Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Paula Luersen

Escrever, de Marguerite Duras

Imagem
Por Paula Luersen Marguerite Duras. Foto: Hélène Bamberger.   Chega às livrarias nesse final de 2021, pela Editora Relicário, a coletânea de textos Escrever de Marguerite Duras. É um livro mandatório para os leitores da autora. A força arrebatadora presente em obras como O amante e Hiroshima mon amour aparece ali concentrada, com precisão e franqueza ímpares. Cada texto contribui para o panorama de uma atuação que se desdobrou em ensaios, roteiros, peças, romances, colaborações e direções de cinema. Mas não à toa o primeiro texto, “Escrever”, é também o que confere título ao conjunto. Meias palavras, relatos desinteressados ou quaisquer subterfúgios são dispensados nesse ensaio, dando lugar a um autorretrato de Marguerite, inteiro e sombrio, como uma mulher escritora no contexto do pós-Segunda Guerra.   Antes de comentar esse ensaio em específico, cabe sublinhar que o livro chega em um momento interessante para os leitores brasileiros por diversos motivos. No ensaio “O...

Os personagens vis em Haruki Murakami

Imagem
Por Paula Luersen   Haruki Murakami. Foto: Nathan Bajar “Não existem pessoas más nos seus romances”. Haruki Murakami diz ter ouvido essa frase de uma de suas leitoras quando estava iniciando a carreira como escritor. Ele comenta no livro Romancista como vocação , que passou algum tempo pensando sobre a avaliação e concluiu que talvez a leitora tivesse razão: “nessa época eu estava com mais interesse em criar um mundo pessoal – harmonioso, por assim dizer – do que em compor obras muito complexas. Antes de tudo eu precisava criar e estabilizar o meu próprio mundo, uma espécie de abrigo para enfrentar o mundo real”. Sempre julguei essa elaboração de Murakami de uma honestidade reveladora. Ao externar esse tipo de reflexão sobre o que produziu como escritor, ele mostra que muito antes de partir de ditames ou de preceitos relacionadas à literatura enquanto campo de pensamento – entre eles, a histórica incumbência da representação – Murakami precisava atender a uma necessidade própria, s...

Do imponderável em Haruki Murakami: algumas considerações sobre Crônica do pássaro de corda

Imagem
Por Paula Luersen Haruki Murakami. Foto: Richard Dumas   Começo por citar uma palavra que intermeia repetidas vezes o livro Crônica do pássaro de corda , demarcada sempre em itálico: algo . De início, algo que escapa ao leitor. Mas que, desconfio, seja o que o faça, ao mesmo tempo, altamente envolvido com a trama. Algo perturba. Embora as rotinas da vida sejam apresentadas na narrativa de maneira costumeira e até mesmo trivial, algo está em ação noutra ordem das coisas. Uma ordem bem menos aparente, por certo, mas que também habita o mundo e está em franco desenrolar. Trago aqui um exemplo de como essas perturbações são dadas a ver, em meio a um diálogo: “Sozinha na escuridão, senti que algo que havia dentro de mim passou a crescer. Tive a impressão de que esse algo cresceria cada vez mais dentro do meu corpo, até me partir, como a raiz de uma árvore que cresce demais até quebrar o vaso. O que não se manifestava dentro de mim durante a luz do dia começou a crescer em uma veloci...

Mecanosfera/Monoambiente e os desafios da escrita

Imagem
Por Paula Luersen Criticar até mesmo aquilo que está em risco. Sabemos que não é tarefa do escritor zelar por instituições. Afinal, na maioria das vezes, escritores têm pouca influência prática e imediata sobre o rumo dos eventos que definirão a permanência ou extinção daquilo que está posto. É um grande desafio, contudo, revelar contradições e injustiças de situações sob o alvo de ataques políticos que não preveem qualquer crítica construtiva, apenas o escárnio. Falo da situação atual do mundo acadêmico no Brasil, transformado por instâncias governamentais, através de um olhar infantilizado, em uma espécie de inimigo a ser combatido. Longe de ser aquilo que pintam as tintas de uma postura ideológica e mal intencionada, esse mesmo mundo acadêmico também não está isento de críticas. Ao performar os vícios do sistema no qual se inscreve, ele promove assimetrias entre produção de conhecimento e seus modos de circulação e mensuração. O livro de Fabrício Silveira Mecanosfera/Monoambiente s...

O dia em que meu pai foi poeta. A partir de “Receita de domingo”, de Paulo Mendes Campos

Imagem
Por Paula Luersen Ilustração: Julie Bernard   Nunca soube ao certo quem foi que disse que até os três anos de idade nossa mente não é feita para guardar lembranças. Só sei que despertei, aos poucos, pensando naquela matéria de jornal já sem data, sem nome ou qualquer referência, presa por uma ou outra letra nas teias da minha memória. Ela dizia que muito do que achávamos recordar era puramente inventado, feito de rabiscos e garranchos das nossas mais fortes impressões, prontas a encenar em nossa mente detalhadas cenas de um passado falso. Teria eu fabulado o cantar de um canário belga e o cacarejo agoniado das galinhas, que antecediam os almoços de domingo? Com que rabiscos compunha aquele homem que na minha infância gritava aos corvos um sonoro e profético Never more ? Existiu algum dia esse sujeito rendendo homenagens à poesia de Allan Poe, em pleno anoitecer de domingo? Ainda na cama, olhei desconfiado para minha estante de livros. Poderiam ser eles os rabiscos a compor o absurd...

baltazar serapião e o estupro no Brasil

Imagem
Por Paula Luersen ©  Derek Jerman Cento e oitenta mulheres são estupradas por dia no Brasil. Em qualquer texto sobre o assunto me parece importante alçar esse dado a uma espécie de refrão. Cento e oitenta mulheres são violentadas, coagidas, estupradas, a cada dia, somente no Brasil. Sei que os números não impactam hoje, haja visto o pouco valor conferido aos dados da pandemia do coronavírus pelas esferas de poder e pela população em geral. De qualquer modo, os números continuam a ser uma vereda importante para registrar as condições que nos rodeiam, além de assegurar a uma parte da população, que segue recolhida em casa, de que não somos delirantes em relação à angústia crescente que nos assola, em um mundo posto às avessas. Estamos, sim, cercados de muitas formas de violência e naturalizar esse fato só nos faz um tanto mais doentes. Existem, porém, outras veredas que nos levam a encarar a realidade, conduzindo do registro à reflexão, dos números às narrativas. Como o leitor bem sa...

O espaço mínimo para a memória

Imagem
Por Paula Luersen Foto: Ishiuchi Miyako Uma blusa cor-de-rosa de mangas curtas, gola dobrada, pequenos botões. Ao que tudo indica, uma blusa cor-de-rosa de tamanho médio. O tecido está amassado. As mangas estão rasgadas. Faltam os primeiros botões. Nas costas e na lateral, mistura-se ao cor-de-rosa um tom terroso que também aparece salpicado em outras partes do tecido. É o vestígio material de uma tragédia. Antes, ali, entre rasgos e manchas de terra, habitava um corpo. A blusa foi fotografada pela artista Ishiuchi Miyako e é uma das peças de roupa que compõem o memorial das vítimas da bomba de Hiroshima, no Japão. Uma série de placas de mármore com imagens gravadas. Pela sequência de fotos e textos informativos, entendemos que ali está a narrativa heroica de uma guerra. Na placa de mármore final, a imagem derradeira: o grande cogumelo causado por uma explosão nuclear. Logo abaixo da imagem, uma descrição curta a situa como um registro da bomba de Hiroshima. Acima da ...

Virtudes da culpa

Imagem
Por Paula Luersen Marina Abramovic em  Ritmo 0 , 1974. Uma mulher vestida de preto repousa em meio a uma sala branca. Ao seu lado, uma mesa com vários itens distribuídos. Em um dos extremos: um pote de mel, pedaços de pão, plumas, algumas rosas, um vidro de perfume. Avançando ao outro extremo: uma tesoura, um martelo, facas, correntes, uma pistola e uma bala. Em meio a esses e outros objetos, as instruções referentes à mulher posicionada no meio da sala: “Eu sou um objeto. Você pode fazer o que quiser comigo. Tomarei responsabilidade por todos os atos dentro das próximas 6 horas.” Esse era o cenário da performance artística Ritmo 0 , de Marina Abramovic, apresentada em uma galeria de arte na Sérvia, em 1974. Que efeito pode gerar a assinatura de uma mulher permitindo que façam o que quiserem com ela, sem que se sofram consequências? As portas foram abertas e, ao tomar consciência da proposta, o público começou a agir. Inicialmente, a performer teve o corpo ma...

Para tempos de isolamento: Naoko Ogigami

Imagem
Por Paula Luersen cena de Megane , de Naoko Ogigami. Depois de mais de oitenta dias de reclusão, vivendo em um país que não apresenta a menor perspectiva de retração da COVID-19, em que o respeito pelos mortos precisa ser afirmado frente à assustadora indiferença de grande parte da população, é difícil saber a que tipo de arte dedicar o nosso tempo. Pois a necessidade de arte não chega a se colocar como dúvida: em tempos de estupidez e descaso gerais, precisamos da arte para nos manter lúcidos e engajados com o mundo. As escolhas, contudo, acabam tomando uma importância fundamental para que a nossa sensibilidade, já tão ferida, não seja atingida em cheio a ponto de nos deprimir. Considerando esse cenário, encontrei nos filmes de Naoko Ogigami, assistidos durante a quarentena, nada menos que tranquilidade. Após o primeiro filme, tive de procurar pelos outros, tamanha a habilidade da roteirista e diretora japonesa de me manter interessada no que tem a dizer. As histór...

New Orleans, Faulkner e o jazz

Imagem
Por Paula Luersen William Faulkner Enjoys New Orleans Jazz. Grayce DeNoia Bochak Não sabia para onde iria. Fui levada ao ponto de partida no escuro. Sabia que a saída estava marcada e era cedo, numa estação de trem em Atlanta. Mas não imaginava para onde correriam aqueles trilhos. Foi só chegar ao destino, porém, para descobrir que era o lugar certo para encerrar 2016, antes mesmo de o calendário decretar seu fim. O problema é que o arrastar do ano tinha esgotado todo o meu desejo, toda a minha vontade. O que eu sentia era tristeza bruta que se agravava nos muitos momentos em que me via sozinha. Polarização política. Burrice institucionalizada. Instabilidade emocional. Demonstrações vazias de autoridade, de um lado; retórica do sacrifício, do outro. Intolerância soando no seu tom mais agudo, a ponto de tomar as ruas, a casa dos tios, a universidade, o pátio da vó e, às vezes, perigosamente, se incrustar pelos cantos do meu apartamento. O desânimo sentava à mesa, se este...