O espaço mínimo para a memória


Por Paula Luersen

Foto: Ishiuchi Miyako


Uma blusa cor-de-rosa de mangas curtas, gola dobrada, pequenos botões. Ao que tudo indica, uma blusa cor-de-rosa de tamanho médio. O tecido está amassado. As mangas estão rasgadas. Faltam os primeiros botões. Nas costas e na lateral, mistura-se ao cor-de-rosa um tom terroso que também aparece salpicado em outras partes do tecido. É o vestígio material de uma tragédia. Antes, ali, entre rasgos e manchas de terra, habitava um corpo. A blusa foi fotografada pela artista Ishiuchi Miyako e é uma das peças de roupa que compõem o memorial das vítimas da bomba de Hiroshima, no Japão.

Uma série de placas de mármore com imagens gravadas. Pela sequência de fotos e textos informativos, entendemos que ali está a narrativa heroica de uma guerra. Na placa de mármore final, a imagem derradeira: o grande cogumelo causado por uma explosão nuclear. Logo abaixo da imagem, uma descrição curta a situa como um registro da bomba de Hiroshima. Acima da imagem, em letras maiúsculas, lemos: VICTORY. A placa é parte de um memorial da Segunda Guerra Mundial, em Nashville, Estados Unidos.

Em 6 de agosto de 1945, a primeira bomba nuclear que encerra a Segunda Guerra Mundial foi detonada pelos norte-americanos sobre a cidade de Hiroshima. Ela levou a 80 mil mortes em seu primeiro impacto. Três dias depois, outra bomba explode a cidade de Nagasaki. Segundo relatos, os sobreviventes não sabiam ao certo o que se passava nos dias seguintes à explosão imaginando que pudessem estar testemunhando a ação de uma nova bactéria ou de algum tipo de gás venenoso. Com o decorrer das semanas, acaba surgindo uma palavra que conjuga dois modos de percepção: daqueles que estavam próximos ao epicentro da bomba e a denominaram pika, explosão de luz; e daqueles que ouviram o estrondo ao longe nomeando-o don, o som que ecoa. Nasce então a palavra pikadon, que tenta dar conta da explosão feita de som e de luz. Não podendo recorrer à história para caracterizar o acontecimento inédito, as pessoas precisaram, de algum modo, fazê-lo surgir pela linguagem.

Quando atravessamos a marca de 80 mil mortos pelo coronavírus no Brasil – considerando apenas os números oficiais – telejornais e diários de notícias recorreram a diversas metáforas para tentar fornecer às pessoas uma imagem concreta da tragédia que hoje vivemos. A sugestão era figurar cidades inteiras agora subtraídas de todos os seus habitantes. Imaginar estádios, em suas aglomerações vibrantes, deixados no completo vazio. Nenhuma comparação, no entanto, foi tão provocativa em relação ao que vivenciamos atualmente do que aquela que iguala o número de mortos pela Covid-19 no Brasil ao número de mortes imediatas causadas pela explosão de uma bomba atômica. A comparação mostrou-se reveladora não no sentido de tecer paralelos com os efeitos nefastos de uma bomba nuclear, mas por ter me feito pensar no que as mortes diárias no Brasil não dão a ver.

Grandes impasses perpassam as políticas de memória que buscam registrar e narrar eventos traumáticos que marcaram a história da humanidade. Há uma imagem possível que registre a experiência daqueles que viveram a detonação de uma bomba nuclear? Há maneiras de pôr em palavras o que se passou com as pessoas afetadas pela radiação? Surgem também as perguntas ligadas a circulação dos registros: como lidar com a banalização e até mesmo a vulgarização das imagens e palavras que tocam esses eventos?

Os primeiros meses de isolamento no Brasil confrontaram todos nós com quadros vivos da ausência. Olhando pela janela, enxergávamos as ruas, antes lotadas e ruidosas, completamente vazias. Circularam na internet diversos vídeos das maiores metrópoles do mundo mergulhadas no silêncio. Esse tipo de registro nos traz algo muito diverso da ruína deixada por grandes hecatombes. Nos soa muito distante, por exemplo, dos vídeos angustiantes da tragédia de Brumadinho; das cidades destruídas por bombardeios. Depois da negação e das demonstrações de completa indiferença, há uma negociação por enquadrar o que vivemos como um fenômeno natural, relacionando as mortes por Covid-19 a um vírus mortal que, afinal de contas, deixaria seu rastro de vítimas. Isola-se o vírus, figurado como inimigo, para descolá-lo das possibilidades de ação do poder público, que teria o poder de conter a tragédia, diminuindo em milhares o número de mortes. Como o início desse texto demonstra, há sempre um problema nos modos de enquadrar, representar e narrar esse tipo de acontecimento. E se isso não for considerado como um problema que a situação impõe, de fato, como uma questão a ser encarada profundamente, a banalização é o caminho lógico.

Tentemos recorrer a mais uma imagem da ausência: com o isolamento que ensaiamos no início da pandemia – e que parte da população ainda tenta sustentar – restou-nos enquanto espaço possível, o interior de nossas casas, destituídas das presenças que animavam o espaço: nossos pais, nossos amigos, nossos vizinhos e conhecidos mantidos à distância em prol da saúde geral. A vivência desse afastamento forçado poderia nos dar a medida de como a ausência afeta nossas vidas, do quão doloroso é conviver com ela e percebê-la em cada canto da casa.  São mais de oitenta mil ausências a serem percebidas pelos corredores do nosso país.

Existe, porém, uma habilidade notável em todos nós brasileiros de deslocar isso que experimentamos no período de quarentena do que vivem as pessoas hoje diretamente ligadas às vítimas da Covid-19. Desconfio que essa habilidade seja gestada todo dia por cada um de nós em um país marcado pela violência e por uma desigualdade tão profunda que chegamos ao ponto de não mais nos chocarmos com ela. Normalizar o sofrimento alheio, assim como torná-lo notícia, é um trabalho diário. Somos um país que não sabe elaborar coletivamente as marcas deixadas por eventos traumáticos. Estamos treinados em fazer disso material para o sensacionalismo, notícia para a fabricação de versões que dissimulam as razões e os efeitos dos acontecimentos históricos.

Não houve uma grande explosão. Não há nem mesmo o que mostrar, que não sejam as valas abertas em terrenos isolados – cemitérios colocados à distância, literal ou simbólica, dos nossos espaços de convívio. Já abundam as imagens de retorno à vida normal, inclusive as que expõem o nosso modo dissimulado de lidar com a tristeza. As ruas hoje voltaram a ser aquilo que sempre foram, mesmo com a ameaça do vírus e de novas perdas. A circulação, em grande parte, também se reestabeleceu – e não demorará para o vírus mostrar que também volta a circular, impactando no aumento ainda maior das mortes. O comércio está aberto: para comprar o quê?

Mas no espaço íntimo da casa, no espaço em que habitavam corpos, teremos que lidar com as vidas perdidas. No encontro com uma blusa cor de rosa de mangas curtas, gola dobrada e pequenos botões, teremos que lidar com as vidas perdidas. No espaço mínimo que a memória conflagra, como coloca Jacques Roubaud, teremos de lidar com as vidas perdidas. Precisamos criar, nem que seja entre as linhas de um poema, lugares que nos permitam lidar dignamente com a memória e com as perdas que atravessam esse país.

No espaço mínimo, de Jacques Roubaud

Afasto-me pouco deste lugar como se a clausura num espaço mínimo te devolvesse da realidade, visto que aqui vivias comigo.
Em sua descida, como em sua subida, o sol penetra, quando faz sol, e segue seu caminho reconhecível, nas paredes, nos assoalhos, nas, cadeiras, curvando, reclinando as portas.
Fico muito tempo aqui, seguindo-o com os olhos, interpondo minha mão, sem fazer nada, pensar, complemento de imobilidade.
Não vives nesses cômodos, eu não poderia dizê-lo, não estou assombrado por ti, não tenho mais, agora, senão raramente a alucinação noturna de tua voz, não te surpreendo abrindo a porta, nem os olhos.
O que me ocupa, inteiramente, e me desvia do lá-fora, de me afastar, de abandonar os cômodos, os movimentos do sol, é o espaço, o espaço só, tal como encheras de imagens, de tuas imagens, de teus panos, de ter perfume, de teu obscuro calor, de teu corpo.
Ao desapareceres, não foste posta em outro lugar, te diluíste neste mínimo espaço, te afundaste nesse mínimo espaço, ele te absorveu.
À noite sem dúvida, se eu acordar na noite, angústia no peito, a janela enorme, a me tocar nos olhos, ruidosa, à noite sem dúvida, poderia dar-te forma, falar, refazer-te, um dorso, um ventre, uma nudez úmida preta, não me abandono.
Abandono-me ao alongamento das janelas, da igreja, ao golfo dos tetos à esquerda da igreja, onde se lançam as nuvens, noite após noite.
Deixo o sol se aproximar, me recobrir, extinguir-se, depositando seu calor um instante, pensando, sem acreditar, tua carne recolocada no mundo, reavivada.  

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