Gregório de Matos: preso e morto por crime de poesia


Por Joaquim Emídio




A literatura em língua portuguesa ganhou em Novembro de 2014 um livro de Ana Miranda intitulado Musa praguejadora. A vida de Gregório de Matos. Encontrei o livro no início de 2020 numa livraria de Fortaleza, onde não ia há quase 20 anos, e tive oportunidade de ler as suas 555 páginas demoradamente, durante duas semanas, rendido à escrita magistral e admirável de Ana Miranda.

Não sei se há por aí livro que rivalize com Musa praguejadora, biografia romanceada que conta a vida de Gregório de Matos, e é um retrato admirável da História de Portugal e do Brasil do século XVII, retrato de mulheres da época que foram amadas e rejeitadas até ao tutano, da mesma forma apaixonada e violenta como era o espírito e a natureza de Gregório de Matos; história de guerras físicas e verbais que recordam, pelo prazer da leitura, páginas de Camilo, Aquilino, Eça, Ricardo Jorge e, mais lá para o tempo de Gregório de Matos, o Padre José Agostinho de Macedo. Não me estou a esquecer de Almada Negreiros, que é o mais contemporâneo de todos os escritores citados. Quero lembrá-lo, acima de tudo, pelo seu manifesto anti Dantas. 

No Musa praguejadora, de Ana Miranda, entre as páginas 419 a 425, escreve-se um dos mais violentos ataques ao poder político desses tempos de antanho, coisa que certamente não voltará a encontrar-se por aí nem que se virem gavetas e se arrombem bibliotecas joaninas. Gregório de Matos pagou, pelo prazer de escrever o texto, uma prisão de cerca de dois anos, “comendo as doze”, ou seja, levando pancada de doze em doze horas, e depois a deportação para Angola, onde esteve cerca de um ano, para depois regressar ao Brasil, mas não à Bahia, por proibição do novo governador, que o queria longe da terra natal e dos da família de António Luís da Câmara Coutinho (conhecido também pela alcunha de Tucano), o governador colonial que o poeta atacou com “ódio, constança e cruel temeridade”, como nunca aconteceu ao longo da sua vida com outra pessoa. Apesar de naquele tempo o grau de doutor (como era o caso), a condição de fidalgo e membro das ordens militares, permitisse a libertação sob juramento, Gregório de Matos não teve esse direito; foi prisioneiro por razões políticas, prisão ordenada e acompanhada pelo governador colonial: “Prisão de preceito, ou seja, por mando. Estava preso por crime de poesia”.  

Gregório de Matos voltou de Angola para o Recife mas só teve mais um ano de vida. Perdeu todos os bens de família, nunca mais viu os filhos e a mulher, e os seus últimos meses de vida foram vividos “no meio de gente acolhedora que lhe abriu as casas e o chamou para a sua mesa”. Mas não voltou a incomodar, com os seus versos satíricos, os padres, os magistrados, advogados, militares e governantes, embora a situação em Pernambuco fosse semelhante à da Bahia. Meses antes tinha morrido o Padre António Vieira, que foi um dos seus maiores amigos e protectores, chegando a escrever ao Rei em sua defesa quando Gregório de Matos destratava, também em versos, o governador colonial António de Sousa Meneses, conhecido por “Braço de Prata”, o mais glosado dos políticos nos versos satíricos do “Boca do Inferno”.

O poeta era tão certo das suas dores de consciência que nem a si se poupou nas sátiras que escreveu, já em final de vida, quando percebeu que a viagem para o desterro, em Angola, seria o princípio do fim da sua história, e histórica, vida de poeta e boêmio.

A Musa praguejadora, de Ana Miranda, abalou o meu espírito adormecido pela literatura “choca” que tenho lido nos últimos quatro anos, tempo que levei a descobrir nas estantes das livrarias esta Obra-prima da literatura em língua portuguesa, que não passou ao lado, como é norma, da justiça literária do seu tempo, ao ganhar, em 2015, o prémio literário da Academia Brasileira de Letras. 

Só quando encontramos assim um livro escrito de uma forma genial, a um ritmo avassalador, sem quebras na qualidade da escrita, e no interesse dos temas abordados, percebemos o quanto vale o preço de um livro, e, mais do que isso, o preço do trabalho de um escritor. A Musa praguejadora é um livro para apaixonados por escritores malditos, sem freio na língua, como o Padre António Vieira, que é contemporâneo e amigo de Gregório de Matos, mas com uma língua mais afiada e, acima de tudo, obscena, que é isso que o diferencia de todos os poetas do seu tempo e, por que não dizê-lo, dos autores destes tempos de coronavírus, que escrevem romances apaixonados pelos seus nomes literários, mais do que pela literatura, rendidos aos seus ricos, cheirosos e importantes editores, de quem são “amigos do coração e das cuecas”, para citar um ditado popular da minha terra.

Quem ler Musa praguejadora vai encontrar uma parte importante da História de Portugal e do Brasil como ninguém escreveu até hoje; a obra e a vida do “Boca do Inferno” é contada e recontada pela pena de Ana Miranda que, no final do livro, avisa que as páginas em itálico são adaptações de textos de Gregório de Matos com alguma ficção à mistura.

Reparem na prosa que Ana Miranda roubou à vida e à obra de Gregório de Matos para dar conta do que ele sabe do rei dom Afonso VI, enquanto estuda direito em Coimbra, para mais tarde chegar a Juiz da Comarca de Alcácer do Sal, e depois Juiz do Civil em Lisboa, antes de voltar ao Brasil e à sua Bahia natal: “O rei dom Afonso VI, lascivo, violento e vulgar, que está a tramar contra a própria mãe, governa muito atabalhoado, é um rei menino inocente, que não tem compaixão nem piedade, inimigo da verdade, só tem vícios, está a desgovernar e a fazer perder-se o Reino, sua virtude é pecar. Ambicioso, avarento, persegue os pobres com altos tributos, é desumano, matador, bruto, cruel tirano, como ele jamais houve neste Reino”. 

E entre muitas páginas do livro em que se conta da vida e dos costumes da época de Gregório de Matos, em Coimbra, em Lisboa ou em Alcácer do Sal, Ana Miranda recupera a licença de casamento do poeta com Michaela de Andrade, em 1661, ele com 25 anos e ela com 19, para, em cima da assinatura do poeta, analisar a “sua letra bem riscada, bonita, segura, alguns traços rebuscados, dando a sensação de esmero e afectividade”, acrescentando a esse momento importante da vida do poeta, enquanto viveu em Portugal, que nesses tempos “casar era um passo importante para qualquer homem português; apenas os casados, sobretudo o que tinham filhos e criados, podiam exercer certos cargos públicos e fruir de plenos direitos políticos”.

Ana Miranda desenvolve aos longo das 555 páginas de Musa praguejadora uma escrita tão cuidada e incisiva que cada página é uma lição de como se escreve de forma poética sobre vidas inspiradas, mas também sobre o quotidiano mais surpreendente, ou mais sensual, como os das freiras do Convento de Odivelas, que “moravam em celas forradas de seda, em vez de catres, dormiam em camas acortinadas e macias, tomavam chá em xícaras de porcelana, vestiam por baixo do hábito roupas de renda e cetim, usavam cosméticos na pele, pintavam os lábios, e passavam o dia a ler, tocar, dançar, pôr apelidos, namorar, fuxicar e fazer doces. Não podendo entregar-se em carne a todos os seus admiradores, muitas freiras davam-se a eles nos bolos e caramelos”. Gregório de Matos foi um enlevado freirático desde os tempos de estudante, conta Ana Miranda, que recorda como, nesses tempos, para um homem era feito muito maior conquistar uma feira que qualquer mulher de outra condição.

Ana Miranda leu e estudou durante muitos anos a prosa e a poesia de Gregório de Matos. O seu romance Boca do Inferno, livro premiado, que teve em 2019 uma edição comemorativa dos 30 anos de publicação, é a melhor prova dessa admiração. Mas não é a fortuna de leitora que faz uma boa escritora, e, muito menos, uma boa biógrafa. Ana Miranda foi muito mais além e captou aquilo que para mim é o maior segredo da vida e da escrita do “Boca do Inferno”: a sua adoração pelas mulheres; e a descrição que Ana Miranda faz de cada uma das Musas conhecidas, que preencheram a vida de Gregório de Matos, é um dos maiores encantos do livro. Para provar que a autora não entregou o seu livro aos leitores como quem entrega uma Obra acabada, na página 516 aparece “O ramilhete de flores”, que descreve e explica quem foram todas as mulheres da vida de Gregório de Matos. Faltam nas 21 páginas do “ramilhete” os nomes das muitas e belas mulatas que ele amou, assim como os nomes de algumas mulheres a quem costumava dar nomes poéticos para salvaguardar as suas identidades ”.

“Um provérbio da época dizia que as mulheres deviam sair de casa apenas três vezes na vida: para serem baptizadas, para casar, e para serem enterradas”. Ana Miranda conta os amores do poeta Gregório de Matos no papel de uma das suas amantes, como se o tivesse ouvido tocar e cantar os versos que compõem a sua Obra, fosse testemunha das suas declarações e juras de amor para toda a vida, testemunha igualmente do poeta que queria de cada mulher por quem se apaixonava “a Eva que não escondia a parte que cabia ao seu Adão”, mas também o poeta misógino que “quando não estava apaixonada por uma mulher, estava apaixonado por todas”.

Musa praguejadora é um livro de retratos femininos únicos na literatura de língua portuguesa, apesar de Camilo, Eça e Machado de Assis, entre outros génios da literatura em língua portuguesa. Retrata ainda, como não existe em outro livro de História de Portugal e do Brasil, a luta de um poeta contra os poderes instituídos e a sociedade da sua época.

Fixemo-nos, para terminar, em algumas figuras femininas que marcaram a vida do “Boca do Inferno”, que deram sentido à sua vida e que, certamente, o inspiraram para o combate político contra os poderosos governantes coloniais, entre eles o “Braço de Prata” e o “Tucano”, alvo, com já referimos, do texto mais demolidor que algum dia se escreveu contra uma autoridade.

Com Brites “ele não vê aquela que o faz ficar cego. Vê tão-somente a casa onde ela mora, como a concha, e não se contenta de não ter a pérola”. De Mariana, que sofre de uma doença fatal, fica a mais triste recordação: “Metem-lhe sal na boca, mas não faz efeito, pois quem é luz do mundo sal da terra há-de ser”. Maria dos Povos é a mulher que, no Brasil, mais marca a sua vida e lhe dá dois filhos. Apanhado um dia em situação de adultério, não tem como dar desculpas, “pois quem sente gosto na culpa perde o gozo ao se desculpar”. Foi ela a que mais sentiu na pele e na carne as alturas em que o poeta era igual a todos os homens do século XVII, fossem escritores ou moços de recados: “as mulheres deviam ser submissas até quase à escravidão”. A história com Bubu também não deixa boa impressão do poeta embora ele tivesse sofrido tanto desse amor que fez o seu testamento como se fosse morrer de verdade de tanto a amar. A verdade é que ela, depois de tanta perseguição, consente dar-lhe o prémio da sua virgindade, mas em pouco tempo adoece e morre. O que fica na história é que ela era meretriz e morreu de doença do útero.

Gregório de Matos “dava a impressão que perdia o interesse e o respeito pela mulher que não se negasse” às suas investidas amorosas. “Decerto o sofrimento causado pela rejeição inspirava o poeta pois a maioria de seus versos a mulheres nasceu do duelo da sedução e do sentimento” . “Era preciso amar mulheres impossíveis”, escreve Ana Miranda no capítulo a seguir à morte de Bubu, para concluir que, citando Pedro Calmon, “foi nessa época da separação de Maria dos Povos que o poeta voltou, muitos anos depois, a seus ardores pelas mulheres mais interditas: as freiras”.

Ana Miranda não deixou nada ao acaso neste livro que considero uma dos livros da minha vida, pelo interesse que me desperta a Obra de Gregório de Matos mas, também, pela forma genial como a escritora elevou o espírito da Vida e da Obra do poeta que, como os antigos escultores do tempo dos Imperadores romanos, não assinava os seus textos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Boletim Letras 360º #403

Os mistérios de “Impressão, nascer do sol”, de Claude Monet

Um herói de nosso tempo, Mikhail Lermontov ou o mito romântico

O caminho de Mônica também é nosso. Uma leitura do livro Mônica vai jantar, de Davi Boaventura

Para o meu coração num domingo, de Wislawa Szymborska

O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez