Merlin revive: nova edição da trilogia de Mary Stewart

Por Alfredo Monte



“Por terra e água voltará ao lar e ficará escondida numa pedra flutuante até ser erguida novamente pelo fogo. Assim tinham dito os antigos e teriam reconhecido aquele lugar como eu; ou como o pescador que voltara do Sobrenatural, admirado com os salões do rei das sombras. Ali a espada ficaria segura até a chegada do jovem que teria o direito de erguê-la (...) Larguei-a ainda enrolada no pano sobre a mesa de pedra e voltei pela lagoa. Os ecos encheram o ambiente e parei um pouco enquanto diminuíam, tornando-se um murmúrio. Naquele silêncio até minha respiração era ruidosa demais e parecia uma intrusão. Deixei a espada em sua longa espera silenciosa e voltei rapidamente à luz do dia...”
(trecho de As colinas ocas)

A inglesa Mary Stewart, nascida em 1916, chegou bem perto dos cem anos, mas foi um dos muitos nomes importantes da literatura a falecer em 2014. Sua obra de maior prestígio, a Trilogia de Merlin, está sendo reeditada pelo selo Hunter Books. Os três volumes fizeram muito sucesso quando lançados pela ed. Best Seller no início dos anos 19901. São eles: A caverna de cristal (The crystal cave, 19702, As colinas ocas (The hollow hills, 1973) e O último encantamento (The last enchantment, 1979).

Com relação ao resto de sua produção paira aquela reputação ambígua das autoras (Victoria Holt, por exemplo) que exploraram mistérios góticos anacrônicos, mas ao que parece ainda bem atrativos, unindo suspense e alto grau de romantismo, cuja forma mais popular é a daqueles livros vendidos em banca, Júlia, Sabrina e similares. É o caso de Nine coaches waiting (1958), The moon-spinners (1962) ou Touch not the cat (1976).

Também não se deve esquecer que o êxito da Trilogia no Brasil veio no bojo de um daqueles periódicos recrudescimentos do interesse pelo ciclo arturiano; nesse caso, o maior responsável foi o ciclo As brumas de Avalon (1983), de Marion Zimmer Bradley (e também o filme Excalibur, de John Boorman, lançando em 1981, cuja maior consequência, uma vez que se voltava para uma figura comumente secundária na trama geral, a fada Morgana, foi ter criado uma febre pela releitura do papel de outros personagens que orbitavam em torno de Arthur e dos cavaleiros da távola redonda; tanto é assim que, paralelamente ao trio de romances de Mary Stewart em torno do mago Merlin, a Best Seller publicava a Trilogia de Guinevere (1987-93) da norte-americana Persia Wooley3. De modo curioso, são as mulheres que capitaneiam as releituras da velha lenda patriarcal (talvez concretizando a farpa verbal lançada por Morgause a Merlin: “Tem mesmo certeza de que estais protegido da magia das mulheres?”)

A singularidade da série de Mary Stewart está em apresentar a juventude de Merlin, visto sempre como homem maduro ou mesmo um ancião. Os três volumes fazem uma impressionante reconstituição de uma época, o século V d.C., quando, na Bretanha (Inglaterra e parte da França) confluíam tradições romanas, celtas e bárbaras, iniciando assim a Idade Média.

Merlin é o filho bastardo de Ambrosius, o homem que inicia o trabalho de unificação da Bretanha, continuado por seu irmão Uther e consumado pelo filho deste, Artur. Criado longe do pai, desde a infância Merlin tem visões que o diferenciam (e uma aparência “morena”, a qual, como acontece com a Morgana de Brumas de Avalon, o marginaliza de seu povo). A caverna de cristal gira em torno do reconhecimento de Merlin por Ambrosius e de como este utiliza os dons do filho para sua vitória. Após sua morte, Uther tem uma noite adúltera com Igrayne, que gerará Artur, o qual será escondido por Merlin e cuja educação é o centro de interesse (bem absorvente) de As colinas ocas; O último encantamento, por sua vez, fixa a decadência dos poderes de Merlin — após o triunfo de Artur — e seu amor por Nimuë (o ex-pupilo fica espantado: “Pensei que você fosse um sábio”, ao que ele retruca: “Porque sou um sábio, sei bem demais que o amor não pode ser contestado. Aconteça o que acontecer daqui por diante, é tarde demais...”), que ficará como sua sucessora.

São 1.300 páginas de um fôlego épico (malgrado o narrador não ser um guerreiro) que inexiste, por exemplo, nos quatro volumes de Marion Zimmer Bradley, cujo maior defeito é banalizar a grandiosa (e ao que parece inesgotável) lenda através de cenas domésticas que parecem recortadas do cotidiano norte-americano contemporâneo. Na trajetória de seu Merlin, Stewart compõe um mapa ficcional da Bretanha, explorando cada parte dela com uma riqueza de detalhes geográficos e topográficos e um emaranhado de personagens, e isso incrivelmente não atrapalha em nenhum momento a leitura. E assumindo a voz de Merlin (o relato é em primeira pessoa), cria um personagem fantástico, e não só ele. Há uma grande vilã, Morgause, meia-irmã de Artur, que tem um filho com ele e envenena o seu tutor, cumprindo um papel que geralmente é atribuído a Morgana (como no belo filme de John Boorman), e o próprio único e eterno rei aparece mais aprofundado e interessante que em outras versões, nas quais parece mais uma marionete do destino.

Difícil dizer qual o melhor volume. Cada qual apresenta sua voltagem de emoção e ritmo próprio, e portanto todos são memoráveis, embora o leitor saia meio desconcertado da leitura do terceiro (por causa do final)4, que ainda assim apresenta a passagem mais extraordinária de toda a massa narrativa, quando Merlin é enterrado vivo e acorda na sua tumba (a caverna onde foi instruído na magia), sem poderes:

“...e eu continuava deitado no estranho limbo criado por um corpo inerte e uma mente ativa (...) Não havia a menor esperança de mover as pedras que selavam minha tumba, mas eu talvez conseguisse atrair a atenção de alguém que passasse por ali. Esse local era um santuário desde tempos imemoriais e pessoas do vale subiam regularmente o monte levando oferendas para o deus que guardava a fonte sagrada ao lado da caverna. Era bem possível que agora esse ponto tivesse se tornado ainda mais santo, porque Merlin, o profeta do Grande Rei, mas que primeiro fora o médico dessa gente humilde, estava enterrado ali...”

Bela e apurada como entretenimento e narrativa, rica como alegoria místico-política de um momento-chave da história ocidental (em “As colinas ocas”, Merlin nos diz: “... fui obrigado a continuar cuidando da capela. Imagino que qualquer outro, como o Velho, manteria o lugar para seu próprio deus, mas esperei apenas que qualquer um o ocupasse...”), a Trilogia de Merlin deixa a sensação (quiçá injusta) de que as brumas exploradas posteriormente não passam de fumaça diante dessa construção romanesca de primeira.

Notas
1 A autora acrescentou posteriormente dois livros à série, The Wicked Day (1983) e The prince and the pilgrim (1995).

2 Traduzido no Brasil também como A gruta de cristal (ed. Record)

3 De resto, todos esses ciclos têm sua origem na mais prestigiada de todas as retomadas das lendas arturianas, uma das obras literárias mais amadas do século passado: a tetralogia “O único e eterno rei” (1938-1958), de T.H. White, cujo falecimento, aliás, ocorreu há meio-século, em janeiro de 1964.

4 “Agora chegamos à parte de minha crônica que é a mais difícil de contar. Se é ou não verdade que o cometa com cauda de dragão veio anunciar o fim dos poderes mais elevados do mago Merlin, como afirma a crença popular, o fato é que não tenho certeza se o que lembro foi real ou um sonho.”

***

Alfredo Monte é professor e leitor, as duas grandes atividades da sua existência. Tem doutorado pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, desde outubro de 2002, com uma tese sobre a obra de Autran Dourado. Desde 11 de abril de 1993, mantém uma coluna semanal no Galeria do jornal A Tribuna de Santos. Volta e meia publica na Folha de S. Paulo. Mantém o blog Monte de Leituras dedicado exclusivamente a comentários sobre as obras que vai lendo e agora integra o corpo de colunistas do Letras in.verso e re.verso.

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