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Mostrando postagens com o rótulo Hilda Hilst

Ler Kadosh e entender Kadosh é ser Kadosh

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Por Felipe Vieira de Almeida Hilda Hilst. Foto: Irmo Celso Na tela do Cinema da Praça em Paraty, Hilda ganhava vida buscando contato com os mortos, vagando pela chácara em Campinas que hoje abriga o Instituto Hilda Hilst. Uma senhora HH, encarnada pela atriz Luciana Domschke, com microfone, fones de ouvido e gravador tentava detectar alguma frequência de origem incerta. O título do filme de Gabriela Greeb é um acerto: Hilda Hilst pede contato . Lembro de ter conhecido os livros de Hilst poucos meses antes do anúncio da Flip 2018, àquela altura tinha lido com sede tudo que estava facilmente acessível nas livrarias e até garimpado alguns títulos fora de impressão em sebos. Ainda estava sob forte influência dessas leituras quando a a organização do evento de Paraty anunciou HH como homenageada naquele ano e me vi obrigado a ir, Hilda pedia contato. Hilda Hilst ainda é mais conhecida do público geral por sua obra dita despudorada que é, quando lida superficialmente, resumida a algum tipo d...

A palavra despida: O caderno rosa de Lori Lamby

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Por Leonardo Prudêncio Hilda Hilst. Foto: Pio Figueiroa   Este trabalho pretende analisar a simbiose que a autora Hilda Hilst provoca em seus leitores ao mesclar textos de diversas formatações e tipos mais o artifício das ilustrações, no romance O caderno rosa de Lori Lamby (1990). Embora as ilustrações tenham ficado a cargo de Millôr Fernandes, e eles não tenham trocado informações entre si sobre como deveria ser feito o trabalho, percebe-se que na edição original, onde a totalidade desse trabalho gráfico foi apresentada, há não apenas um diálogo entre imagem e texto, mas uma simbiose de signos linguísticos que começam no texto e perduram nas ilustrações.   O livro em questão foi elaborado dentro de um projeto de literatura obscena denominado, por alguns, como “Tetralogia obscena”. A reunião desses quatro trabalhos ( O caderno rosa de Lori Lamby ; Contos de escárnio — textos grotescos ; Cartas de um sedutor e Bufólicas ) se deu em um volume chamado Pornô chic (2014). Nessa...

“Uma nova mulher e a moral sexual”, de Alexandra Kollontai, e o desenvolvimento da produção literária de Hilda Hilst

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Por Beatriz Martins Hilda Hilst. Foto: Renata Falzoni “Durante 40 anos, Hilda Hilst foi uma moça muito bem comportada. Ela produziu muito: mais de 28 livros de poesia, prosa, textos belíssimos de teatro que continuam inéditos. De repente, Hilda Hilst se rebelou”. Esta é a introdução da entrevista concedida a TV Cultura, quando do lançamento d’ O caderno rosa de Lori Lamby . No que Hilda responde considerando-o um ato de agressão (para além de transgressão, donde há de se ver o caráter radicalizado da obra), uma necessária banana ao mercado editorial delimitado a partir dos ideais patriarcais. (Vídeo disponível aqui ) A nova mulher contemporânea emerge duma ressignificação de valores e necessidades, a qual é posta num movimento verticalizado, de cima para baixo, a todas as mulheres. Esta diferenciação passado-presente é desenhada continuamente na obra de Alexandra Kollontai, teórica feminista e marxista e, sobretudo, revolucionária. Em sua obra A nova mulher e a mor...

Hilda Hilst e não outra

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Por Pedro Fernandes Há pelo menos duas direções comuns às narrativas quando o assunto é a biografia de um artista. Uma delas é tentar acompanhar sua obra na busca por uma compreensão sobre sua personalidade, investigando como determinadas peças estão imbrincadas a contextos da vida pessoal do criador e revelando em simultâneo, por conseguinte, episódios biográficos e criativos, como se uma cartografia combinando vida e obra. Geralmente, esses trabalhos são conduzidos por acadêmicos e ao passo que podem se apresentar como o mais completo também podem se perder no excesso das interpretações infundadas – sobretudo para os casos em que, e é a coisa mais comum, a obra não é produto de um determinado momento da vida de seu criador, mas peça independente. As situadas na outra direção – e nesta se insere Eu e não outra: a vida intensa de Hilda Hilst , de Laura Folgueira e Luisa Destri – procuram acompanhar à distância, como se um expectador curioso, ou um detetive, a v...

Hilda Hilst e o inominável das palavras

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Por Fernanda Fatureto Hilda Hilst saiu do terreno das sombras. As sombras eram elementos presentes nas queixas da própria autora, que reclamava que lhe faltava em vida leitores e críticos interessados em sua obra. Escreveu mais de vinte livros de poesia, muitos de prosa e teatro. Recebeu o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA) em 1981 e o Jabuti em 1994, mas ainda assim afirmava que ninguém a lia. A partir dos anos 2000, sua obra começou a ser reeditada  – aumentando seu número de leitores. Dessa safra de edições, faz parte Fico besta quando me entendem (Biblioteca Azul, 2013), coleção de vinte entrevistas que Hilda Hilst deu dos anos 1950 a 2003 reunidas pela Editora Globo com organização do pesquisador  Cristiano Diniz. Alegava que, se muitos definiam sua literatura como inacessível, era porque lidava com o sagrado. Afirmou a Vilma Arêas e Berta Waldman em 1989: “A poesia tem a ver com tudo o que não entendo. Tem a ver com a solenidade...

É urgente redescobrir a poesia de Hilda Hilst

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Entre os nomes que ousaram intervir com os chamados temas pouco poéticos está o de Hilda Hilst. Isso está agora ainda mais claro porque se tem acesso ao mais completo panorama de seu trabalho com a poesia: a publicação de um novo volume que compila toda sua obra do gênero. Hilda, talvez pela razão de ser avessa a dogmas, aos modelos do establishment cultural de seu tempo,  e porque não se interessou pactuar com determinados grupos do Olimpo (leiam a expressão com a máxima de ironia possível), porque fez-se sozinha, foi parar no rol daqueles cuja obra melhor ficaria se caída no esquecimento. Contra essa última imposição podemos pensar na saída engenhosa construída por ela: muitas vezes, na parte de sua obra mais vista, passar-se pelo que não era (ou será que era?) no intuito de, enquanto se desfazia da voz comum de rebaixamento seu trabalho, se mostrar igualmente como as outras já ingressadas por toda sorte de subterfúgios ao panteão dos sacrossantos. Essa posição é a...

Hilda Hilst: a transgressão fundamental

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Por Neiva Dutra  "Ler é como pensar, como rezar, como falar com um amigo, como expor ideias, como ouvir música, como contemplar uma paisagem, como sair para dar um passeio pela praia..." estas palavras, do escritor chileno Roberto Bolaño, sintonizam perfeitamente com a apresentação de Hilda Hilst. A escritora brasileira, que nasceu em 21 de abril de 1930 e faleceu em 4 de fevereiro 2004, foi traduzida para o francês e o inglês desde a década de setenta, ao italiano e ao alemão desde a década de noventa, ao espanhol a partir de 2002. Viveu uma existência marcada pela emoção, a solidão e o amor, manifestando-se a favor da liberdade feminina em todos os âmbitos e no mais amplo sentido. Hilda Hilst é um dos protagonistas fundamentais da paisagem literária brasileira do século XX, com mais de quarenta livros escritos em verso, prosa poética, dramaturgia e crônica, publicados entre 1950 e 2003. É uma poetisa consciente de suas ações e de suas palavras; lúci...