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Mostrando postagens com o rótulo Wisława Szymborska

Wisława Szymborska, leitora de livros inúteis

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Por Laura Sofía Rivero Wisława Szymborska. Foto: Henryk Hermanowicz   Para além das máquinas   Sabemos que todos temos gostos duvidosos. E, mesmo assim, é difícil imaginarmos um regente de orquestra ouvindo música de massa ou um Prêmio Nobel de Literatura lendo livros de autoajuda. Ao que consta, e é verdade, que Wisława Szymborska (Prowent, 1923-Cracóvia, 2012) fez a última coisa e não apenas numa ocasião: durante mais de trinta anos ela transformou a leitura voraz dos livros mais inesperados num projeto pessoal — instruções de yoga, compêndios de grafologia —, e resenhou pontualmente em sua coluna “Leituras não obrigatórias”.   Não é segredo que muitos pensam na resenha como um gênero apreciado apenas pelos verdadeiros críticos e os escritores que encontram nas maquinações uma oportunidade de se congratular com os do grêmio ou de sair de problemas financeiros. Quando Szymborska precisou deixar seu emprego na redação de Vida literária , o editor-chefe Władysław Machejek ...

Wisława Szymborska e Kornel Filipowicz: as cartas de amor e humor entre a poeta e o romancista

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Por Nuria Azancot Wisława Szymborska e Kornel Filipowicz, 1973.   Anos mais tarde, quando Kornel Filipowicz (1913-1990) já havia morrido, a própria Wisława Szymborska (1923-2012) recordava, numa conferência em homenagem ao escritor, como o viu pela primeira vez “por volta de 1946 ou 1947. Não lembro onde estava, mas a impressão que causou em mim. Loiro grisalho, bronzeado, vestia calça azul e uma camisa de um maravilhoso amarelo claro. Pensei: ‘Meu Deus, que homem lindo.’ Mas esse encontro não teve consequências naquele momento. Durante muitos anos apenas nos olhamos de longe.”   Quando se reencontraram, em 1965, ela acabara de ler uma antologia de contos de Filipowicz intitulada Menina com uma boneca ou sobre a necessidade de tristeza e solidão e pensou: “Igual a mim. Eu também preciso de tristeza e solidão.” Mestre do conto e da novela, dizia-se que era o único autor polonês que aprendeu a escrever com Anton Tchekhov e que sua prosa, “concisa e magistral”, “não envelhece”, ...

Vida de Szymborska

Por Juan Malpartida Wisława Szymborska (1923-2012) pertence a uma geração de poetas poloneses com nomes como Czesław Miłosz, Zbigniew Herbert, Tadeusz Różewicz ou Stanisław Grochowiak. Para entender a cultura literária que antecede e dá origem ao mundo em que Szymborska se formou, o erudito e memorável livro de Aleksander Wat (1900-1967) O meu século é extremamente útil. A este devemos acrescentar pelo menos O pensamento e Outra Europa , de Miłosz.   Anna Bikont e Joanna Szczęsna, em Quinquilharias e recordações. Biografia de Wisława Szymborska produziu um trabalho detalhado sobre a vida desta grande poeta. Não apenas investigaram suas publicações e documentos de arquivo, mas também pediram testemunhos de amigos e conhecidos de Szymborska e dela mesma. O melhor da obra tem a ver com a proximidade com a autora, além de uma pesquisa que, embora ainda incompleta, é notável. O pior, a falta de contraste e avaliação do personagem. As autoras são tão próximas, admiram e respeitam tan...

Ler é o passatempo mais bonito criado pela humanidade

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Por Azahara Alonso Wisława Szymborska. Foto: SIPA   Alguns bibliófilos são tão intensos quanto os escritores. Neles coexistem as forças exemplares de quem ama os livros — desculpem a analogia — do centro e à margem, da criação à recepção: da escrita à leitura. Quase sempre partem deste último e a familiaridade com as letras acaba levando-os a tentar um papel mais ativo, criador e interessado em alcançar o cume do mundo literário. Confundem, felizmente, o pertencimento de um livro: é mais seu o que compraram ou o que escreveram? Sentem-se melhor definidos como consumidores ou como produtores da palavra escrita? Confusões e dilemas, os mencionados, sem necessidade real de resolução: também podemos viver sem uma resposta a este respeito.   A observação e a conversa, pelo menos, satisfazem parte de nossa curiosidade. Uma pergunta direta convida a uma resposta igualmente simples: se tivessem que escolher, os escritores prefeririam escrever ou ler? Embora Mark Twain (ou Benjamin Dis...

Para o meu coração num domingo, de Wisława Szymborska

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Por Pedro Fernandes Há uma variedade de possíveis ao alcance do poeta e todos eles materiais para um poema. Todo poema, mesmo que rarefeito, ainda é um acontecimento. Mas, a ruptura total com uma espécie de sagração da poesia foi, sem dúvidas, a mais importante das revoluções criativas colocada em curso desde sempre. Agora, se o mundo como um reino infinito, do ínfimo ao transcendente, dos materiais visíveis aos imaginativos, pode significar a grande conquista do poeta, ampliaram-se os desafios. Quer dizer, nada se tornou mais fácil; quanto mais a criação se aproxima do mundo material maior se revela a sua complexidade. Afinal, o poético nunca é pura transferência de um mundo para outro.   Tudo pode resultar num poema, mas a sua autonomia exige do criador certo domínio que consiste basicamente no convívio ao natural com sua própria técnica. Não se trata de saber os temas possíveis ao poema e sua organização formal e estrutural e sim de estabelecer o domínio de uma voz capaz de, nu...

Quinquilharias, recordações e a alma de Wisława Szymborska

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Por Martín López-Veja O Prêmio Nobel de 1996 descobriu para o mundo uma poeta que pouquíssimos conheciam fora da Polônia, receosa às entrevistas e que considerava que se confessar publicamente equivalia a perder a alma. Wisława Szymborska escrevia poemas transparentes que olhavam o mundo de um novo ângulo que se encontrava no interior dos seres e das coisas. Sua resistência em contar mais sobre sua vida do que aquilo que aparecia em seus poemas não intimidou Anna Bikont e Joanna Szczęsna, autoras da biografia Quinquilharias e recordações (Âyinè, tradução de Eneida Favre). Juntas, eles destilaram todas as vicissitudes da vida que habitava em poemas, resenhas, conferências e recitais; conversaram com amigos, reconstruíram sua árvore genealógica, recuperaram textos inéditos e organizaram uma história tão coerente que causou a curiosidade da própria Szymborska, que acabou concordando em se reunir com suas biógrafas, dizendo: “Certo, vamos esclarecer”. O resultado são ...

Os conselhos de Wislawa Szymborska aos aspirantes a escritores

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A revista Vida literária inclui durante longo tempo uma seção que recuperava a tradição de um gênero comum em revistas; nesse caso, um correio literário. No espaço eram publicizadas respostas a autores que enviassem suas obras para leitura e parecer. Uma das pessoas responsáveis por esta seção era Wislawa Szymborska. Mais tarde, em 2000, os textos foram recolhidos e formaram parte num livro que certamente é uma peça indispensável a dois gostos: daqueles que estimam novidades mais íntimas, por assim dizer, de seus escritores e para aqueles que gostam do escutar outras experiências com a escrita. Quando em 1996 a poeta recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, a Academia Sueca justificou sua decisão porque em sua poesia a “precisão irônica permite que os contextos histórico e biológico venham à luz em fragmentos da realidade humana”. O prêmio descobriu sua obra a muitos leitores e a fascinação por Szymborska cresceu enquanto aprendíamos a pronunciar seu nome. Nessas breves pala...

Wisława Szymborska, a poeta do acaso

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Por Fernanda Fatureto No poema “Entre muitos”, incluído na antologia Poemas (Companhia das Letras, 2011), Wisława Szymborska anuncia: “Sou quem sou./Inconcebível acaso/como todos os acasos./Fossem outros/os meus antepassados/e de outro ninho/eu voaria/ou de sob outro tronco/coberta de escamas eu rastejaria”. Este é um dos poemas-chave para adentrar o universo de Szymborska. Nascida na Polônia, em 1923, presenciou a guerra em seu país durante duas trágicas ocupações – a nazista na Segunda Guerra Mundial e, posteriormente, a Stanilista que forjou mais de quatro décadas de totalitarismo. Regina Przybycien, tradutora da poeta no Brasil, afirma no prefácio de Poemas que após a morte de Stálin “os escritores na Polônia puderem seguir com maior liberdade em busca de uma voz individual”. No caso de Szymborska, encontraremos a casualidade da existência humana e da natureza dialogando entre si, numa rara postura de que a poeta nada sabe e encontra nas palavras a interrogação fund...

Poesia não-completa de Wisława Szymborska

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Em sua “Carta quase-íntima sobre a poesia”, Czesław Miłosz escreveu: “se a descrição de uma superfície da grama torna-se problemática, é possível haver ainda lugar para um panorama que inclua pessoas, animais, manhãs e crepúsculos?” Estranhamente, Miłosz nos adverte que sua terminologia é metafórica, embora não esclareça sobre o que corresponde a metáfora – se à superfície da grama ou se às pessoas. Em todo caso, a sua pergunta poderia ser respondida de modo afirmativa com a obra de Wisława Szymborska. Em cada um dos seus poemas, sem exceção, se vislumbra o panorama, desde o menor fragmento até esse “vasto mundo”, que, de novo segundo Miłosz, já não servem às chamadas vanguardas poéticas, cheias de visões intelectuais mas carentes, muitas vezes, de “coração e de vísceras”. É costume da alta estética ou ética dos poetas, de alguns poetas, a desaprovação da poesia de corte mais intimista ou subjetivista, como se ela existisse à margem de seus praticantes ou como se exis...

Os últimos poemas de Wisława Szymborska

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Alma era uma palavra-enigma. Sou seu maior problema. E os mapas? Os mapas a encantavam por seu dom de mentir ao implantar um mundo “não deste mundo”. Foram as últimas revelações que Wislawa Szymborska (Polônia, 1923-2012) deixou escrita, de seu punho, em 13 poemas póstumos. Dela, que é considerada um dos grandes nomes que recebeu o Nobel nas últimas décadas, apenas um grupo de amigos alcançou falar alguns deles antes de lhe viesse a morte em fevereiro de 2012. E entre os poemas lidos estava “Alguém a quem observo desde há um tempo”* cujo fim é ela mesma: Uma vez encontrei no mato uma gaiola de pombos. Peguei-a e para isso a tenho para que permaneça vazia. Uma estrofe que guarda uma história, mil histórias. Memórias que não peregrinam e determinam o rumo do pensamento e da atitude ante a vida. Como ela, a maioria de toda sua existência, sob o regime comunista polaco nos anos da cortina de ferro. “Para que permaneça vazia”. Vibra incessante o último verso d...