Boletim Letras 360º #363



DO EDITOR

1. Não posso deixar de comentar na abertura deste Boletim sobre o incidente registrado no último dia 18 de fevereiro e notificado em todas as redes sociais do Letras; um anônimo – com expressões ideológicas, entretanto, muito claras – escreveu um comentário na caixa do blog no texto-resenha publicado aqui no início de janeiro de 2020 sobre o romance Essa gente, de Chico Buarque (Companhia das Letras, 2019). O episódio de grosseria não é o primeiro. Mas, com o rigor do ódio, sim. Quando divulguei a nota em nome do blog foi, primeiro, para mostrar o posicionamento meu em relação ao caso e, claro, registrar publicamente a violência, além de me colocar em defesa dos inúmeros leitores, fixos ou en passant que guardam profundo zelo pelas expressões artístico-literárias.

2. Agradeço pelas mensagens recebidas dos que acompanham a materialização de um projeto conduzido voluntariamente há treze anos. Saiba que guardo profundo carinho, e o sentimento de todos os colaboradores é também o mesmo, pelos que leem, divulgam, acompanham este trabalho e afagam em situações de natureza tão triste.

3. Seguimos. Tanto que, eis aqui uma novinha edição do Boletim Letras 360º com os bons registros da semana. Num país que celebra a ignorância ou que esta se tornou símbolo de culto ou máxima expressão de poder é justo continuar a fim de mostrar quão pequeno e ridículo é um homem sem cultura, sem saber. Ignorância se combate com educação e cultura. Enquanto não nos envergonharmos dessa condição vil e mesquinha que agora é moda jamais seremos o país que queremos.

4. Este Boletim, que reúne as informações catalogadas e copiadas em nossa página no Facebook (agora não apenas), passou por várias modificações, cf. explicado na edição 360. É há muitas semanas uma alternativa de se inteirar sobre os livros que chegam e sobre outras notícias desse vasto universo chamado literatura. Obrigado pela companhia e, boas leituras!

2020 é o ano da menos famosa das irmãs Brontë; uma série de atividades visa modificar esse epíteto.


LANÇAMENTOS

Novo livro de Ayelet Gundar-Goshen no Brasil.

O neurocirurgião Eitan Green parece ter a vida perfeita. Transferido com relutância de Tel Aviv para a poeirenta Beer Sheva, à beira do deserto, o médico compra um carro novo para transitar pelas estradas tomadas pela areia. Certa ocasião, ele atropela alguém e foge do local. A vítima é um imigrante africano. As consequências o conduzirão a um mundo de segredos e mentiras que ele nunca poderia ter imaginado. Um dos nomes mais importantes da literatura israelense contemporânea, Ayelet Gundar-Goshen constrói um suspense humanitário sobre dilemas morais que faz o leitor mergulhar em um mundo desconhecido e palpitante. A tradução de Paulo Geiger para Despertar dos leões sai pela Todavia. Pela mesma casa editorial, da escritora, saiu também Uma noite, Markovitch.

A prosa cortante de Andrea Jeftanovic.

Contos profundamente perturbadores e estranhamente familiares. Contos ousados, onze socos no estômago, em que o ambiente familiar e as relações íntimas são palco de frustrações, temores e perturbações; de amores profundos e grandes esperanças. O primeiro conto, “Árvore genealógica”, é um desafio ao leitor pela forma de afeto desvirtuada, uma reação perturbadora aos fatos, radicalizada e eivada de incompreensão. No entanto, o tom da coletânea é definido no conto que lhe dá título, “Não aceite caramelos de estranhos” — a dor de uma ausência que nada pode preencher, a relação com uma realidade absolutamente incompreensível e inaceitável. Jeftanovic confere a variadas personagens em situações extremas sua voz terna e inconvenientemente franca. A tradução é de Luis Reyes Gil e a edição da Mundaréu.

A mais completa visita à escrita memorialística e autobiográfica latino-americana.

Este livro apresenta uma cartografia da escrita memorialística e autobiográfica na América Latina, um gênero que ultrapassa o sentido imediato da história dos indivíduos, revelando antes dinâmicas sociais e modos de representação que em geral ficam de fora dos discursos oficiais. Foram reunidos ensaios de pesquisadores e professores latino-americanos de diversas áreas das humanidades cujo objeto de estudo são obras memorialísticas de romancistas, ensaístas e pensadores sociais sul e centro-americanos, abrangendo desde o Uruguai até Cuba, passando por Argentina, Peru, Brasil, Colômbia, Venezuela, México e República Dominicana. Organizado por Sergio Micelli e Jorge Myers, o livro Retratos latino-americanos: a recordação letrada de intelectuais e artistas do século XX sai pelas Edições Sesc.

Antologia organizada por Hélio de Seixas Guimarães e Vagner Camilo, reúne parte interessante da contística romântica brasileira ainda por conhecer.

A antologia O sino e o relógio é fruto de um trabalho de pesquisa e coleta minuciosa que durou mais de dez anos. Com ênfase em material raro, publicado apenas na imprensa da época, a coletânea abrange autores hoje esquecidos, porém relevantes no século XIX, e traz obras assinadas por nomes geralmente associados a outros gêneros e atividades, como os poetas Fagundes Varela e Casimiro de Abreu, o editor Francisco de Paula Brito e o dramaturgo Martins Pena. Entre as raridades da coletânea estão histórias escritas por mulheres, algumas pouco conhecidas hoje, como Corina Coaracy e Escolástica P. de L, ao lado de Nísia Floresta e Maria Firmina dos Reis. Ao todo são 25 narrativas publicadas entre 1836 e 1879. O livro se divide em quatro grandes conjuntos temáticos – fantástico, histórico, cotidiano e intriga. São classificações que levam em conta a trama central dos contos, embora muitas vezes suas características se misturem. Essa disposição permite revelar que o Romantismo, tal como praticado no Brasil, abrangeu mais temas do que os tradicionalmente reconhecidos, como o indianismo ou a exaltação da natureza. Sobressaem na antologia os temas fantásticos e as crônicas de costume. Sobre o primeiro filão, os organizadores observam no prefácio que “as histórias são povoadas de seres fantásticos como tatus brancos, fantasmas, vozes cavernosas e cadaverosas, instrumentos mágicos e malditos e uma noiva-cadáver”. O título O sino e o relógio se refere aos temas do primeiro e último contos do volume, da autoria, respectivamente, de Franklin Távora e Machado de Assis, este já tendendo a uma abordagem irônica dos postulados românticos e adotando um desenlace amargo, mais aparentado ao realismo. Lado a lado com os nomes hoje pouco conhecidos estão autores canônicos do Romantismo como José de Alencar, Bernardo Guimarães, Joaquim Manuel de Macedo e Visconde de Taunay. O prefácio traz também uma análise original do surgimento e fixação do conto na literatura mundial, e especialmente no Brasil. Os autores, especializados na literatura da época, analisam o próprio uso do termo “conto”, que durante o período romântico ainda não se encontrava totalmente definido. Usavam-se na época as classificações raconto, novelas e anedotas, entre outras. A imprecisão vocabular contribuiu para a ideia de que o conto foi gênero raro no romantismo brasileiro, o que a antologia mostra ser um equívoco. O sino e o relógio oferece ao leitor uma notável variedade, de aventuras passadas durante a Guerra do Paraguai e a Revolução Farroupilha até retratos da elite da capital do Império ou histórias de amor arrebatadoras. O projeto gráfico da obra também deriva de amplas pesquisas às obras da época. A designer Laura Lotufo fez uma releitura dos elementos gráficos dos livros do período romântico, além de se inspirar nas vinhetas dos contos publicados em periódicos. Na época, os livros eram comprados em cadernos soltos e depois levados ao encadernador para receberem costura, capa e acabamento. A arte da capa de O sino e o relógio utiliza molduras tradicionalmente aplicadas em douração sobre couro, evocando as variações de tom, tema e estilo dos contos da antologia.

REEDIÇÕES

Nova edição de Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos.

Faltava escrever apenas um capítulo de suas memórias quando Graciliano Ramos faleceu, em 1953. Apesar de inacabado, o livro foi publicado de forma póstuma, originalmente em quatro volumes, com uma “Explicação final” de Ricardo Ramos fazendo as vezes de conclusão, e logo tornou-se o maior sucesso do autor ― já renomado, mas pouco lido pelo público em geral. Graciliano Ramos foi preso em Maceió, em março de 1936, e ficou detido, sem acusação formal, passando por prisões em Recife e no Rio de Janeiro, até ser libertado em janeiro de 1937, um dos mais ilustres prisioneiros vitimados pela repressão do governo Vargas. Testemunho político de alto nível literário, as Memórias do cárcere reafirmam a qualidade excepcional da escrita de um dos maiores escritores brasileiros.

Nova edição de A odisseia de Penélope, de Margaret Atwood.

Na Odisseia de Homero, Penélope – mulher de Odisseu e prima da bela Helena de Troia – é retratada como a esposa fiel por excelência, e sua história é tida como um exemplo de fidelidade e da obediência feminina ao longo dos tempos. Deixada sozinha por vinte anos, quando Odisseu sai para lutar na Guerra de Troia após o sequestro de Helena, Penélope consegue, em meio a rumores escandalosos, assegurar o reino de Ítaca, criar Telêmaco, seu filho rebelde, e manter distância de mais de cem pretendentes. Quando Odisseu finalmente chega em casa, após sobreviver aos desafios do mar Egeu, vencer monstros horripilantes e dormir com deusas, ele mata todos os pretendentes de sua esposa – e, de maneira ainda mais espantosa, doze de suas criadas. Em uma surpreendente releitura contemporânea de uma das maiores obras da Antiguidade, Margaret Atwood decide dar voz a Penélope e suas doze criadas enforcadas para responder duas grandes perguntas: Qual o real motivo dos enforcamentos? E o que Penélope estava realmente planejando? Ao reimaginar o episódio, a autora se utilizou de várias fontes – já que a Odisseia de Homero não é a única versão da história – para criar uma obra ao mesmo tempo inteligente, bem-humorada e reflexiva. Em A odisseia de Penélope, Atwood subverte a narrativa original e concede a sua heroína uma nova vida e realidade, e se propõe a dar uma resposta a um antigo mistério. A tradução de Celso Nogueira é publicada pela Editora Rocco no amplo projeto de edição da obra da escritora no Brasil.

Reimpressão de Diante da dor dos outros, de Susan Sontag.

Imagens do sofrimento são apresentadas diariamente pelos meios de comunicação. Graças à televisão e ao computador, imagens de desgraça se tornaram uma espécie de lugar-comum. Mas como a representação da crueldade nos influencia? O que provocam em nós exatamente? Estamos insensibilizados pelo bombardeio de imagens? Em Ensaios sobre a fotografia, publicado no Brasil no começo dos anos 1980, Susan Sontag abordou o tema em termos que definiram o debate pelas décadas seguintes. Aqui, faz uma nova e profunda reflexão sobre as relações entre notícia, arte e compreensão na representação dos horrores da guerra, da dor e da catástrofe. Discutindo os argumentos sobre como essas imagens podem inspirar discórdia, fomentar a violência ou criar apatia, a autora evoca a longa história da representação da dor dos outros – desde As desgraças da guerra, de Francisco de Goya (1746-1828), até fotos da Guerra Civil Americana, da Primeira Guerra Mundial, da Guerra Civil Espanhola, dos campos nazistas de extermínio durante a Segunda Guerra, além de imagens contemporâneas de Serra Leoa, Ruanda, Israel, Palestina e de Nova York no 11 de setembro de 2001. Num texto preciso e provocador, Sontag levanta questões cruciais para a compreensão da vida contemporânea. De sua reflexão surge uma formulação surpreendente e desafiadora: a relevância dessas imagens depende, em última instância, da maneira com que nós, espectadores, as encaramos.

EVENTOS

O ano de Anne Brontë.

No dia 17 de janeiro de 2020 passaram-se os 200 anos de Anne Brontë. O Brontë Personage Museum, para assinalar a efeméride, organiza uma série de eventos, incluindo uma grande exposição, que mostra, entre outros objetos, a última carta da autora, que morreu de tuberculose em 1849, e uma cópia do seu segundo romance, The Tenant of Wildfell Hall. Esta é a primeira vez que o museu de Haworth, em Yorkshire, organiza uma mostra inteiramente dedicada a Anne, a mais nova das três irmãs e aquela que é mais vezes esquecida. O nome da exposição, Amid the brave and Strong (“Entre os bravos e corajosos”), é uma referência ao último poema conhecido de Anne. A versão manuscrita do poema que integra a exposição confirma a forte fé de Anne, mas também expressa a sua angústia e a luta terrível para se resignar à vontade de Deus. O poema foi extensamente editado por Charlotte depois da morte de Anne.  Além da exposição, patente até 1 de janeiro de 2021, o Brontë Personage Museum irá organizar, ao longo deste ano, vários colóquios, para celebrar o bicentenário da escritora.

DICAS DE LEITURA

O melhor de ler sem amarras está nas descobertas que fazemos pelo caminho; mas, nenhuma descoberta tem o sabor completo se não partilhamos com alguém. Isso serve para dizer a valia das listas e das recomendações que apresentamos a cada semana nesta seção.

1. Breve romance de sonho, do Arthur Schnitzler. O escritor é um dos expoentes da literatura austríaca da virada do século e grande parte de sua obra está traduzida no Brasil. O livro aqui recomendado é o seu mais conhecido, sobretudo, pela adaptação para o cinema realizada por Stanley Kubrick com De olhos bem fechados. Quer dizer, embora muita gente o conheça, nunca é demais sublinhar a riqueza e a beleza desse romance breve que pode ser lido tranquilamente no final de semana. Certa vez, numa conversa de casal, uma mulher expõe o um episódio passado sobre um flerte com um jovem dinamarquês. A situação desencadeia toda a sorte de acontecimentos derivadas do ciúme e da obsessão do macho ferido sem arma aparente. É sedutora a maneira como Schnitzler desenvolve uma narrativa apenas equilibrada na linha da suspeita. A tradução brasileira é de Sérgio Tellaroli e foi publicada pela Companhia das Letras.

2. As pequenas virtudes, de Natalia Ginzburg. A escritora italiana dispensa maiores apresentações; uma porção valiosa de sua obra tem sido publicada no Brasil desde há muito. Recentemente a Companhia das Letras iniciou o trabalho de reedição dos livros dela, incluindo a publicação de alguns que ainda eram desconhecidos nossos. Dos títulos reapresentados este talvez fosse o mais esperado. Desde quando a Cosac Naify fechou, logo se tornou uma relíquia entre os livreiros. O livro reúne onze textos que propositalmente desfazem as fronteiras entre o histórico e o imaginário, o individual e o coletivo. O livro é dividido em duas partes. A primeira se atém a deslocamentos ― como o período em que a autora morou em Londres ― e a retratos de duas figuras centrais em sua vida: o poeta Cesare Pavese, de quem ela foi amiga, e Gabriele Baldini, seu segundo companheiro. Na segunda, figuram ensaios poderosos, como “O filho do homem”, uma avaliação das sequelas da guerra recém-terminada; “O meu ofício”, em que Ginzburg explora as relações entre escrita e verdade íntima; e o texto que dá título a este volume, um elogio extraordinário às verdadeiras grandezas humanas. A tradução é de Mauricio Santana.

3. Escritor por escritor. Machado de Assis segundo seus pares, de Ieda Lebensztayn e Hélio de Seixas Guimarães (Orgs.) Na maioria das vezes o olhar de um escritor sobre uma obra literária é diferenciado em relação ao leitor crítico. É verdade que nem todos se sentem à vontade para comentar sobre os seus pares, sobretudo se seus contemporâneos. Mas, Machado de Assis, pela dimensão que ocupou na nossa literatura (e ainda em vida) sempre mereceu a atenção de outros escritores; ele próprio foi também um leitor atento às obras do seu tempo – e em parte isso tenha contribuído para um diálogo de reciprocidades. Dos seus contemporâneos àqueles que vieram depois, os autores reúnem neste volume editado pela Imprensa Oficial de São Paulo um conjunto de textos que ressaltam memórias e visões que nos deixam ver um pouco do escritor e do homem Machado. O livro é o primeiro de coletânea mais ampla e cobre aqui o período de morte do escritor em 1908 até 1939, o centenário do seu nascimento, com destaque para três artigos brilhantes de Mário de Andrade, que, como nos revela em carta, lhe custaram muito a escrever.

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

1. Nesta semana foi aniversário de Lêdo Ivo. Um dos mais importantes nomes da chamada Geração de 1945, ele escreveu poesia (gênero pelo qual foi reconhecido) e prosa (incluindo romances, contos, ensaios e crônicas). Na galeria de vídeos do blog no Facebook, deixamos o documentário Imagem peninsular de Lêdo Ivo, vencedor do Edital DOCTv 2003 e que registra toda sua trajetória.

2. No dia 22 de fevereiro de 2020 passaram os 40 anos da primeira edição de Levantado do chão, romance de José Saramago que abriu as portas para o universo romanesco do escritor português. No canal do Letras no Youtube, replicamos um documentário realizado pela RTP, emissora portuguesa, que relata a gênese da obra, seu impacto na literatura portuguesa e o reencontro do escritor com a região de Monte Lavre, onde viveu coletando informações que deram forma à escrita do romance.

BAÚ DE LETRAS

1. Em março de 2008, escrevemos essas notas biobibliográficas sobre Lêdo Ivo; a partir da postagem encontram endereço de acesso para alguns poemas do poeta publicados no blog da Revista 7faces. 

2. Costuma-se dizer que depois das redes sociais todo dia é dia de alguma celebração. O dia 17 de fevereiro é Dia Mundial do Gato. Esta data foi criada por uma instituição italiana, com o objetivo de ajudar a promover uma campanha contra os maus-tratos aos gatos. No blog, o leitor encontra alguns textos sobre relação dos bichanos com/ na literatura. Dentre eles, esta lista com treze obras literárias nas quais eles são os protagonistas. 


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