Miacontear - O fio e as missangas

Por Pedro Fernandes


O título deste conto e ele próprio me fez retornar ao título do livro que o contém. E vejo que ele pode ocupar o papel de chave-de-leitura para o próprio livro. Se antes eu via no título O fio das missangas como uma metáfora para a própria composição do livro, posso agora definir com mais precisão as missangas desse fio "- A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas, as missangas..." O livro de Mia Couto é um exercício de perscrutar as várias vidas contidas na horizonte de vida do contista. Está clara essa interpretação. E é, sobretudo, as várias vidas de mulheres, sem dúvidas, personagens centrais da obra.

O conto em questão é um dos mais simples desse livro. O encontro do narrador com um tal de JMC, espécie de Don Juan, que vive à cata de mulheres até a morte de sua mãe. 'Distribuía' a elas o amor que seu pai não distribuía à mãe. Vejo nessa personagem que ela poderia ser o grande amor daquela mulher de A despedideira, seja por essa maneira de amar as mulheres, seja no trato que ele tem para com elas.

"- Me acompanha, JMC?
 - E você quem é, minha flor?
 - O meu nome você há-de chamar, mas só depois.
 - Depois? Depois de quê?
 - Ora, só depois...

***

- O ontem é muito longe para mim. Minha lembrança só chega às coisas antigas.


____________
¹ COUTO, Mia. O fio das missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.66.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cortázar forasteiro

Dez poetas necessários da nova literatura brasileira

Coral, de Sophia de Mello Breyner Andresen

Os segredos da Senhora Wilde

Cortázar de A a Z

O que é a Literatura?, de Jean-Paul Sartre

Dez mulheres da literatura brasileira contemporânea