João Gilberto Noll, voyeur de todos nós



Alguém escreveu que João Gilberto Noll foi um cronista da intimidade humana e revelou, com sua obra, os nossos recalques e o que, mesmo inconscientemente costumamos negar que somos. É uma definição muito apropriada. Se o mundo literário do escritor é o do que se esconde, esse mundo também chegou a ultrapassar as fronteiras da obra: Noll, ele próprio, não foi o escritor que, mesmo incensado pela crítica acadêmica, quis estar à frente dos holofotes. Se alguns podem atribuir esse interesse à timidez ou mesmo ao zelo da imagem, que esta seja sobreposta pela obra produzida, com a afirmativa sobre seu interesse literário, esse não-estar na impulsão da fama tem, logo, outra dimensão. É que, concordemos ou não, há entre o universo ficcional e o de fora da ficção, vasos comunicantes que inter-relacionam um e outro ao ponto de confundir-se fronteiras. Talvez porque essas fronteiras não existam, como é preferível acreditar num tempo de destituição de divisores.

Logo, a exposição do que negamos, corpo e pulsões, não é mero recurso imaginativo de um escritor interessado em compor uma estética fundamentada no encalço do que as teorias psicanalíticas andam a dizer de sujeitos. É uma realidade velada que se revela; a exposição do que fazemos quando ninguém nos vê. Por isso, toda sua obra é uma maneira de ler o outro pelas dimensões do que dele ocultamos e do que ocultamos de nós. E esse trabalho é uma grande tentativa de ruptura com os padrões que nos foram, direta ou indiretamente, impostos e contra os quais criaram-se leis e deveres de controle, num contínuo exercício de domesticação dos instintos. Ou seja, é mais uma peça na extensa necessidade de desconstrução de um modelo social em desajuste com os seus sujeitos.

João Gilberto Noll, portanto, é desse tempo de destituições e fez do universo literário um laboratório para experimentos com a linguagem. A constatação diz sobre o silêncio que grande parte da grande mídia vez em torno de sua morte ou à redução da perda irreparável a factoide escondido por debaixo das querelas mais fúteis, o suprassumo do lixo cultural que diariamente em doses cavalares nos obrigam a engolir. Por que uma mídia conservadora, numa sociedade arcaica e arcaizante como tem se demonstrado nos últimos anos o Brasil, daria atenção a um escritor cuja obra denuncia sobre a mortal solidão dos marginalizados por esse sistema? E quando uma obra que zela pelo papel indispensável da criação literária, ser oxigenação da língua, ganhou dedicação dessa mesma mídia interessada no discurso fácil, raso e que atenta contra a capacidade do leitor em aventurar-se nas sendas de seu próprio idioma?

Se se repetir o de sempre, acontecerá de ser Noll o escritor do futuro. Deixou-nos uma obra prolífica – não apenas quanto aos temas, mas quanto aos gêneros – e uma obra que marcou alguma renovação nas produções literárias brasileiras de a partir da década de 1980, quando já começávamos a deixar de ter alguns dos nomes mais criativos da nossa novíssima literatura. Descontando os inéditos que há muito estão em moda aparecer, mesmo quando os escritores deixam dito que não apareçam, são dezoito títulos, dos quais, treze são romances, dois infanto-juvenis e três de contos – a forma narrativa pela qual começou seu trabalho com a escrita.

Nasceu em Porto Alegre em 15 de abril de 1946. Definiu-se como “um homem da palavra transfigurada”. Assíduo leitor desde criança passou a vida inteira negando suas influências, embora a crítica o filie a escritores como Clarice Lispector, pelo tom intimista de sua narrativa, e à literatura urbana de Nelson Rodrigues, marcada pelos temas do isolamento dos indivíduos, o recalque, a violência e os entraves com a psique. 

O primeiro texto que escreveu foi “Alguma coisa urgentemente”, um conto que mais tarde foi incluído no seu livro de estreia O cego e a dançarina. Neste livro, aliás, estão as bases de toda a literatura de Noll, como é destacado por Fábio Figueiredo Camargo: “Nessa estreia do autor há uma linguagem depurada que se pode ver em romances posteriores, mas também há espaço para a linguagem barroca demonstrada em A fúria do corpo. Já estavam presentes os narradores nômades em constante deslocamento tanto por lugares geográficos, muitas vezes não mapeáveis, mas também os sujeitos errantes da existência, marca maior de suas personagens, em perambulação constante que lhes permite a contemplação tão cara ao escritor gaúcho”.

Em grande parte, sua narrativa se constitui pela mesma voz: a do sujeito tímido, de voz embargada, acanhada, obsessiva, compulsiva. “O que eu demonstro nos meus livros é a voz de um homem que habita em mim e que não sendo propriamente eu se transfigura em alguém que eu não poderia prever. É esse o meu protagonista”. E esse tom foi encarnado diversas vezes pelo próprio João Gilberto Noll, reafirmando outro caráter do escritor: a tendência para a performance, esse exercício de materialização oral do texto tão caro ao tempo de sobreposição do código escritural. 



Nestas intervenções públicas, o escritor se tornava o aedo do nosso tempo, o que, ao invés de contar os feitos heroicos de um povo, dizia-nos sobre nossa impotência frente ao mundo. “Por isso, quando escrevo a palavra tem aos meus ouvidos uma vibração mais musical que semântica. Uma coisa prestes a materializar uma ideia mas por enquanto ainda relampeja tão-só a sua verve física como se fosse pura melodia, para num segundo momento então se inserir numa ordem narrativa – podendo aí sim irromper o encontro cabal dessa espécie de veia túrgida e insone da escrita com a suculenta vigília do leitor”, disse o escritor, reafirmando, assim esse lugar do aedo pós-moderno.

Ao revelar o que se oculta ou que ocultamos, Noll atenta para outra condição tornada tabu, quase pecado na sociedade individualista: olhar. Ao deixarmos de olhar para o outro, sobre o que se passa com o outro, perdemos uma das marcas fundamentais do ser: a da alteridade. E em consequência, o hábito de olhar para nós mesmos e percebermo-nos em nossa inteireza e nossas faltas. Na mesma linha, a capacidade de fabulação do mundo, dimensão que nos diferencia dos demais animais. E é, portanto, uma obra em apelo à vida e às contradições que nos definem. É uma obra que se constitui do ato de roubar da observação íntima o que, pela conveniência de não ver ou saber do outro não mais roubamos.

Premiado cinco vezes com o Prêmio Jabuti, com o Prêmio da Fundação Guggenheim e da Academia Brasileira de Letras, morou no Rio de Janeiro, quando começou a escrever para jornais como Folha da manhã e Última hora, nos Estados Unidos, onde foi escritor-residente e professor convidado, da obra de Noll, se destacam ainda A céu aberto, onde se verifica a depuração radical da linguagem, Hotel atlântico, Acenos e afagos, Harmada, A fúria do corpo, Bandoleiros e Lorde. Vários de seus livros e contos tiveram adaptações para o cinema, o que fez com que, mais tarde, o escritor se interessasse em compor roteiros para o teatro: em 1992, escreveu Quero sim, que foi dirigida por Marcos Barreto. Entre as releituras de sua obra pela sétima arte, destacam-se a adaptação de “Alguma coisa urgente” como Nunca fomos tão felizes, Harmada e Hotel Atlântico, este dirigido por Suzana Amaral.

O escritor morreu no dia 29 de março de 2017.



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