Vergílio Ferreira


Vergílio Ferreira. 

“Perguntam-me com frequência quantas horas trabalho por dia. As pessoas entendem assim que se escreve à hora, como se trabalha numa repartição. Eu respondo que, enquanto escrevo um romance, trabalho vinte e quatro horas por dia. Nem o trabalho fundamental é o realizado à mesa (ou no cartão sobre o joelho). O trabalho mais importante é realizado fora disso, na procura ininterrupta de soluções para o livro, enquanto se divaga com um cigarro, enquanto se não adormece, logo de manhã quando se acorda, mesmo às vezes durante o sono, durante as andanças pelas ruas. [...] É esse o momento de maior fascinação, de enlevo, de plenitude. De encantamento.”

– Vergílio Ferreira, Conta-corrente


O que a arte nos ensina não é puro discernimento, é a relação mais profunda de nós próprios com o mundo, é verdadeiramente o ver.

– Vergílio Ferreira, Espaço do invisível

O nome poderá soar desconhecido a muitos leitores brasileiros, mas é o autor de uma obra das mais significativas para as literaturas de língua portuguesa do século XX. E é nosso o estudo mais acurado e completo para sua obra já escrito, o livro Vergílio Ferreira – Para sempre, romance-síntese, resultado da tese de doutorado do professor José Rodrigues de Paiva, estudioso e dono de outros títulos sobre o escritor português.

Vergílio Ferreira escreveu do romance ao conto passando pelos ensaios, a poesia e os diários. O escritor nasceu em Melo, distrito da Guarda, em 1916, e morreu em Lisboa em 1996. No correr da obra que nos deixou quis pensar por vias diversas o próprio espaço onde viveu. Fez seus estudos em Coimbra, foi professor em Évora por longos catorze anos. E não terá ficado apenas nas representações do espaço nacional, quis pensar também os locais menores por onde andou, quis compreender a matéria de seus significados.

Iniciou a carreira de escritor ainda na década de 1940 com O caminho fica longe, seguido de Onde tudo foi morrendo e Vagão J – tríade que integra a primeira fase de sua escrita, marcadamente neorrealista. Depois deles, segue, fascinado pelas ideias existencialistas de um Jean-Paul Sartre, Albert Camus ou André Malraux. Uma vida para se fazer próximos também dos seus escritores favoritos, além dos citados, Dostoiévski, Sófocles e outros tragediógrafos gregos, e conterrâneos da literatura portuguesa, como Raul Brandão.

De então, é o próprio Vergílio quem assim reconhece o percurso de sua escrita e sua proximidade com esses autores, quem fomentarão a preocupação para temas como vida e a morte, o amor, a solidão, a sondagem das profundezas do eu e do autoconhecimento individual que passa necessariamente pelo conhecimento do outro. É de seu entendimento que a arte é uma forma de dar a ver o que a rotina do cotidiano esconde, isto é, a arte da escrita como depuração da vida: “Escrever é abrir um sulco de sinais por onde o quem somos ou o que sentimos há-de passar.” – definiu certa vez. Ainda na lista dos temas, tem profundo interesse pelo centro da filosofia niilista, a morte de Deus.

Estão nesta fase os trabalhos a partir do fim da década de 1940, tais como Manhã submersa, Do mundo original, Aparição, entre outros títulos. Tem destaque aí a personagem principal como narradora cujo interesse está em sondar a partir dela problemas existenciais; utilizando-a como propulsora a um ensaio de si, como é caso, por exemplo, de Antoine Roquentin, personagem-ensaio de Sartre. Não se finda aí: o movimento de pensar sobre o sujeito e seu lugar no mundo também será transposto ao interesse de pensar a própria arte e sua relação com o lugar que ela ocupa na vida humana.


Cena de Manhã submersa; o romance de Vergílio Ferreira foi adaptado ao cinema por Lauro António.

Mudança – o romance que antecede Manhã submersa já apresenta feições existencialistas, mas é a partir do segundo em que é possível notar essa verve que será perseguida pelo escritor, quase como obsessão por um grande romance, em toda obra seguinte, alcançado segundo José Rodrigues de Paiva, depois de quinze títulos, com Para sempre entendido pelo professor como um romance-síntese, um “coroamento de tudo quanto veio a ser construído nos romances anteriores, formadores de ciclos pelas interligações temáticas, sentido de pesquisa ou de problematização filosófica e estética, Para sempre é visto como a última “fronteira” de um vasto território literário onde se interligam o romance, o ensaio e o memorialismo representado pelo diário do escritor.

No gênero ensaio, Vergílio escreveu vários volumes: uns com interesse para a crítica literária como Sobre o humorismo em Eça de Queiroz; outros com interesse para a escrita e temas dos estudos literários, como é caso em Carta ao futuro e Do mundo original. Dos diários, contam-se nove volumes sob o título Conta-Corrente; os textos aí reunidos dão conta do cotidiano de escrita de Vergílio – isto é, um continente público e não privado como sugere a visão mais comum para o termo do gênero. Aí é que estão ‘mapeados’ muitos dos poemas do escritor que só escreveria um livro com interesse no verso, Uma esplanada sobre o mar, que é um trabalho em que se mesclam aos poemas, contos. Do gênero, aparece o primeiro trabalho, em 1953, A face sangrenta, seguido de Apenas homens.

Outra característica sempre destacável nas relações estabelecidas no interior do trabalho criativo de Vergílio Ferreira está no diálogo que manteve entre literatura e as expressões nas artes plásticas, como a a pintura e a fotografia. Nesse caso, o material pictural sempre serve ao escritor como ponto de partida para o desenvolvimento e materialização das especificidades descritivas. Tal aspecto formativo se amplia quando este mesmo material participa na narrativa como tema ou questão singularizada, como o debate sobre aspectos inerentes à arte. 

Vergílio Ferreira morreu a 1.º de março de 1996. Na descrição biográfica oferecida pela página do Instituto Camões, se oferece uma síntese sobre a força de sua obra: “Em todo o caso, o tema essencial de toda a sua obra foi certamente o da procura do sentido da existência num universo sem sentido, fazendo-o navegar no que Eduardo Lourenço chamou um niilismo criador e um humanismo trágico, explorando até à exaustão o tema do eu, ao mesmo tempo eterno e inscrito na finitude, a mesma finitude que o embrenha na temática da morte, num homem que heroicamente, e também angustiadamente, suporta o desafio da finitude.


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