O embargo, de António Ferreira

Por Pedro Fernandes



Não sou acompanhador do cinema português para traçar alguma linha se esse, em relação à produção cinematográfica daquele país, apresenta alguma novidade estética em relação ao já produzido. Mas, uma coisa é fato. Se se pode gostar e desgostar simultaneamente de uma coisa, garanto, que essa foi a sensação que tive ao ver Embargo, de António Ferreira. Se não, fica a sensação um tanto inusitada posta como possibilidade de ocorrer. Se me pareço contraditório, deixem antes que me explique. 

Lançado em 2011, o filme é uma adaptação do conto homônimo de José Saramago, publicado em 1973, sob o título de O embargo. Mais tarde, em 1978, sem o artigo definido, o texto seria incluído na coletânea de contos Objecto quase. A perda da forma lexical em questão destituiu, em parte, o texto da relação direta que mantinha com o contexto de escrita. Sabe-se que o escritor português tomou como questão de fundo a crise petroleira naquele ano, originada do conflito entre israelitas e árabes no Yom Kippur. Assim, o termo "embargo" passa a designar agora o movimento de fechamento insólito impetrado contra a personagem central do conto, que num dia qualquer, ao sair de casa, costumeiramente, no seu carro, descobre-se colado ao banco do carro, como se o carro desenvolve-se à surdina uma espécie de mutação genética e quisesse, então, se apoderar do corpo da personagem. Isto é, o contexto está por ali, mas o embargo mesmo está no âmbito dos valores humanos como a liberdade e a autonomia colocados em xeque a partir da brutal dependência dos indivíduos para com o recurso natural.

No filme de António Ferreira a situação prevalece; a personagem ganha nome - Nuno; apresenta-se como um funcionário que trabalha numa lanchonete e inventor nas horas vagas. Mas não é um inventor que trabalha em criar coisas novas. É no ambiente de casa que vemos Nuno entretido com os pequenos concertos, tarefas corriqueiras. Fato é que, não sabemos como, afinal tudo já parece resolvido, Nuno cria artesanalmente uma máquina que a modo de um scanner fotocopia pés, projetando, desde então, aquilo que poderíamos chamar de revolução para o setor dos calçados. Mas, não será. A personagem será vitimada por aquilo que já sabemos. Até aí tudo bem. Estamos naquilo que eu inicialmente disse me agradar nesse filme. Outros elementos também me chamaram a atenção: a fotografia compondo uma estética retrô interessante e a trilha sonora, que embora nalguns casos parece destoante do propósito da narrativa, mas compõe um efeito à parte. Outra, aquilo que a história central evoca - o de um embargo da própria existência - é algo interessante de observar no roteiro de O embargo.

Mas, finda-se aí. O filme prolonga-se muito e a sensação que temos é que seu criador andou - por baixo da película - rezando a torto e à direito para dizer uma história que morreu assim que nasceu. Talvez por se prender muito ao texto de origem, um conto, o texto cinematográfico não dispõe de enredo que justifique seus 80 minutos de exibição. Daí talvez fosse o caso de ter colocado Nuno entre o sonho da construção e a construção propriamente dita. Se se preserva um espírito assente na literatura saramaguiana, que é um mundo de hostilidade e desigualdade, as forças externas que emparedam o homem diante de seus limites, as suas expectativas que vão ludibriando-lhe e apresentando um sujeito de mente ingênua e nitidamente frustrado, tudo isso, vai definhando no texto visual. Agora, dito isso, não tiro o mérito do filme. A realização é boa. Reatualiza se obra de José Saramago e isto parece ser uma tarefa sadia.


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