Hilda Hilst e não outra



Por Pedro Fernandes





Há pelo menos duas direções comuns às narrativas quando o assunto é a biografia de um artista. Uma delas é tentar acompanhar sua obra na busca por uma compreensão sobre sua personalidade, investigando como determinadas peças estão imbrincadas a contextos da vida pessoal do criador e revelando em simultâneo, por conseguinte, episódios biográficos e criativos, como se uma cartografia combinando vida e obra. Geralmente, esses trabalhos são conduzidos por acadêmicos e ao passo que podem se apresentar como o mais completo também podem se perder no excesso das interpretações infundadas – sobretudo para os casos em que, e é a coisa mais comum, a obra não é produto de um determinado momento da vida de seu criador, mas peça independente.

As situadas na outra direção – e nesta se insere Eu e não outra: a vida intensa de Hilda Hilst, de Laura Folgueira e Luisa Destri – procuram acompanhar à distância, como se um expectador curioso, ou um detetive, a vida do biografado. Este modelo de composição é recorrente entre os jornalistas e costumam dosar entre o fato determinado pelo documento, que pode ser a entrevista, o depoimento ou mesmo a anedota dos que conviveram com a pessoa, entre outros elementos, e certa vivência sobre a obra, mas sem se preocupar em articular os meandros desta para com os acontecimentos escrutinados pelo analista. Poderíamos mesmo dizer que este modelo prima mais por uma objetividade e está interessado apenas no registro dos traços fundamentais que, uma vez juntados pelo leitor, formará para ele uma imagem acerca do biografado.

Coincidentemente ou não este modelo é utilizado basicamente para os casos em que a personalidade biografada ainda não recebeu o merecimento do exercício de refundação sobre sua vida pelo aparelho verbal que é todo o resultado daí derivado. Quer dizer, de alguma maneira, parece se fazer mais coerente a construção de um retrato capaz de ser presenciado nas circunstâncias documentais, o que significa dizer sobre a existência de uma preocupação com a verdade da pessoa e a sua não transubstanciação em persona. Ressoa aqui certo bolor da história enquanto a verdade absoluta sobre o que mostra; bolor porque é notável, desde sempre e ainda mais depois do alvorecer da Nova História, que as verdades são múltiplas e construídas, bem como determinadas pelo ponto de vista de quem se prontifica fabricá-las, logo a verdade pura e sã está apenas no plano das possibilidades.

Se por um lado, essa ideia da verdade da pessoa é um incômodo em toda biografia feita mais objetiva, por outro – se considerarmos o momento de sua apresentação, isto é, o de ser a primeira a cair em circulação – reside certa preocupação ou zelo do biógrafo para com a imagem a ser retratada. Tal mérito, entretanto, não deve nunca ser depreciado. Uma primeira incorrência pode ser a incorrência de sempre. Portanto, é justamente aqui que encontramos uma pequena redenção do método. Mas, ainda será necessário recorrer a outros elementos para tanto. Afinal, se um texto dessa natureza resulta na compilação de uma série de acontecimentos eleitos pelo biógrafo como fundamentais para a composição do seu retratado, qualquer deslize pode servir ao fracasso total do projeto.

Felizmente, não é o que acontece com Eu e não outra. As autoras, parece que justificam, sem fazê-lo explicitamente – o que, se fosse ao contrário, seria também mau augúrio – suas escolhas de ponto de vista não apenas pela objetividade com que se dispõem a recriar a vida de Hilda Hilst, mas desde expressão que tomam por título para sua obra. Quer dizer, estão interessadas em apresentar aos seus leitores um retrato exclusivamente da biografada ressaltando uma sua singularidade, podemos dizer, entre tantas – a intensidade. Comungam de maneira muito acertada com o que pareceu ser todo trabalho da própria Hilda Hilst: constituir-se em figura única no âmbito da cultura brasileira, tarefa, aliás, que é a ousadia de todo aquele que almeja estabelecer-se como singularidade da-na sua cultura.


Em alguns casos essa busca é reconhecida em vida e os florins da glória lhe servem ao menos para uma cômoda velhice; noutros, o criador é passado ao limbo e restará apenas as forças dos que com ele conviveu ou dos seus poucos discípulos para a consolidação do reconhecimento. E como todo reconhecer é meio obra do acaso, às vezes, nem este esforço. Quer dizer, o que todo criador deve sempre contar é que tem desde sempre o esquecimento total. O fato é que, todo reconhecimento, é produto de certa argúcia. Ao compreender-se um incompreendido, resta-lhe, por exemplo, no caso daqueles que fazem seus discípulos, a educação deles enquanto se esmera seriamente no modus criativo no qual se reconhece e pelo qual luta por estabelecer reconhecimento.

A trajetória de Hilda Hilst como contada por Laura Folgueira e Luisa Destri demonstra a todo o tempo duas importantes águas favoráveis a que, tantos anos depois, algum esboço de reconhecimento venha à tona. Primeiro, a escritora de grandes ideias e literatura pequena, como sublinhado por alguns de seus mais íntimos e competentes amigos. Depois, a escritora tomada da obsessão por um projeto que a levou dessa condição à de importante nome da nossa literatura, a que depois, esteve entre a angústia do reconhecimento, que só lhe chegou quando viva em pequenas – ou quase-nenhuma – doses, e, por fim, a que ao lutar por ser lida, lutou ainda pela não-massificação da sua obra.

Todo criador é feito de suas convicções. E Hilda Hilst desenvolveu plena consciência delas, porque se dispôs a redefinir o curso possível da sua vida para um só propósito: a literatura. Foi desta, não uma serva obediente, que esta é condição que só afundaria ainda mais sua largada fracassada. Foi uma figura impertinente – que ousou violentar todas as frentes que no seu tempo faziam da literatura um lugar intocado, sagrado: pela língua, pela linguagem, pelos temas, pelas figuras, pelos gestos de ser e estar escritora, pelas relações extremamente perturbadas que assumiu com editores, jornalistas, críticos, academias, isto é, com as rupturas que assumiu contra o status quo.

E, porque sabedora, depois de grande parte da vida dedicada ao desfazimento de status quo, não alcançar o merecido reconhecimento – afinal parece-se que este e mesmo a arte estão sempre de costas para os seus criadores – foi terna com aqueles que via estarem na sua. É claro que o talento e a criação superam tudo e poderiam estabelecer o lugar devido de Hilda Hilst; mas esse processo só foi antecipado porque soube fazer seus discípulos – seja os que conviveram proximamente com ela e que continuaram no trabalho por sua obra e sua memória, seja porque sabia falar aos seus leitores ao ponto de torná-los em espécies seduzidas pelo seu universo poético e fabular, ao ponto de permitir a existência dessa biografia que, como bem se apresenta, é um vislumbre da personalidade e da história de Hilda Hilst. Para tanto, cumpre ao que veio.

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