A. S. Byatt

Por Andreu Jaume

A. S. Byatt. Foto: Geraint Lewis.


 
“É a substituição da celebridade pelo heroísmo que alimentou este fenômeno. E é o efeito nivelador dos estudos culturais, mais interessados ​​na exposição midiática e na popularidade do que no mérito literário, cuja existência questionam. Acham legítimo comparar as Brontë com o romance Best-Seller. Tornou-se respeitável ler e discutir o que Roland Barthes chamou de ‘livros para consumo’. Não que haja algo de errado com isso, mas tem muito pouco a ver com o arrepio que sentimos quando vemos através das ‘mágicas janelas, abertas sobre a espuma/ Dos mares perigosos, nas encantadas terras perdidas’ de John Keats”.
 
Num artigo para The New York Times em 2003, Dame A. S. Byatt, que morreu em novembro deste ano, interveio assim no debate em torno do sucesso de Harry Potter, de J. K. Rowling. Para muitos, o fenômeno representava uma revitalização da literatura que devia ser saudada com entusiasmo, mas Byatt não detectou nada mais do que uma degradação da imaginação resultante de um gosto educado pela televisão, um sintoma de crise e não de esperança.
 
Era legítimo que Byatt interviesse no assunto, uma vez que ela própria vinha há muitos anos estudando e ensaiando os desafios da imaginação literária tal como era entendida na Europa desde o romantismo. Estudiosa além romancista — estudou em Oxford e Cambridge e era fluente nas principais línguas europeias, incluindo o latim —, Byatt quis assumir ostensivamente o comando da grande tradição inglesa que vai de George Eliot a Henry James e Iris Murdoch, quem foi para ela algo como sua mestra e a cuja obra dedicou dois esplêndidos ensaios. Longe de ser um mero epígono, porém, Byatt soube encontrar o seu próprio caminho e superar a influência magnética e um tanto abrasadora de Murdoch, de quem sempre disse sentir “medo”, apesar da verdadeira amizade que as unia.
 
Em 1972, Byatt perdeu seu filho de apenas onze anos, Charles, que foi atropelado por um carro. Segundo ela mesma disse, duas possibilidades se abriram para ela nesse tempo: o suicídio ou dedicar-se a estudar tudo ao seu redor. E decidiu-se por essa última com autêntica voracidade, como se demonstram nos seus romances ricamente documentados, um excesso que alguns críticos censuraram mas que ela defendia dizendo que um romance “é uma combinação de circunstâncias reais e inventadas e para poder construir a invenção é necessário se conhecer bem a realidade”.
 
Foi assim que surgiu a tetralogia O quarteto, que descreve a história de uma família inglesa, a de Frederica Potter, desde o ano da coroação de Elizabeth II até a década de 1970, muito embora, o romance que lhe deu fama internacional tenha sido, sobretudo, Possessão (1990), que lhe valeu o Prêmio Booker, foi posteriormente adaptado para o cinema e se tornou sua Magnum Opus.
 
O romance conta a história de dois obscuros eruditos que investigam o amor secreto de dois grandes poetas vitorianos, personagens baseados em Robert Browning — embora nele também haja ecos de Tennyson — e Christina Rossetti. O sucesso da obra beneficiou-se do clima literário daquela década, gerado pelo fenômeno chamado O nome da rosa de Umberto Eco, primeiro best-seller hiperculto, embora Byatt aproveitasse o favor para demonstrar seu poder que era ao mesmo tempo crítico e imaginativo, sempre contra a banalização ou a condescendência comercial.
 
Sua afinidade com Browning é, nesse sentido, sintomática. Da mesma forma que o vitoriano reagiu contra a degradação da imaginação poética causada pela incompreensão do romantismo — cujos herdeiros confundiram a voz do autor com a de quem fala no poema —, construindo aqueles monólogos dramáticos em que meditam pintores, poetas e personagens da Renascença italiana, Byatt, como Murdoch fizera de outra forma, sempre privilegiou o conhecimento do que está além da própria subjetividade. Na verdade, para ela Possessão era um estudo sobre as possibilidades que o uso da terceira pessoa onisciente ainda oferecia, contra a generalização da primeira pessoa como veículo de uma literatura solipsista.
 
Continuando na esteira das pesquisas sobre o mundo vitoriano, Byatt publicou Anjos e insetos em 1992, que reúne duas magníficas novelas, Morpho Eugenia, sobre um naturalista e entomologista que acaba envolvido em uma história de amor e submissão semelhante às das borboletas que ele estuda, e O anjo conubial, uma história de fantasmas na tradição de Henry James, o escritor que melhor soube impor ao leitor o implausível. Este é o livro em que a imaginação de Byatt — pós-moderna apenas num sentido muito particular — brilha com maior austeridade e precisão.
 
Do resto da sua obra narrativa, vale destacar The Biographer’s Tale (A fábula do biógrafo, 2000), um romance de pouca recepção, mas que aborda uma questão fascinante e particularmente britânica: a imaginação dos biógrafos. Embora seu último grande romance e provavelmente o livro que divide espaço com sua obra-prima seja O livro das crianças (2003), que conta a história de Olive Wellwood, escritora de literatura infantil — personagem baseado em E. Nesbit — e toda a sua família entre 1895 e a Grande Guerra.
 
Como disse a própria Byatt, a ideia para O livro das crianças surgiu da necessidade de investigar por que tantos autores de livros infantis tiveram filhos infelizes. A família Wellwood vive em um mundo encantado pela estética pré-rafaelita e pela ideologia da sociedade socialista fabiana, mas acaba vendo como toda uma geração de adolescentes educados na magia e nas éclogas campestres de Thomas Gray é brutalmente executada nas trincheiras. É o que Wilfred Owen, um dos poetas da Primeira Guerra Mundial, chamou de the old lie num poema tremendo: “Dulce et decorum est”, adágio ao horaciano dulce et decorum est pro patria mori. O poema termina com a imagem de um companheiro segurando as tripas antes de ser jogado em uma vala.
 
O livro das crianças foi, por assim dizer, a implementação das críticas que Byatt havia feito pouco antes ao fenômeno Harry Potter. Onde a escritora detectou uma imaginação degradada, infectada por clichês e rendição morais, típica de uma sociedade despreocupada e irresponsável, ela dispôs o espanto e o horror que em partes iguais pulsam na grande tradição literária inglesa, inextricavelmente ligada à história política e ideológica do país.
 
Como escreveu Rudyard Kipling, que também perdeu um filho na guerra: “If any question why we died/ tell them, because our fathers lied” (Se há alguma questão que justifique por que morremos/ contem-na, porque nossos pais mentiram). Foi assim que Antonia Byatt conseguiu transmitir-nos o arrepio que se sente quando ainda se olha para aquelas “mágicas janelas, abertas sobre a espuma/ Dos mares perigosos, nas encantadas terras perdidas” da ode de Keats.

 
* Este texto é a tradução livre de “Adiós a A. S. Byatt”, publicado inicialmente aqui, em Letra Global.

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