Nietzsche, Pavese e o risco de caminhar sobre a memória


Por Mario Colleoni



Existem incontáveis formas de andar no mundo. Enquanto para uns é a clara afirmação da liberdade e da vida, para outros pode ser uma das muitas derivas irracionais do ser humano. Certa vez se disse que Platão caminhava cabisbaixo, quem sabe emulando Sócrates; Kant seguia uma ordem firme de pautas e costumes, como uma espécie de caligrafia do movimento; Rousseau, por sua vez, chegou a transformar o passear num autêntico modus vivendi; e Thoreau se atreveu a escrever um dos primeiros escritos que se conhece sobre as qualidades salvadoras do ato de caminhar. Não se contempla, entretanto, que o fato de andar, caminhar ou passear sejam acontecimentos excepcionais, tampouco estúpidos. Mas a verdade é que, cabeça baixa ou queixo erguido, percorrer o caminho de seus próprios passos pode chegar a se tornar um verdadeiro perigo, por várias razões. A primeira de todas elas é resistir o descrédito das certezas incomensuráveis como o poste de luz da esquina ou acabar atropelado numa avenida qualquer, embora exista quem literalmente, sem dúvidas, prefere correr o risco mortal do esquecimento antes de ser tragado pela terra. E qual é a diferença? Suicidar-se ou morrer.

É o caso de Frédéric Pajak, biógrafo, desenhista, ensaísta, filósofo: um caminhante irredimível sem medo da morte que desdobra seus próprios passos nos de outros homens que antanho recorreram a mesma estrada. Seguindo as passadas de Nietzsche e Pavese, Pajak não teme dar de cara com uma realidade de ferro forjada em Turim ou parecer-se Santo Stefano Belbo nessa ilhada intersecção que é a morte, nem lhe preocupam suas memórias na medida em que as resgata, e além disso, faz tudo com a liberdade de quem se reconhece na outridade, sem escamotear riscos e trajando uma máscara veneziana, sem necessidade de tomar partido, como tecendo a memória e colocando em prática a frase de Heráclito: “Eu me busco a mim mesmo”.

Já havia ensaiado em Martin Luther, l’inventeur de la solitude (Editions de l’Aire, 1997), uma biografia escrita e desenhada em primeira pessoa que, como ele próprio disse, “suscitou uma incompreensão quase unânime”, mas A imensa solidão [tradução livre de L'immense solitude] é um exercício tão pessoal que acaba sendo diferente. Sem se preocupar que o ensaio gráfico se torne um novo gênero literário, nos deixa este simulacro memorialístico de quem enfrenta nu a morte, sem medo de morrer pelo caminho e, mais, com um machado pendurado no pescoço de sua consciência. Com isso não ilustra nem seduz, apenas investiga. E porque não pretende divulgar a terribilità de Nietzsche nem o pessimismo de Pavese, porque o que se conta nele não é apenas a desolação da orfandade, um obscuro vazio onde às vezes não há túnel nem luz ao fim do mesmo, o livro se torna numa transposição indigerível de imagens e referências, um encontro entre a casualidade e o destino, um experimento epistemológico de viagem em cujo coração não se encontra nada mais que o trajeto, um caminho no qual Pajak quer reconhecer a profecia dos mortos que se reencarnam nos vivos para oferecer-lhes a lição inevitável de uma experiência expandida, jamais alheia e nunca temporal, com a qual o homem constrói seu próprio futuro.

Pensar e caminhar a solidão. A solidão de quem viu morrer os seus ou perdeu a cabeça entre medíocres. Como Nietzsche no manicômio de Sils Maria, que acreditava ver em seu enfermeiro o chanceler Otto Von Bismark. Ou Pavese, que desesperado pela ineficácia de sua insistência, não encontrou nas mulheres o amor que necessitava para continuar vivendo. Nisso é Pajak deve ter pensado no dia quando, ao acaso, perdeu seu pai. A verdade, afinal, é que viver é um ato imposto que às vezes sai-se destruído. Nietzsche pagou cara a ousadia de autoproclamar-se Jesus ressuscitado. Pavese recebeu na mesma moeda e sua diferença o levou à tumba. Pajak, ao contrário, se veste com o benefício do estigma e compôs o que qualificaríamos um testamento teológico, sagrado e profundamente humano. A viagem é a única coisa que justifica a miséria, a penúria e a ignomínia. É quando então aparece Heráclito ressurreto com o slogan de que talvez valha apena deitar mão na recordação para sobreviver à morte.

Em 1894, um pastor protestante de Röcken morreu devido uma “lesão cerebral”. É Karl Ludwig, o pai de Nietzsche. O rapaz tem apenas cinco anos. Longe dali, numa pequena localidade de Piemonte, próxima a Turim, Eugenio Pavese morre em decorrência de um tumor cerebral. Cesare tem seis anos. Por último, o acidente de carro que põe fim à vida do pai de Fédéric Pajak faz com que este, com apenas nove anos, veja – sem ver – as intersecções desta espécie de ménage à trois existencial. Aqui está a mobilidade fidedigna da loucura, quando Nietzsche diz: “Voltem, forças do mal! Neste mundo belo também existem desgraçados! Mas o que a desgraça?” Por mais profeta que Nietzsche fosse, e não dizemos da boca para fora, assim certificados pela releitura de sua obra, ninguém com quinze anos é capaz de predizer a perda da razão aos quarenta e quatro e a vida aos cinquenta e cinco. Muito menos Pavese, cuja poesia se viu fraudulentamente marcada por cifra prosaica e anódina do suicídio.

Logo está Turim e sua singularidade: “Frutas, cachos de uvas morenas e açucaradas, mais baratas que em Veneza!” dizia Nietzsche maravilhado. Que o filósofo pensasse da cidade piemontesa, elegante e serena filha das Luzes, que fora “magnífica e benéfica”, não mitiga de nenhum modo a tradição maldita que passava sobre ela. Foi o satanismo que alertou Montesquieu a dizer aquilo de “Aqui, as muralhas falam”, tendo em conta, por exemplo, que a igreja da Grande Mãe de Deus – cujos arredores curiosamente eram frequentados por Nietzsche – se encontra despojada em sua cúpula da devida cruz; e talvez o mesmo que moveu o papa João Paulo II a dizer que em Turim “a história da salvação se vive como um desafio, como uma provocação”. Como podia o vigário de Cristo poderia estar ciente disso? É impossível! Não, é apenas um exemplo. Pajak constrói com dados semelhantes um relato espectral a galope entre a concordância, o acaso e a premonição. E assim se passam as anedotas, as referências e as personagens. Pavese sucederá Nietzsche (“No escuro a água se parece com os anos mortos”) e Giorgio de Chirico a Pavese, e então vai se formando uma teia de aranha transpassada pela agulha de Natalia Ginzburg, Franz Overbeck ou Georges Bataille. A reminiscência continua sendo uma forma privilegiada de aproximação ao conhecimento.

Agora, não se trata, em sentido digestivo, da biografia intelectual de um ou de outro. Tampouco se resolvem dúvidas sobre o dilema filológico da Vontade de Poder em Nietzsche ou se Pavese carregava nos ombros uma fatídica ejaculação precoce. Não conclui nada, mas isso não faz falta nenhuma. Pajak desloca todo seu armamento memorialístico e coloca-o a serviço da forma, ilustra e percorre como quem anota uma nota em pé de página. Por isso, justificá-lo aproximando-o com personagens de semelhantes tonalidades como Walter Benjamin (a memória, a viagem e outras árduas questões) ou Sebald (muito mais adequado), , além de um exercício gratuito, parecer-nos-ia um exercício impróprio para um livro que per se não necessita de justificativas. Mas, por mera empatia, é um processo de osmose que com frequência está vetado para o comum dos mortais. Eis aqui um milagre. Não aspira outra coisa que expurgar o dano da desaparição sem mais, sem vestidos, sem maquiagem, sem fórmulas publicitárias. É a salvação através da memória, com tudo de bom e de mal que isso implica. Algo parecido a aqueles últimos versos de Pavese: “Será como deixar um vício, / como ver no espelho / ressurgir uma face morta, / como ouvir de lábios fechados. / Mudos, desceremos ao abismo”. Afinal deve ser verdade que um dia se virá a morte e ela terá nossos olhos.

* Este texto é uma tradução livre de “Nietzsche, Pavese y el riesgo de caminar sobre la memoria”, publica aqui em Jot Down.

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