, a assim chamada escritora e fotógrafa Marge Sherwood (Dakota Fanning).  
 
Com oito episódios de uma hora para desenvolver a história original, Zaillian expande o mundo do primeiro romance de Ripley, concentrando-se principalmente na logística do engano, da fraude e do crime. Presenciamos, desde o início, não apenas as decisões que vão sendo tomadas por Tom, mas principalmente como ele pensa, planeja e, no final, as executa. O Ripley de Andrew Scott é o que mais se aproxima ao personagem dos livros: um ser amoral e opaco que sabe se adaptar a cada circunstância, que pensa rápido e que faz o que tem que fazer com a precisão de um cirurgião. Ele tem sorte, sem dúvida (como a “perfeita senhorita” Thea), mas também não lhe falta audácia: quando se sente encurralado, sua fuga será sempre para frente.
 
Embora seja verdade que, aparentemente, Andrew Scott, de quase cinquenta anos, é um Ripley velho demais para o papel — supões que é um garoto de 25 anos e, em um dos episódios, dizem que ele e Dickie têm “uns 30 anos” —, também é verdade que o primeiro capítulo desta minissérie não termina quando fica claro que o ator irlandês assumiu completamente o personagem. Estamos diante de um Ripley muito mais maduro do que aquele encarnado pelo jovem predador Alain Delon, de 25 anos, de O sol por testemunha, sem falar no inseguro e instável Matt Damon, de 29 anos, do filme seguinte. O Ripley de Scott não tem dúvidas: ele sempre sabe o que fazer, como e quando fazer. Na verdade, ele se parece mais com o Ripley dos romances subsequentes de Highsmith — Ripley subterrâneo (1970) ou O jogo de Ripley (1974) — do que com o personagem inexperiente do primeiro romance, mas o que importa: o rosto inexpressivo de Scott e seu inalterável olhar vazio terminam prevalecendo sobre qualquer ceticismo.
 
Existem outros elementos notáveis ​​nesta minissérie além de Scott. Em primeiro lugar, esse tom wellesiano/ hitchockiano nas imagens, cortesia da fotografia a preto e branco do também vencedor do Oscar (Sangue negro) Robert Elswitt, cuja soberba iluminação de focos nas ruas de Roma e os seus ocasionais enquadramentos inclinados e interiores nos remetem a clássicos como O terceiro homem (Carol Reed, 1949), O homem errado (Alfred Hitchcock, 1956) ou Sombras do mal (Orson Welles, 1959).
 
Depois, a extraordinária sonoplastia, que nos coloca noutro tempo, noutro mundo, que um ou outro espectador poderá lembrar se tiver idade suficiente: um lugar onde tudo é pesado, barulhento, onde precisamos de tempo para fazer algo, em que as coisas se movem ou são movidas com dificuldade. Refiro-me ao elevador que avaria de vez em quando, aos passos noturnos pelas antigas pedras romanas, o invasivo toque do telefone que ecoa nos ouvidos, a assinatura forjada de Dickie que Tom carimba em cada cheque com uma caneta que ouvimos passear pelo papel… Tudo que Ripley faz envolve esforço porque o mundo que habita é tátil: nada é digital, nada é apressado, nada é simples. Seguindo um certo dictum hitchockiano, em Ripley fica claro que, embora matar seja fácil, livrar-se de um corpo é mais difícil.
 
Vários meses atrás, quando descobri que a Netflix produziria outra versão de O talentoso Riply, anotei no Twitter, meio brincando, meio sério, que esperava que as futuras minisséries fossem dedicadas à construção de um RCU, ou seja, um Ripley Cinematic Universe. Depois de tudo, Highsmith escreveu cinco romances com Tom e o personagem já foi interpretado não apenas pelos já citados Delon e Damon, mas por Dennis Hopper, Ian Hart, Barry Pepper e John Malkovich. Ou seja, há muito pano para cortar e muitas presenças que podem aparecer de forma surpreendente nas temporadas seguintes. Aparentemente, no desenlace desta primeira (?) temporada de Ripley, Zaillian e sua equipe leram meu tuíte. Depois de tudo e parafraseando Highsmith: “existe uma divindade que protege vigaristas e assassinos como Ripley”. 


* Este texto é a tradução livre de “Por eso siempre le va tan bien a Tom Ripley”, publicado aqui, em Letras Libres.

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