O empoderamento no exercício existencial da escrita em A cor púrpura, de Alice Walker

Por Wagner Silva Gomes

 


Em A cor púrpura, de Alice Walker, tem-se em Celie e Nettie duas irmãs negras lutando contra a desumanização imposta pelo patriarcado que considera a mulher negra objeto, instrumento de trabalho, como um animal. E até mesmo para o sexo, como abusa de Celie o seu padrasto, sem se importar com o laço familiar e a idade da garota. As irmãs se valem do empoderamento antissexista, mudando as consciências individuais, criando estratégias no cotidiano para a reinvindicação do direito à humanidade, como coloca a Djamila Ribeiro em seu livro Quem tem medo do feminismo negro? Isso desde quando ludicamente as irmãs criam um espaço de convívio e fortalecimento com brincadeiras e conversas de que uma sempre terá a outra, e como pilar de humanização, pelo que o contexto mostra.

Celie é obrigada a casar com Sinhô, um homem que procurava uma mulher para cuidar de seus filhos e de sua casa. Ele queria Nettie, por achá-la bonita, mas como o pai não lhe entregou esta, por valorizá-la mais, Celie mesmo o serviu, já que a união dispensava qualquer laço afetivo e mesmo de interesse estético. Nettie não suporta mais ficar com o pai, pelo maltrato e por não querer ficar longe do seu pilar para a saúde mental, para sua humanização, que era a irmã Celie, indo morar assim com essa. Mas Sinhô procura Nettie para o sexo, e depois de uma perseguição, a qual a mesma escapou da violação, Nettie foi por ele expulsa da casa, pois não queria mais ficar com uma mulher que não lhe tinha serventia nenhuma, na sua visão.

Já imaginando que um dia iriam se separar, as irmãs prometem se corresponder por cartas, tendo Nettie que ensinar Celie a ler para que a troca de correspondências fosse possível. E este gesto de empoderamento educacional para que o laço afetivo se fortaleça a qualquer distância foi que permitiu a constituição do livro, sendo ele todo em formato de correspondência, quando não para a irmã (já que durante muito tempo Sinhô impede a chegada da carta às mãos de Celie, escondendo todas elas por anos), para Deus, confidente, base de reivindicações e críticas existenciais da condição humana que é desumana, já que o ato de objetar a realidade material contemplativamente, para que pudesse exercer o protagonismo subjetivo, só lhe era permitido através da escrita da carta, sendo seu cotidiano uma eterna vida activa, sempre pronta a atender o Sinhô, conduzindo sua casa, como um cavalo conduz seu cavaleiro e leva chicotadas caso saia do rumo certo. 

Mas Celie, embora aparentemente domada pelas rédeas, em um processo de infantilização que Lélia Gonzalez aponta ocorrer quando não se tem direito à voz, exercita a sua desenvolvendo uma estratégia para o empoderamento e a saúde mental através da escrita, que por si só, quando feminina, já é um processo de luta contra a invisibilidade, o apagamento do protagonismo social, como destaca a pesquisadora Syonara Lima Dawsley, em sua dissertação A escrita de si em A cor púrpura, de Alice Walker e Diário de Bitita, de Carolina Maria de Jesus.

E a força do empoderamento subjetivo e do laço com sua irmã é tanta, que aos poucos Celie consegue se libertar da opressão de Sinhô, tendo notícia de que seus dois filhos que lhe foram tirados, nascidos da relação de abuso com seu padrasto, estão com Nettie, na África, pois o casal que está com eles a acompanha nessa viagem. E inclusive o empoderamento vem também por meio de um exercício existencial à frente de sua época, feminista, pois Celie aceita cuidar da amante adoentada de seu marido, se questionando e descobrindo na cantora o que é tão mágico que contagia o seu homem daquele jeito (que o faz se arrumar, ficar ansioso e vislumbrado), também se encantando com a hóspede, e descobrindo com ela como se vive uma relação sexual afetiva.

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>>> Leia este outro texto sobre A cor púrpura, de Alice Walker

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