Boletim Letras 360º #378



DO EDITOR

1. Cara leitora, caro leitor, obrigado pela companhia com o Letras. Abaixo estão as notícias divulgadas durante a semana em nossa página no Facebook e a atualização das demais seções deste Boletim com as recomendações de leitura, assuntos de arredores do campo de interesse do blog e a sugestão de visita a algumas das publicações apresentadas aqui. Boas leituras!

Alejandra Costamagna. Dois romances marcam a chegada da obra da escritora chilena ao Brasil. 


LANÇAMENTOS

Livro vencedor do Booker Prize em 2019 chega aos leitores brasileiros.

Jokha Alharthi é autora de uma obra que foi a primeira em língua árabe a receber o Booker Prize. A escritora de Omã teve seu livro inscrito no prêmio depois de ser, também, a primeira omanita a ter traduzido uma obra para o inglês. Com o título de Damas da lua, o romance chega ao Brasil em julho, com tradução direta do árabe de Safa Jubran. Situada num vilarejo de Omã, a narrativa é uma saga familiar a partir de três irmãs e suas relações divergentes com o casamento: uma que se casa após um desgosto; outra, por um senso de dever; e Khawla, que decide recusar todas as ofertas e espera casar-se com o homem que ama, que emigrou para o Canadá. A edição é da Editora Moinhos. Jokha Alharthi é autora de dois outros romances, de duas coletâneas de contos e de um livro infantil; o seu trabalho já foi publicado em inglês, alemão, italiano, coreano, sérvio e agora, pela primeira vez, chega ao Brasil.

Um exercício de empatia por meio da escrita. Em seu segundo romance escritor traça um drama de perdas e reencontros.

Que drama maior pode acontecer a uma mãe do que o de perder um de seus filhos? É esse o tema central da nova obra do escritor Pedro Torres Lobo, publicada pela Editora Penalux. Em Vinte anos, segundo romance do autor, são contadas vidas que se aglutinam e se desenvolvem – imbricadas – em torno de um evento: a separação entre mãe e filha, no dia do seu nascimento, para ser entregue à adoção. O fato de perder a filha, em vida, faz com que a mãe biológica busque conhecer-se melhor, saindo de casa ao encontro de um destino desconhecido. Graças ao talento do romancista, esse enredo aparentemente singelo se transforma em uma trama psicológica que nos mostra o quanto os laços familiares – mais fortemente, o laço sanguíneo entre a mãe e sua prole – podem ser inquebrantáveis e dotados de grande força misteriosa. O autor monta sua narrativa intercalando capítulos que, como um quebra-cabeça, são tecidos no presente e no passado da vida de cada uma das personagens, revelando os antecedentes do fatídico dia e suas ramificações e consequências.

Terceiro livro de Pepetela no projeto editorial da Editora Kapulana.

No romance Sua Excelência, de corpo presente, o escritor angolano elege como protagonista um ditador africano já morto. Pepetela, a partir das reflexões que o defunto faz em seu próprio velório, nos apresenta um quadro político e social de um país africano. A obra surpreende por sua atualidade e universalidade.

Novo livro de Ricardo Lísias reprocessa os fatos recentes da história do Brasil.

Ainda na noite de 28 de outubro de 2018 ― quando 57 milhões, 796 mil e 986 brasileiros fizeram o inimaginável e depositara na urna o voto em um candidato que não tinha nenhum programa de governo organizado, havia feito declarações racistas, machistas e homofóbicas e elogiara abertamente torturadores e a ditadura militar ―, o escritor Ricardo Lísias começou este Diário da catástrofe brasileira, que, obsessivamente, não largou até hoje. Pouco mais de um ano depois, a polícia tornou-se ainda mais violenta, casos de censura voltaram às artes, o Brasil virou motivo de piada no mundo, o desmatamento atingiu índices mais do que alarmantes, centenas de agrotóxicos foram liberados para uso, a população é estimulada a não acreditar em dados científicos, a agressão à imprensa por parte do governo é corriqueira e a economia, vejam só, continua em crise. O leitor encontrará aqui uma análise reveladora do material de campanha que circulou ainda antes de 2018 e que até agora não foi bem avaliado. Da mesma maneira, tanto a Operação Lava Jato quanto seu principal condutor, o ex-ministro Sérgio Moro, são vistos de forma original e surpreendente. O texto alterna momentos de assombro, outros de indignação, sem perder em nenhum momento a coerência e a necessidade (que ele parece entender como uma obrigação) de achar sentido para o sucesso daquele que foi, nas palavras de Lísias, “o pior candidato da história eleitoral brasileira”. Não há nenhuma condescendência: se sobram muitas críticas à imprensa, por exemplo, Lísias avalia seu próprio comportamento, e o de seu meio, ao mesmo tempo em que desenvolve hipóteses sobre arte, sociedade e cultura. As páginas do Diário da catástrofe brasileira se desenvolvem sem que as principais conjunções adversativas sejam usadas. Para o autor, definitivamente, passou da hora do mas, porém, todavia, no entanto e contudo. E este é só um exemplo da originalidade deste livro às vezes assustador, outras, engraçado, e sempre ousado e esclarecedor.

Dois romances apresentam a obra de  Alejandra Costamagna aos leitores brasileiros; publicações da Editora Moinhos.

1. O sistema do tato é um romance sobre alienação e pertença, sobre dois países separados por uma montanha, sobre uma família, ausências, lembranças e palavras, como os que o tio Agustín digita em seus cadernos de datilografia, ou como os que Ania, fascinada por erros de digitação, coleciona de suas aulas como professora. A história se desenrola através de uma narrativa dupla na qual outros textos complementares aparecem: entradas de uma enciclopédia antiga, romances de terror resgatados dos escombros, manuais de comportamento de migrantes, digitando ditados que parecem ter sido derrubados com raiva, fotos meio desbotadas, cartas de um continente para o outro e dezenas de arquivos espalhados. O sistema do tato lida com a busca pela identidade e sua inevitável dissolução com um estilo muito delicado, evanescente, que deslumbra sem a necessidade de levantar a voz. Este é um trabalho que confirma Alejandra Costamagna como uma das escritoras mais poderosas e sutis da literatura latino-americana contemporânea.

2. Uma mulher que precisa decidir se deve ou não fazer uma operação que lhe dê 50/50 de chance de sobreviver a uma doença fatal. Um homem que deixa tudo para trás para seguir uma mulher por quem se apaixonou vê seu mundo desmoronar quando o tio dela entra em cena. E outra mulher segue o homem que a abandonou até o Japão, onde uma tragédia ainda maior aguarda. Com a prosa precisa e delicada que a tornou uma das vozes mais originais do Chile, Alejandra Costamagna cria um mundo que aproxima o leitor da natureza estranha e passageira da vida. A tradução de Impossível sair da terra é Mariana Sanchez; mesma autora da tradução de O sistema do tato

Uma seleção de poemas de amor escritos por um de seus mais célebres intérpretes.

“Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure”, proclama Vinicius de Moraes em 1939 naquele que se tornaria um dos poemas mais apaixonantes da língua portuguesa. Oitenta anos depois, “Soneto de fidelidade” segue em nosso imaginário coletivo como um verdadeiro hino de celebração ao amor. Em Ao meu amor serei atento, o leitor vai encontrar vinte poemas que descrevem a “eterna aventura” nas palavras de um de seus mais consagrados entusiastas. Em toda a sua obra, que inclui poemas, letras e crônicas, Vinicius elegeu o arrebatamento amoroso como seu tema central e nos ensinou a viver “cada instante/ Desassombrado, doido, delirante/ Numa paixão de tudo e de si mesmo”. A edição é da Companhia das Letras.

Três livros abrem uma nova coleção, Diminuta, da Editora Âyiné com temas do contemporâneo.

1. O primeiro volume apresenta dois capítulos que integram Homo Poeticus, antologia de não-ficção do escritor iugoslavo Danilo Kiš. O ensaio de 1985 discorre sobre como a censura procura “destacar sua própria legitimidade ao mesmo tempo que busca camuflar sua própria negação” e a respeito da natureza da autocensura, que ele caracteriza como a “leitura do próprio texto com olhos alheios”. Já na entrevista que compõe o segundo, o autor trata, entre outras questões, de ideias relativas à literatura moderna, ao crítico literário como leitor, ao domínio do estilo na escrita – “a prosa começa bem onde cessa o recado” –, à biografia do escritor como palimpsesto e, sobretudo, a alguns aspectos do pensamento de Sartre, escritor do qual Kiš se sente próximo e sobre o qual afirma que “está certo até quando erra”. A tradução dos textos é de Aleksandr Ivanovich.

2. O artigo do filósofo Giorgio Agamben publicado pelo jornal Il Manifesto em fevereiro deste ano, no irromper da Covid-19 na Itália, é o fio condutor da seleta de textos que compõe Vozes do fronte: Considerações sobre o irromper da Covid-19 na Itália. Publicados em diversos veículos da imprensa italiana, são vozes favoráveis e contrárias à leitura que Agamben faz o estado de exceção instituído, considerando-o uma urgência imotivada. No entanto, mais do que apenas debater o perigo ínsito de que essa imposição da limitação da liberdade dos cidadãos possa se tornar um instrumento governamental normal, Vozes do fronte apresenta um panorama amplo de discussões que, embora concentradas no âmbito italiano, perpassa questões relativas a economia, saúde mental, xenofobia assim como ao legado da pandemia para as relações humanas no mundo todo. Os textos foram traduzidos por Vinícius Nicastro Honesko.

3. Em “Nostalgia” do passado. Uma chave de leitura do islã hoje, a islamista Biancamaria Scarcia Amoretti se propõe a examinar, partindo da epígrafe longing for home, do livro de Svetlana Boym, e do conceito de nostalgia por ele suscitado, assim como através do referenciamento ao impacto do islã como religião, o que é subentendido pelas ideias de “regresso” e “casa” por muçulmanos e, de modo mais amplo, pelo que se costuma qualificar como “islâmico”. Por meio desse prisma, O ensaio busca assim analisar “fenômenos que caracterizam a crise do mundo islâmico contemporâneo, na tentativa de localizar as problemáticas identitárias que se encontram na raiz dos mesmos, ou as suas possíveis consequências”. A tradução é de Pedro Fonseca.

OS LIVROS POR VIR

Obra de Virginia Woolf ganha nova casa editorial no Brasil.

A Editora Nós publicará diários, ensaios e um livro para crianças. O projeto inicia ainda em 2020 com a publicação do ensaio A Sketch of the Past, escrito entre 15 de maio de 1939 e 15 de novembro de 1940 e que teria servido para uma autobiografia de Woolf. Já os diários, nunca publicados integralmente no Brasil, estão nos planos da casa editorial para 2021, quando a ideia é trazer o infantil A cortina da Tia Bá. O projeto visa destacar ainda obras sobre Virginia Woolf, como a biografia romanceada Virginia escrita pela francesa Emmanuelle Favier. A obra da autora está em domínio público desde 2012, o que desencadeou por aqui renovadas traduções e edições da sua obra. As informações foram divulgadas no Estadão.

REEDIÇÕES

Menino de engenho abre reedição da obra de José Lins do Rego, agora em nova casa editorial.

Primeiro romance de de José Lins do Rego, Menino de engenho é uma narrativa cativante composta pelas aventuras e desventuras da meninice de Carlos. A trama revela a grandeza literária de seu autor, que compõe, com minúcia e de forma magistral, as alegrias, inquietações e angústias do menino diante de sensações e situações por ele vivenciadas pela primeira vez. Publicado pela primeira vez em 1932, o livro comprova, sem sombra de dúvidas, o talento monumental de um escritor, cuja obra nortearia os rumos do moderno regionalismo brasileiro. A edição ora publicada pela Global marca o ingresso do autor em sua nova casa editorial. O projeto gráfico de capa e a ilustração são de Mauricio Negro. O livro traz um texto de apresentação do Professor João Cezar de Castro Rocha, titular de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, especialmente encomendado para esta edição.

Nova edição de A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói.

Ivan Ilitch está morto. No dia de seu velório, colegas discutem quem ficará com seu cargo no trabalho, enquanto a viúva se preocupa em conseguir uma pensão do governo. Como um homem com carreira consolidada e família exemplar chegou a esse fim? E como todos nós chegamos ao inevitável fim da vida? A morte de Ivan Ilitch, de 1886, é uma obra fundamental que aborda um mal que o progresso não foi capaz de aplacar até os dias de hoje: a angústia de se saber mortal, ou pior, de se perceber protagonista de uma vida sem sentido. A nova edição da Antofágica foi traduzida diretamente do russo por Lucas Simone e traz ilustrações de Luciano Feijah, além de textos complementares de Luciano Feijah, Julián Fuks, Lucas Simone e Maria Julia Kovács e apresentação de Yuri Al'Hanati.

DICAS DE LEITURA

1. São Bernardo, de Graciliano Ramos. Na edição 377 deste Boletim falamos sobre o festim em torno da tradução recente em língua inglesa de um dos romances mais conhecidos de Machado de Assis Memórias póstumas de Brás Cubas. Acontece que, antes disso, outro livro já clássico da nossa literatura havia sido traduzido nesta língua. Sim, este mesmo que agora é recomendado. A tradução de Padma Viswanthan saiu pela New York Review Books Classics e, pela primeira, pratica-se a acertada decisão de preservar o título da edição em língua portuguesa. Nesta semana uma crítica do lado de lá chegou a estabelecer relações duvidosas, é bem verdade entre o escritor brasileiro e William Faulkner. Por aqui, este romance foi reeditado recentemente pela Editora Record, no projeto de revisão editorial proposto por esta casa para a obra de Graciliano Ramos. A vista dessa nova roupagem, pelo menos no caso da obra em questão, dilapida o título pela forma não praticada desde o original, S. Bernardo o que é uma pena. Aqui, o leitor se depara com Paulo Honório e a tentativa de contar sua própria história. Na síntese certeira apresentada pela editora, São Bernardo “É o perfil de um homem envolvido quase instintivamente no jogo de poder, na arriscada aposta da lei do mais forte, e para quem o triunfo rende apenas o vazio e o abandono.” Vale aproveitar o privilégio de poder ler este romance na sua força original.

2. Quinquilharias e recordações, de Anna Bikont e Joanna Szczęsna. A tradução dessa biografia sobre uma poeta que guardava distanciamento do confessionalismo pode nos levar a encontrar outras faces da sua poética que, curiosamente, se tornou uma das mais lidas entre os leitores brasileiros. O livro, tal como apresentado, se diz ser um compêndio dos detalhes biográficos levantados pelas autoras a partir da vivência com sua obra de Wislawa Szymborska e os textos escritos para colunas literárias realizados ao longo de sua trajetória. O livro que agora chega foi apresentado em 1997 e revisado para uma edição definitiva em 2012. Por aqui, a tradução é de Eneida Favre e o livro é publicado pela Âyiné; a casa editorial já havia publicado por aqui, da mesma poeta, Riminhas para crianças grandes, em 2018, que também foi recomendado noutra edição deste Boletim Letras 360º.

3. Esta valsa é minha, de Zelda Fitzgerald. Para o escritor Cario Fernando Abreu, autor do prefácio da edição brasileira publicada pela Companhia das Letras, este romance é produto de uma literatura feita “para se justificar, para se compreender, para se salvar. Para orientar a si própria dentro daquele poço onde tinha caído e que, até hoje, por falta de outra palavra mais adequada, chamamos de loucura.” O romance foi escrito em um hospital psiquiátrico em apenas seis semanas, entre turbulências de vária ordem: não era apenas a condição psicológica da escritora que fora colocada em questão, mas as implicâncias de uma obsessão e de um machismo reinantes no seu companheiro, F. Scott Fitzgerald. Lido como um texto autobiográfico, um relato de época e um irrecusável convite para penetrar um universo feminino, alegre e sensível, mas também carregado de desilusões.

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

1. Vem à luz conto inédito de Ernest Hemingway com as cores da narrativa de O velho e o mar. “Pursuit as Happiness” (A busca como felicidade, em tradução livre) narra a busca de um pescador por um gigantesco peixe espada. O feito desta vez do próprio Ernest Hemingway, narrador e personagem principal da narrativa, e de dois amigos, Mr. Josie (o que repete o sobrenome do amigo do escritor Joe Russell com quem pescava em Cuba) e Carl Gutiérrez. O fim da busca não termina qual pensavam os pescadores. O manuscrito publicado na revista New Yorker (leia aqui, em inglês) foi encontrado pelo neto do escritor, Sean Hemingway, na coleção da Biblioteca John F. Kennedy, de Boston. O velho e o mar foi escrito originalmente em 1951; “Pursuit as Happiness”, em que os acontecimentos estão situados em 1933, pode ter sido escrito entre 1936 e 1956, quando Ernest Hemingway trabalhava na adaptação cinematográfica do célebre conto. O título “Pursuit as Happiness” é atribuição do segundo filho do escritor, Patrick Hemingway, já que o original, apesar de completo, não dispunha de um e remete para a segunda parte de Green Hills of Africa (As verdes colinas da África), uma adaptação de uma passagem famosa da Declaração da Independência dos Estados Unidos: “Vida, liberdade e busca da felicidade”. Uma reedição estadunidense de O velho e o mar incluirá estas páginas até agora desconhecidas.

BAÚ DE LETRAS

1. Por falar em conto inédito de Ernest Hemingway, em 2018, o blog publicou um texto que tratava sobre outra descoberta do tipo. Junto com o texto, o leitor pode recordar ainda o registro do que se designa como primeira experiência de escrita do escritor estadunidense nesta forma narrativa.

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