Lêdo Ivo




Falastrão. Este é o epíteto que colecionamos a partir de uma declaração do próprio Lêdo Ivo dada ao poeta pelo amigo João Cabral de Melo Neto. A história foi contada ao jornalista Geneton Moraes Neto numa entrevista feita há cerca de dez anos e agora publicada no seu blog: “João foi um grande amigo meu, mas tínhamos temperamentos diferentes. Enquanto ele ia para um lugar, eu ia para outro. Dizia que eu falava muito; achava que só a morte é que me reduziria ao silêncio.” Pela ocasião dessa amizade, João Cabral lhe escreveu um epitáfio:

Aqui repousa
Livre de todas as palavras
Lêdo Ivo,
Poeta,
Na paz reencontrada
de antes de falar
E em silêncio, o silêncio
de quando as hélices
param no ar

Aliado ao falastrão também outro epíteto, o de polêmico. Novidade nenhuma do segundo, porque ao que parece, quem muito fala também, em grande parte, incomoda. Sim, porque, o que polemiza é também o que incomoda. Mas, isso, antecipamos, é longe de ser algo negativo, mas adequado e necessário para todo aquele que escolheu a arte o seu lugar no mundo. E quando vozes assim silenciam, já sabemos, o mundo perde um pouco do estágio de lucidez – coisa já um tanto escassa, diga-se.

Lêdo Ivo é dono de uma obra monumental. Produziu em todos os gêneros: na crônica, no conto, no romance, no ensaio, na narrativa infanto-juvenil e na poesia, em que mais se destacou. Dos poetas produzidos no Nordeste do Brasil, e não são poucos, foi um dos destaques. Nasceu em Maceió, em 1924, depois foi morar no Recife, onde fez se iniciou no meu literário; ainda assim, seu primeiro livro só foi publicado, em 1944, quando então já havia se mudado para o Rio de Janeiro, cidade onde morou até o fim da sua vida, findada na semana passada, num restaurante em Servilha, na Espanha.

Formado em Direito, nunca advogou, fez do jornalismo sua profissão e nela atuou desde quando morava no Recife até quando foi para o Rio de Janeiro; dividindo o trabalho com o da tradução – o escritor verteu para o português obras de Jane Austen, Maupassant, Rimbaud, Dostoievski, entre outros.

O livro de estreia, foi de poesia, As imaginações seguido de mais de duas dezenas de títulos no gênero, com destaque para Cântico, livro ilustrado por Emeric Marcier, Finisterra, Calabar, O rumor da noite. Em poesia, ganhou vários prêmios, como Pen Club do Brasil e o Jabuti.

Como romancista, estreou em 1947, com As alianças; depois veio Ninho de cobras, O caminho sem aventura, O sobrinho do general e A morte do Brasil. Ainda prosa publicou contos – Use a passagem subterrânea, O flautim, Um domingo perdido, entre outros, – crônicas – A cidade e os dias, O navio adormecido no bosque – ensaios sobre Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Raimundo Correia, Raul Pompéia, João do Rio, sobre poesia e o ofício do poeta. Também escreveu duas autobiografias, Confissões de um poeta e O aluno relapso. Na literatura infanto-juvenil publicou O canário azul, O menino da noite, O rato e a sacristia e A história da tartaruga.

Como se vê, pelo conjunto dos títulos citados e pelos deixados de citar, Lêdo Ivo foi também um falastrão das Letras, coisa rara entre os escritores brasileiros.

Ligações a este post
Acessando o hotblog 7faces, aqui, podem ler poemas de Lêdo Ivo.

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