Poesia não-completa de Wislawa Szymborska




Em sua “Carta quase-íntima sobre a poesia”, Czesław Miłosz escreveu: “se a descrição de uma superfície da grama torna-se problemática, é possível haver ainda lugar para um panorama que inclua pessoas, animais, manhãs e crepúsculos?” Estranhamente, Miłosz nos adverte que sua terminologia é metafórica, embora não esclareça sobre o que corresponde a metáfora – se à superfície da grama ou se às pessoas. Em todo caso, a sua pergunta poderia ser respondida de modo afirmativa com a obra de Wislawa Szymborska. Em cada um dos seus poemas, sem exceção, se vislumbra o panorama, desde o menor fragmento até esse “vasto mundo”, que, de novo segundo Miłosz, já não servem às chamadas vanguardas poéticas, cheias de visões intelectuais mas carentes, muitas vezes, de “coração e de vísceras”.

É costume da alta estética ou ética dos poetas, de alguns poetas, a desaprovação da poesia de corte mais intimista ou subjetivista, como se ela existisse à margem de seus praticantes ou como se existisse uma regra de ouro e uma só maneira de escrever; por vezes também, é quase regra coincidir de poetas lançarem-se à desaprovação, curiosamente, ao tipo de poesia que faz o seu próprio gosto. O restrito Miłosz, em sua antologia Postwar polish poetry, planeja inclusive uma divisão geográfica para o bom desempenho poético e declara que, dada as constantes invasões que a Polônia sofreu, “o poeta polonês surge com mais energia, melhor preparado que seu colega ocidental para assumir as tarefas que dizem respeito à condição humana”. Mas ainda neste contexto ideal Miłosz cria determinações. Na breve nota à seleção que oferece de Szymborska nos explica que na edição prévia de sua antologia (a de 1965) só havia escolhido um poema da autora, pois considerou que “jogava com ideias pescadas da antropologia e da filosofia”. Posteriormente (em 1970) corrigiu seu discurso ao se dizer seduzido por “sua poesia amarga, cética e engenhosa”, pela honestidade na ocasião em que expressa sua desesperança. Acabou por incluir oito poemas.

O juízo severo, essencialista ou ideológico que geralmente ocorre colocar sobre meros poemas, esses acidentes aristotélicos que dificilmente resultam em vão, pois não alcançam transcender sua natureza: um conjunto de palavras com múltiplos sentidos. E nem uma só serve para capturar a essência nem para assimilar sua ideia principal. O problema ou o erro reside, possivelmente na tentativa do poema. Szymborska não dá a impressão disso. Sua poesia é, embora paradoxal, extraordinariamente circunstancial. Sempre trata de algo e, como um perfeito círculo, alguém sempre sabe do que trata, o que não deixa de ser um texto desconcertante. 

A leitura e o entendimento são simultâneos, assemelham-se a uma mesma experiência de entrega imediata que exclui tortuosas interpretações e não cria aquela margem feiticeira de silêncio entre a página lida e a mente cavilosa. Como se alcança algo dessa maneira? Como se consegue, além disso, que a claridade possua o mistério de uma revelação? Será literatura ou será puro peso da realidade?

Para começar, é preciso admitir, que aqui a diferença é tênue e depende da ordem dos fatores: é na realidade onde se inscreve esta literatura e onde logo se escreve, quase organicamente, por geração espontânea, estes poemas. O dispositivo poético não obedece a nenhuma teoria, a nenhuma definição restritiva da poesia, mas a uma espécie de urgência moral e política. Isto é, a poesia existe em qualquer parte; apesar do que afirma Miłosz, não pode ser exclusividade da poesia polonesa. Portanto, é uma eleição que acaba por converter-se logo numa característica distintiva e numa tradição em Miłosz, Zbigniew Herbert e, sobretudo em Szymborska, onde a História, com maiúscula, está incorporada como um instinto e constrói a teatralidade própria dos poemas, o cenário em que se contam as situações derivadas do simples. Sem nunca perder de vista o universal.



O caminho é direto. Szymborska não pretende pronunciar verdades; portanto nunca mente. Ela própria leva adiante esta modéstia, ou estratégia, em seu discurso de recepção do Prêmio Nobel de Literatura em 1996. Logo depois de esclarecer que havia escrito pouquíssimo acerca da poesia, confessou que sua única ideia fixa é que não sabe nada.  Daí brota-lhe a inspiração. “Também o poeta, se um poeta de verdade, deve repetir constantemente para si mesmo: não sei”. Mesmo que esta ignorância possua sua própria tirania, seu disfarce e sua caricatura, pois, por momentos, se sabe. Ou melhor, a consequência de ser autêntico cai como uma pedra. Há na obra de Szymborska uma poeta genuína porque não sabe. A esta altura há tantos poetas originais que possivelmente, com sorte, a quantidade anule as virtudes intrínsecas dessa qualidade até conseguir que já nada o importa. E vêm os poemas e talvez às vezes as intenções.

Em Szymborska o leitor encontra tramas que são destinos. Como se cada anedota precedesse uma hipótese e o poema fosse sua demonstração. O efeito é contrário à perplexidade. Há pequenos contos e há parábolas; em quase todos os poemas existe um desenlace: textos escritos como se fossem uma narrativa. Porém, algo é tão certeiro como o poema “Medo do palco” (de Gente na ponte) em que a poeta se funde na denominação “Poetas e escritores. / É assim que se diz. / Logo, poetas não são escritores, então o quê”. A solução fala através da ironia em si, o que ocorre com frequência, uma e outra vez, na obra de Szymborska. Em “Elogio à irmã” a poeta conta “Minha irmã não escreve poemas / (...) Em muitas famílias ninguém escreve versos”, mas sua irmã cultiva “uma razoável prosa falada” e lhe manda postais de suas viagens onde lhe diz “que ao voltar / tudo / tudo / tudinho ela vai me contar”; em “A cortesia dos cegos” apresenta-se como o poeta que lê seus versos para os cegos sem imaginar que essa tarefa fosse tão difícil, “Treme-lhe a voz. / Treme-lhe as mãos. // Sente que cada frase / é posta aqui à prova da escuridão, / Vai precisar se virar sozinha / sem luzes e cores”; em “Pode ser sem título”, começa “Aconteceu de eu estar sentada sob uma árvore / na beira do rio, / numa manhã ensolarada”, admite que tal acontecimento mínimo não passará para a história, mas segue aí, sob a árvore porque “Mesmo o instante fugaz tem um passado fecundo” – voa sobre si uma borboleta branca, “Diante de tal vista sempre me abandona a certeza / de que o importante / é mais importante do que o desimportante”. No fim de contas, tantas coisas nos diz Szymborska; coisas que a própria realidade exige porque sempre acontecem toda parte.

Voltemos ao início potencial da ignorância, o “eu não sei” que adquire toda sua força por manifestar-se em primeira pessoa, mas que ao transmitir-se termina sendo aquilo que irmana a poeta a todos de sua comunidade, porque é isso o que todos sabemos. A consciência não tolera o vazio, salvo se se postula como uma pergunta que é uma resposta. Eu sou tu, diz Szymborska, e tu, quem és? Num mundo perfeito responderíamos, Eu; no imperfeito basta com Tu. Nessa corda bamba andam estes poemas e as ocasiões raríssimas em que caem os que estão do lado da astúcia pela astúcia: sempre se nota quando um poeta já aprendeu a fazer poemas. E isto às vezes acontece com Szymborska. Minutos apenas e logo volta a desaprender, escrevendo para fora, nunca para dentro. Seus poemas não falam consigo, não são alegorias da intimidade; não sussurram, não se ocultam, não postergam o sentido por etapas, em circunlóquios. Pura e sensivelmente, estão escritos para ler-se.

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* Boa parte das observações apresentadas neste texto são de Ted López Mill.



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