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Mostrando postagens com o rótulo De Versos

Dez poemas de Saigyo

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Por Pedro Belo Clara   I. em que momento do longo sono da vida poderei acordar deste sonho espantado pela verdade? II. como poderia passar a minha vida sem saber o que ela é —  um caminho que leva inevitavelmente  à morte? III.  há muito tempo que enviei o meu coração para as profundezas das montanhas e ainda assim este corpo demora-se no mundo flutuante IV. jamais tingiria o meu coração com a pura cor da lua se não deixasse a capital para trás V. como me alegro quão oportuno este nevão escondendo o meu trilho na montanha quando queria estar só! VI. um só pinheiro a crescer entre os vales —        e pensava ser o único  sem um amigo VII. contemplando-as tornei-me tão íntimo destas flores que ao desprenderem-se dos ramos sou eu quem cai… em tristeza VIII. esta primavera vou ficar junto à minha sebe rústica farei amizade com as pessoas que chegarem em busca do perfume da flor da ameixeira IX. sozinho, olhei a glória da manhã consciente que ness...

Cinco poemas de “Dream Work”, de Mary Oliver (1986)

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Pedro Belo Clara (Seleção e versões)* Mary Oliver. Frame do documentário Mary Oliver: Saved by the Beauty of the World . UMA OU DUAS COISAS 2. O voo galopante da borboleta leva-a delicadamente  pelo país das folhas, sendo competente o bastante para a levar onde quiser, seja isso onde for, parando aqui e acolá, desarrumando as húmidas gargantas das flores e a lama escura; sobe e desce, borboletando frenética e sem propósito, e por vezes, em demorados e deliciosos momentos, tão perfeitamente preguiçosa, montada, sem na brisa se agitar, num caule macio duma flor qualquer.  5. Uma ou duas coisas, é tudo o que precisas para atravessar o lago azul, a densa folhagem das árvores, e ir pelas duras flores dos relâmpagos — alguma profunda memória de prazer, alguma cortante experiência de dor.  7. Por anos e anos lutei apenas para amar a minha vida. E então a borboleta ergueu-se, leve, no vento. “Não ames demasiado a tua vida”, disse, e desapareceu mundo adentro.  POEMA MATINAL ...

Seis poemas de Wendell Berry

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Por Pedro Belo Clara  (Seleção e versões)* Wendell Berry. Foto: Guy Mendes  PLANOS ( The Broken Ground , 1964) O meu velho amigo, dono dum barco novo, aparece com um convite para pescar,  e eu digo que sim — ambos  sabendo que talvez nunca nos aprontemos a tal, é possível que passem anos até estarmos de novo livres no mesmo dia. Mas fazemos planos, em todo o caso, em honra da amizade e do bom tempo primaveril e do barco novo e da súbita imagem partilhada  de água cintilando sob o nevoeiro matinal.  A PAZ DAS COISAS SELVAGENS ( Openings , 1968) Quando o desespero pelo mundo toma conta de mim e de noite ao mínimo som desperto,   temendo no que a minha vida e a de meus filhos se poderá tornar,    saio e deito-me onde o pato-carolino repousa em sua beleza sobre a água, e a garça-real se alimenta. Venho para a paz das coisas selvagens, que não taxam as suas vidas com previsões  de tristeza. Venho até à presença das águas serenas.  E...

Oito poemas dos Diários do exílio (volume II), de Yannis Ritsos

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Por Pedro Belo Clara I. (24 de Novembro, 1948) Dia de pedra, palavras de pedra. Lagartas trepam pela parede. Um caracol, a casa às costas, aparece à tua porta pode ficar ou pode partir. Tudo é como é. É nada. Esse nada não é macio. É feito de pedra. II. (25 de Novembro) Os nossos estão longe. Escasseiam as cartas. As moscas estão a morrer de frio. Vemo-las cair no chão, Mais tarde varremo-las. III.  (14 de Dezembro) Uma Segunda-feira feita de neve Terça-feira a continuação da Segunda  nada começou nada terminou. O remo quebrado o sino que anuncia o temporal um guarda-chuva —  a eterna desconfiança da hipocrisia. As vozes assumem sempre a postura de um cadáver sem sapatos.  * Afinal, aos mortos nada lhes falta. IV. (4 de Janeiro, 1949) E de súbito a lembrança dos pássaros que mergulharam no desconhecido.  V. (22 de Janeiro) Pousou a fronte sobre a mesa onde está o pão calmo como uma estátua entre glória e morte. VI.  (25 de Janeiro) Por um instante a parede ...

Seis poemas de John Clare

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Por Pedro Belo Clara  (Seleção, versões e notas)* William Hilton. John Clare , 1820. RAPAZES DA ESCOLA NO INVERNO Os jovens estudantes ainda dão os seus passeios matinais Até à escola da aldeia vizinha, em passo rápido e divertido; Vadiando, deixam o tempo passar, até que estremecem, E observam no alto os bandos de gansos selvagens, Vendo as letras que desenham nas suas viagens, Ou arrancam bagas de espinheiro, a refeição da tordoveia¹, E rosa mosqueta e abrunhos — e em cada lago raso Deslizam suavemente, levando as sombras onde querem, Até uma nova diversão despertar nas suas ideias; E lá começam de novo, soprando depressa Os seus dormentes e desajeitados dedos até cintilarem, E depois uma corrida, as suas sombras indo selvagens, Aquelas passadas, uns gigantes enormes, sobre a neve fulgente No pálido esplendor do sol de inverno.  LORD BYRON Um sol esplêndido entrou no ocaso — quando os nossos olhos  Verão uma tão bela manhã despontar, Como a que deu vida ao seu géni...

Cinco canções de protesto (em tempos de guerra e turbulência social)

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Por Pedro Belo Clara  Arte: Diana Ejaita ONDE FORAM TODAS AS FLORES? ¹   (Pete Seeger/Joe Hickerson, 1955 / 1960) Onde foram todas as flores? Tanto tempo passou Onde foram todas as flores? Há tanto tempo atrás Onde foram todas as flores? Raparigas colheram-nas todas Oh, quando irão aprender? Oh, quando irão aprender? Onde foram todas as raparigas? Tanto tempo passou Onde foram todas as raparigas? Há tanto tempo atrás Onde foram todas as raparigas? Em busca de marido, todas elas Oh, quando irão aprender? Oh, quando irão aprender? Onde foram todos os maridos? Tanto tempo passou Onde foram todos os maridos? Há tanto tempo atrás Onde foram todos os maridos? Ser soldado, todos eles Oh, quando irão aprender? Oh, quando irão aprender? Onde foram todos os soldados? Tanto tempo passou Onde foram todos os soldados? Há tanto tempo atrás Onde foram todos os soldados? Aos cemitérios, todos eles Oh, quando irão aprender? Oh, quando irão aprender? Onde foram todos os cemitérios? Tanto t...

Seis poemas de Li Bai (Li Po)

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Por Pedro Belo Clara (Seleção, versões e notas)*  TRÊS COM A LUA E A MINHA SOMBRA Com um jarro de vinho sento-me junto às árvores floridas. Bebo sozinho — onde estão os amigos? Ah, a lua do alto olha para mim; Chamo-a e levo a minha taça à sua luz. Observa: lá vai a minha sombra diante de mim. Hoo! Somos uma festa a três, digo eu; Embora a pobre lua não possa beber, E a sombra só dance em meu redor, Somos todos amigos esta noite, O bebedor, a lua e a minha sombra. Que a nossa festa seja digna da primavera! Eu canto, a lua selvagem vagueia pelo céu. Eu danço, a minha sombra segue aos tropeções. Enquanto despertos, entremos na pândega;  Apenas a doce embriaguez nos poderá separar. Juremos uma amizade que nenhum mortal conhece, E amiúde saudemo-nos ao entardecer, Muito além do vasto e vaporoso espaço!  OS CORVOS AO CAIR DA NOITE¹  Num crepúsculo de nuvens amarelas, Os corvos procuram seus ninhos na muralha da cidade. Os corvos voam para casa, crocitando Uns para os outr...

Seis poemas de Natal pela pena de autores lusitanos

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Por Pedro Belo Clara Rudolf Bernhard Willmann, Árvore de Natal  (detalhe) LADAINHA DOS PÓSTUMOS NATAIS  (David Mourão-Ferreira, Cancioneiro de Natal ) Há-de vir um Natal e será o primeiro em que se veja à mesa o meu lugar vazio Há-de vir um Natal e será o primeiro em que hão-de me lembrar de modo menos nítido Há-de vir um Natal e será o primeiro em que só uma voz me evoque a sós consigo Há-de vir um Natal e será o primeiro em que não viva já ninguém meu conhecido Há-de vir um Natal e será o primeiro em que nem vivo esteja um verso deste livro Há-de vir um Natal e será o primeiro em que terei de novo o Nada a sós comigo Há-de vir um Natal e será o primeiro em que nem o Natal terá qualquer sentido Há-de vir um Natal e será o primeiro em que o Nada retome a cor do Infinito CHOVE. É DIA DE NATAL (Fernando Pessoa, Poesias ) Chove. É dia de Natal. Lá para o Norte é melhor: Há a neve que faz mal. E o frio que ainda é pior. E toda a gente é contente Porque é dia de o ficar. Chove no N...

Seis poemas de “Um rapaz de Shropshire” (1896), de A. E. Housman

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Por Pedro Belo Clara  (Seleção e versões)* A. E. Housman. Foto: Hulton-Deutsch   II. Das árvores mais adoráveis, a cerejeira, agora Cheia está de flores p’los galhos afora, Junto à trilha que põe a mata dividida, Para o tempo Pascal de branco vestida. Dos meus sessenta anos e dez mais, Vinte tornarão não mais, E se tirar vinte a setenta primaveras Com cinquenta fico, deveras. Como para ver coisas a florir Cinquenta primaveras é tempo a fugir, Às matas dirijo a passada, A ver a cerejeira de neve carregada. III. O Recruta Deixa para trás a casa tua, rapaz, E aos amigos a mão vais estender, Vai, e vá a sorte contigo, Enquanto a torre de Ludlow¹ se erguer.   Oh, regressa a casa num Domingo, Quando as ruas de Ludlow quietas estão, E os sinos de Ludlow chamam  Para a lavoura, as azinhagas, os moinhos do pão; Ou regressa numa Segunda-feira, Quando o mercado de Ludlow é um rumor E os carrilhões de Ludlow tocam “O retorno do herói conquistador”;   Regresses ...