Ler a Odisseia (Parte I)

Odisseia de Homero, Turner.


Devo retornar à questão primeira que postei em Letras in.verso e re.verso quando dei início à leitura da Odisseia, de Homero. Daniel Mendelsohn em recente entrevista ao The Browser responde à questão posta dizendo: “Quando eu chegar a minha velhice, a resposta para isso é que os clássicos são apenas bons.” Vou na contramão de Mendelsohn para dizer que, devo ainda está longe da velhice se pensar na idade que tenho hoje, mas que, voltando agora, já prestes a fechar a leitura do livro de Homero para dizer isso: os clássicos são bons. E é, sem falsa modéstia, os únicos que ainda conseguem ajudar a esse leitor que venho construindo desde que me colocava diante da leitura da Bíblia à volta dos meus catorze anos. 

Repete-se lendo a Odisseia o que vivi lendo Dom Quixote ou Grande sertão: veredas, para ficar apenas em dois exemplos. Quanto à leitura da Bíblia aos catorze, fui precoce, então. A Bíblia é, juntamente com a Odisseia ou a Ilíada os textos bases do cânone ocidental. E, poderão me perguntar, mas a leitura do livro sagrado foi compreensível a você nessa idade? Ao que direi, boa parte sim, outra boa parte não, mas aqueles que se dizem estudar a Bíblia até hoje não conseguiram entendê-la e fazem dela, na maioria das vezes, estapafúrdias interpretações, eu, estou melhor que eles, considero a Bíblia, não um texto sagrado, mas canônico para a literatura, assim como são os outros livros antigos.

Aproveito para dizer que é o trato do enforme linguístico o que dá a esses textos antigos uma áurea que me atrai; trocando em miúdos, aquilo que é barreira para alguns leitores, é o meu atrativo para sua leitura. Evidentemente que, quando a li a Bíblia eu não tinha a maturidade que hoje tenho para afirmativas do tipo e, logo, não fui lendo os vários livros que a compõem com esse olhar. Era muito mais por divertimento.

O trato linguístico é singular primeiro porque ele é a fonte da qual nasce todo o trabalho com a linguagem, característica superior quando se fala em literatura enquanto arte. Isto é, o texto clássico não é apenas primordial do ponto de vista temático ou do enforme do enredo ou construção do texto, mas a própria conformação linguística como substrato literário tem aí sua base e leva-nos a entender, por exemplo, em que instante ou lugar hoje nos encontramos.

Fora esse aspecto meramente induzido pela minha formação em Letras e, logo, distante dos que não se enquadrarem nesse grupo, os clássicos parecem ser necessário porque dizem muito de nós mesmos e de nossa natureza humana; e como esta parece não mudar nunca, visto que, as mesmas inquietações perante a questões sobre a existência, o amor, a morte etc., lá estão atualíssimas a ponto de ser-nos primordial também na compreensão de nós enquanto humanidade. Substancialmente, então, textos como a Odisseia sempre nos vão iluminar quanto a nossa natureza e ação humana.

Vou recortar aqui tão somente o ato de Ulisses em sair de sua Ítaca sem um rumo predestinado. Esse ato é significativo na história da humanidade porque marca um enfretamento do homem contra as suas próprias criações, os deuses. Quando se pensa que todos os terrenos teriam predestinações divinas de um determinado deus e logo estavam reduzidos ao gesto amador de ser o que lhes foi destino, Ulisses toma as rédeas e se lança numa viagem que gestará no âmago dos próprios deuses o respeito por sua atitude e uma força (até então inexplicável) para que sua empreitada dê certo. Evidentemente que o triunfo ainda será dos deuses pela as ajudas concedidas ao longo do itinerário errante da personagem. Mas, o ato, este representa e muito a inversão de papeis – a inauguração do homem-deus. E isso não diz de nossos embates pessoais com o Criador? E não temos sempre a tentação irresistível de mexer com aquilo que diz superior a nós ou nos impõe modelos autoritários de conduta? Uns mais, outros menos. E Ulisses vai pertence ao primeiro grupo. Desse modo entenderemos não o óbvio, isto é, de que a Odisseia é um texto no qual as pessoas estão sempre a serviço dos deuses, para entender que acontece também o seu contrário, os deuses são meros facilitadores das ações que já estão impressas nas personagens. Ulisses, pelo ato assumido da errância, faz as coisas acontecerem, sob custódia dos deuses, mas pelo tipo de pessoa que ele é e os deuses representam aí o elemento do acaso. E, agora, novamente pergunto: somos ou não somos todos descendentes da ideia de predestinação ou crentes na qualidade do eventual como parte enformante da nossa existência?

 

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