A falência, de Júlia Lopes de Almeida

Por Pedro Fernandes

Júlia Lopes de Almeida, 1912.


 
No longo debate sobre a falibilidade do cânone literário sobram exemplos de obras significativas colocadas à margem. Mas, sempre podemos contar com as necessárias aberturas, afinal, a ideia do canônico como uma redoma intransponível resulta, para sorte do próprio cânone, ultrapassada. Na literatura brasileira, fundada na também aos poucos vencida noção de filiada como se uma ramagem da literatura portuguesa, as fronteiras dessa biblioteca de obras fundamentais seguiram à risca certo modelo que privilegiou os elementos fundamentais da base social regente, entre eles, o desinteresse pelo reparo para com as escritoras. Assim, Júlia Lopes de Almeida ficou sempre lembrada como a mulher que esteve nos bastidores do projeto da Academia Brasileira de Letras e abdicou de sua presença no clã para que o marido, de obra, sabe-se, muitíssimo inferior, ocupasse o que era seu de direito.
 
É preciso outra vez tocar essa história porque continua como um capítulo nebuloso das nossas letras e porque é necessário vencê-lo enquanto lemos a obra dessa escritora com os critérios devidos, ressaltando-se o que for de ressaltar. Esse trabalho precisa resultar, não no nocivo apagamento da história, mas no desfazimento do que se torna epigonal na biografia de Júlia Lopes de Almeida, enquanto sua literatura, o centro de interesse, permanece colocada à serviço do contexto ideológico de seu tempo. É mais ou menos essa triste cultura de transformar a mulher em apêndice de alguém. Quer dizer, é isso o que faz um leitor ainda procurar pela escritora não porque ela é a autora de A falência mas porque é a injustiçada que teve o acesso negado ao parnaso dos imortais.
 
A obra de Júlia Lopes Almeida alcança lugares diversos da criação literária; foi pioneira na escrita para crianças quando publicou juntamente com a irmã Adelina Lopes Vieira uma antologia que reunia textos em prosa e verso destinado aos pequenos leitores. Colaborou em diversos meios no Brasil e em Portugal, onde construiu parte da sua vida. E se envolveu em vários debates, alguns muito caros para o seu tempo, como a República, a Abolição e a Emancipação Feminina ― temas, aliás, que não deixam de respingar vez ou outra nos diálogos de A falência, romance seu dos mais conhecidos, publicado em 1901 e que a crítica, mesmo depois da sua redescoberta continua a filiá-lo ao realismo.
 
Bom, se colocarmos este livro ao lado de um Memórias póstumas de Brás Cubas, não deixaremos de notar que, sim, aquele tem mais cores para tanto que a obra de Machado de Assis. Mas, olhado isoladamente, o livro da escritora também pouco tem de realista; suas feições se ajustam melhor a qualquer coisa de pré-modernista, tanto no tema, quanto na maneira como está concebido esse mundo em degenerescência, no meio caminho das primeiras formas de comércio e do capitalismo de especulação. E o que resta de realismo? Alguns pouco componentes formais e a aguda crítica a certos proselitismos burgueses. Depois disso, nada mais. É uma narrativa que se esforça por estabelecer um rico painel em movimento acerca de um Rio de Janeiro aquecido pelo auge da economia cafeeira.
 
Mas o narrador não está interessado em acompanhar somente miúdo das relações íntimas. Quer antes compreender as infiltrações e os resultados da falência. O termo pode assumir os mais variados significados no romance, incluindo a falibilidade de uma autenticidade dos engates pessoais. Os convívios e os amores, por exemplo, estão continuamente marcados pelo valor financeiro, ainda que este seja para muitos um ponto pacífico, haja vista que vida de frivolidades e vadiagem dão às personagens uma certeza de paraíso terrenal, feito de gozo, da exibição dos salons e do esbanjamento de recursos. Apesar de assim usufruída, a perenidade só mostra assustadiça para uma personagem, o bem-sucedido comerciante de café Francisco Teodoro; no seu entorno, ronda-lhe sempre a mesma sombra da pobreza, da humilhação e do trabalho árduo antes de alcançar um posto visado no amplo mercado de concorrências.
 
Agora, o que prevalece, numa trama em que, se o dinheiro é onipresente, é igualmente fogo fátuo, é mesmo o sentido capital. Este de tom sentencial que decreta uma empresa, a ordem comercial, a obrigação de se desfazer para cumprir com as dívidas aos seus credores. Neste sentido não é apenas o destino da Casa Teodoro que esse pequeno caruncho rói, são todos os destinos individuais, muito embora, o narrador seja muito ciente que falência é o fim para uns poucos; o estamento burguês sempre se projeta em alguma alternativa capaz de fazê-lo perdurar ― o casamento, outras alternativas de negócios, por exemplo, são as reações de reerguimento do estatuto social posterior à falência.
 
Dissemos antes que o romance de Júlia Lopes de Almeida testemunha o trânsito entre uma forma rudimentar de comércio e o aparecimento do mercado de especulações. Isso é demonstrado logo no início da narrativa, quando Francisco Teodoro é informado sobre a rápida ascensão de mercador que, no ritmo aventado, logo assumirá frente ao lugar alcançado depois de extensos anos de labuta e guerrilha. Mas é também problematizado na conturbada relação assumida com o primeiro filho. O jovem Mário, preterido da mãe, é o fino esbanjador de capitais: queima dinheiro com mulheres, jogatina e luxos de toda sorte; vê-se um impróprio para a vida de carniceiro do pai, quem teme pela perda do patrimônio de anos de ardiloso trabalho. O fim trágico e antecipado deste senhor que não chega a um título qualquer e a sorte tirada / fabricada pelo / para filho figuram claramente entre os influxos do capital, matéria do romance.
 
O melhor de A falência é como o fantasma que ronda o destino de Francisco Teodoro se converte no monstro que o devora. Isso significa que esta personagem adquire uma espessura psicológica que, nas demais, sempre empaca no dramatismo de folhetim. Em nome disso, a narrativa expande-se magistralmente quando passa a testemunhar os instantes finais de uma lenta metamorfose começada simplesmente com uma fagulha lançada ao acaso no encontro diário de comerciantes para um café no escritório da Casa Teodoro. Não é a consciência perturbada o que se avista, mas sua entrada num estágio profundo de letargia ante o fatalismo que tornou inevitável o que durante a vida de rico foi apenas um medo constante. É o estampido contínuo feito de silêncio para o fim. O leitor desconhecerá outro romance deste tempo, na literatura brasileira, capaz de tamanho empenho.



Nesse painel de acentuados traços econômicos, feito com retalhos de imagens verbais que acompanham a sístole e a diástole do centro comercial cafeeiro do Rio na virada para o século XX, há espaços dos mais variados para o registro sobre a disparidade das classes sociais, acentuando-se o impasse entre centro e periferia, com o aparecimento dos males, a exploração e o crime; a radiografia sobre o descortinar de uma mentalidade brasileira ainda profundamente alienada pelo trabalho braçal, o compadrio; as feias cicatrizes do passado recente da escravidão e a entrada no Brasil da mão-de-obra vinda do estrangeiro; o vício para o religioso, a crendice e os negacionismos das experiências para um humanismo, seja a ciência, seja o desenvolvimento artístico e intelectual; e claro, o infindável drama das mulheres.
 
Aqui, o romance envereda por temas caros ao realismo, como o casamento e sua falência enquanto estamento em pequena escala da ordem social burguesa. Mecanismo para acesso a outras classes ou de suas continuidades, o narrador esforça-se por apresentar as mais variadas possibilidades sobre o tema. É o casamento que permite salvar da ruína a família de Camila; prestes a retornar para a dura vida no Nordeste, depois de uma estadia sem sucesso no Sudeste do país, a jovem se casa com Teodoro. Instalada a autarcia do grupo familiar formado por quatro filhos, uma agregada, a sobrinha salva da miséria do orfanato e uma récua de trabalhadores domésticos, da qual se destaca Noca, mãe, olhos e ouvidos da casa, Mila consegue, no seu interior, instaurar um amancebo com Gervásio. O médico ganha presença na casa depois de salvar o único filho do casal, Mário, e cuidar da saúde do restante das meninas, as gêmeas Lia e Raquel e Ruth. A sociedade amorosa não sabida exceto por Teodoro converte o doutor em mandatário nesse pequeno paraíso de opulências: ele é o reformista contínuo nas modas e modos, na educação das pequenas, nas transformações estéticas da casa e do amplo jardim.
 
Sob o mesmo teto, o narrador repara no amor puro e platônico de Nina; a criada dos sobejos da casa é perdidamente apaixonada pelo primo. Rebelde sem causa, de Mário ― o infeliz com o pai, o chantagista do caso amoroso da mãe e logo odiador de Gervásio ― a torturada moça só tem indiferença. Aqui, o casamento aparece com duas frentes: seria a salvação da pobre Nina e é a salvação de Mário e do imbróglio amoroso entre Mila e o doutor. Quem dos mesmos sonhos padece, se estes têm, é a filha única do velho Mota, empregado de Teodoro que padece depois de fraturar a perna numa queda do bonde. Acontece que nesse tempo de transições a possibilidade conseguida por Camila também está em falência. O tempo dos homens de posses interessados em mulheres pobres para casar, não que tenha deixado de existir plenamente, arrefeceu. Se as duas moças conseguirem será puro golpe de sorte. Os novos homens querem mulher para figurar.
 
Desiludidas do amor, essas pequenas podem constituir as futuras tias de Camila; as sovinas e fofoqueiras senhoras Rodrigues, moradoras no morro do Castelo, dona Itelvina e dona Joana, quem às primeiras qualidades é preciso acrescentar o fervor religioso que a leva peregrinar diariamente meio Rio de Janeiro em igrejas, confissões, benzeduras e missas. Despossuída de formação e de dinheiro, a situação da filha do velho Mota tenderá ser pior; Nina, por sua vez, guarda qualquer coisa adquirida na vivência com a família Teodoro: alguma letra, uma casita dada de presente num raro pequeno rasgo de bondade dos ricos com a parenta. A sina da primeira poderá se confundir com a da negrinha feita burro-de-carga das Rodrigues, Sancha, quem, incapaz de encontrar alternativa para a vida cansa-se de pedir a Noca que lhe compre uma dose de arsênico, o caminho rápido para o gozo da eternidade tão cultivada pela dona Joana.
 
Nessa sociedade de transições, destaca-se a pequena Ruth. Educada para a música sob os auspícios do doutor Gervásio, a menina tem perfeita curiosidade por tudo da arte, das ciências e dos negócios ― seria o continuador ideal, intelectualizado, do pai, não fosse ser mulher numa sociedade que veta a elas tudo que não for do lar. É ela que numa visita à casa das tias no morro do Castelo, fugindo da arruaça na sua casa em preparativos para um dos grandes bailes da família, descobre a vida miserável que Sancha carrega. Este episódio é dos mais fortes e se reveste de uma denúncia sobre a manutenção do cativeiro para os negros décadas adiante a promulgação da Lei Áurea. É notável que esta tomada de consciência venha pelo ponto de vista de menina burguesa que, num rito de desobediência das mais sinceras intervém em favor da escravizada e dali se demora em questões sobre as diferenças sociais no seu pequeno mundo feito de toda sorte de luxos e conforto. É notável ainda que a persistência desse estágio de degradação humana se mostre de dentro da casa de uma senhora educada nos princípios da moral cristã; a plena denúncia de que o discurso não vira a prática ou que o discurso existe para encobrir o vilipendio, essa rotina nunca saída de moda sobretudo num Brasil radicado na hipocrisia.
 
O espelho de Ruth neste painel é a livre Catarina, irmã do capitão Rino, outro que se derrete em amores platônicos para com Camila, mas, igualmente sabedor do amancebo e torturado pelo fim trágico da mãe, de mesma natureza amorosa, prefere se desfazer da condena romântica pelo imperativo de que o mundo não é feito de um só amor. Por conta própria, Catarina não se descobre inclinada para o casamento; mesmo que não desempenhe o papel da mulher avançada ― apesar de tudo, tem suas ressalvas sobre o direito delas ao sufrágio, por exemplo ― a personagem é a única no romance que se mostra bem-resolvida com o lugar social a ela destinado ou pela vida escolhida. Outra figura feminina, entrevista apenas de relance, mas que demonstra ser habitante em parte de um futuro outro para as mulheres é Paquita. Sua aparição na narrativa é no convés do navio que a levará com a família à Europa. É ela quem se desdobra numa lista de mandamentos obedecida silenciosamente pelo recém-marido Mário; mesmo que pelo ponto de vista protetor da mãe, a situação descrita diz qualquer coisa que foge ao imperativo de passividade sempre esperado da mulher nesse tempo.
 
Como vê, este painel social erguido por Júlia Lopes de Almeida compreende a sociedade em suas múltiplas complexidades; observa o ordinário e comezinho da vida burguesa, mas não se descuida de registrar panoramicamente a vida de pouco ou nenhuma sorte da periferia; retrata a mundividência do comércio, incluindo toda prosódia masculina, mas não deixa de acompanhar os pequenos dramas femininos na grande roda da vida, seja no trabalho, seja fortuna, seja na sorte amorosa, seja no azar; e, desenvolve vivas descrições do movimento dentro e fora das casas, no centro e na periferia, as vivências na faina doméstica e no brutal serviço braçal, ou os movimentos dos negócios corridos pelo jornal e pelo telegrama. A falência é, assim, um documento vivo sobre o coração de um país que avançava acreditando no sopro contínuo dos ventos de alguma boa maré. O resultado foi o naufrágio, não o definitivo, porque, como as salvaguardas dos burgueses, há sempre alguma alternativa que volta a colocar o navio na mesma rota de iludir seus tripulantes com o mesmo sopro contínuo dos ventos de alguma boa maré; é assim desde aportaram aqui uns senhores que se autorizaram chamar de seu o que nem aos donos não foram autorizados a chamar de seu.

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