2 poemas de Clarice Lispector por Benjamin Moser




Ainda há muita coisa para se descobrir sobre Clarice Lispector. Numa entrevista do seu mais recente biógrafo Benjamin Moser, autor de Clarice, ele disse ter escrito algo em torno de duas mil páginas acerca da escritora brasileira, das quais, aproveitou pouco mais de seiscentas. Fato é que, revendo, desta ocasião, o blog da Cosac Naify, editora pela qual saiu a biografia em questão, encontro uma face de Clarice pouco conhecida do público e que Moser revela como sua face poética. Gostei tanto que tomei a liberdade de transcrevê-los para este espaço. (PF)

A mágoa,

Os telhados sujos a sobrevoar
Arrastas no vôo a asa partida
Acima da igreja as ondas do sino
Te rejeitam ofegante na areia
O abraço não podes mais suportar
Amor estreita asa doente
Sais gritando pelos ares em horror
Sangue escoa pelos chaminés.
Foge foge para o espanto da solidão
Pousa na rocha
Estende o ser ferido que em teu corpo se aninhou,
Tua asa mais inocente foi atingida
Mas a Cidade te fascina.
Insiste lúgubre em brancura
Carregando o que se tornou mais precioso.
Voas sobre os tetos em ronda de urubu
Asa pesa pálida na noite descida
Em pálido pavor
Sobrevoas persistente a Cidade Fortificada escurecida
Capela ponte cemitério loja fechada
Parque morto floresta adormecida,
Folha de jornal voa em rua esquecida.
Que silêncio na torre quadrada.
Espreitas a fortaleza inalcançada.
Não desças
Não finjas que não doi mais
Inútil negar asa partida.
Arcanjo abatido, não tens onde pousar.
Foge, assombro, inda é tempo,
Desdobra em esforço a sua medida
Mergulha tua asa no ar.

[Publicado no Diário de São Paulo em 5/1/1947. Foi mantida a grafia original.]


Descobri o meu país

Subi a montanha
e no seu topo os anjos me cercaram
e me engrinaldaram a fronte
com as flores do céu.
Azas zumbiam
em harmonias fragílimas
e vozes de arcanjos louvavam a paz.
Derramaram sobre meu corpo
sete balsamos purificadores
e fizeram-me beber
ambrosia e mel.
Banharam-me no rio da música
e eu saí ingénue
como o canto de uma criança.
E depois surgiram novos anjos
e não havia noite
e não havia dia.
E a ambrosia e o nectar
deslisavam com fartura celestial.
E novas canções se entoaram
sempre em louvor a Deus.
E não havia noite
E não havia dia.
E aos poucos cresceu dentro de mim
o desespero
e eu busquei em vão os olhos celestiais.
Eles nada diziam
e cantavam a paz.
E aos poucos uma nostalgia
me enlanguesceu
e eu era o arco distendido
sem a flexa
e eu buscava o ar
sem respirar.
Um anjo me interrogou: mais nectar?
Eu gritei: quero cheiro da terra!
E o anjo me perdoou
E eu cansei de ser perdoada,
eu queria sofrer.
E não havia noite e não havia …
Quebrei minhas azas,
desci a montanha
e vivi na Terra!
………………………………….
Homens amavam
e cansavam do amor.
Homens bebiam sangue
e descobriam
que não desejavam brigar
Entoavam-se canticos místicos
onde só havia a insatisfação.
E depois homens morriam
e todos sabiam que era o fim.
………………………………….
Nem a terra,
nem o céu!
………………………………….
Fechei-me num quarto,
inventei outro Deus,
outro céu, outra terra
e outros homens.

[Publicado no jornal carioca Dom Casmurro, em 25/10/1941. Foi mantida a grafia original.]

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