Brazil - o filme, de Terry Gilliam



Visual delirante acompanhado de "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, faz desta ficção científica uma obra única

Brazil - o filme é fruto de seu tempo, os anos 1980, quando as produções já faziam reciclagens de outros filmes realizados anteriormente. O diretor norte-americano Terry Gilliam, integrante do extinto grupo Monthy Python (exímio nas paródias de temas consagrados, como a releitura nonsense que fizera sobre a vida de Cristo em A vida de Brian, de 1979, ou sobre os romances de cavalaria em Monty Python em busca do cálice sagrado, de 1975), realiza aqui uma mistura de humor, ficção científica e filme político. As referências estéticas passam por Metrópolis (1927), de Fritz Lang, e exibem também elementos vistos anteriormente em Blade Runner - o caçador de andróides (1982), de Ridley Scott, tudo embalado numa fotografia estetizada, cheia de luzes brancas e sombras que criam geometrias na imagem. Mas o que caracteriza o trabalho de Gilliam é mesmo a mistura de realidade e fantasia, algo que esta nos delirantes Os 12 macacos (1995) e Medo e delírio (1998), outras obras que combatem a repressão à liberdade individual.

Em Brazil - o filme, o mundo lembra o do livro de George Orwell, 1984. Não é por menos, inclusive, que o diretor queria que seu longa se chamasse 1984 e 1/2, que seria uma homenagem, também, a Federico Felini e seu 8 1/2 (1963). Um "big brother" controla as pessoas, que vivem entre edifícios, salas apertadas e máquinas. O visual retrô, meio anos 1950, não é sem motivo: o protagonista, Sam Lowry (Jonathan Pryce), é um burocrata que literalmente sonha em voltar para o passado, mais idílico. Conhece uma terrorista que o faz rebelar-se contra o sistema opressor (como Fahrenheit 451, de 1966, clássico do francês François Truffaut).

Numa apoteose visual rara, com câmera voando pelos enormes espaços, o longa de Gilliam toma partido dos rebeldes, que lutam contra a burocracia inoperante que emperra a sociedade. A opção pela música "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, que pontua todo o filme, gerou controvérsias no Brasil quanto aos critérios de escolha do cineasta. Há quem veja uma referência à burocracia nacional, mas não é um desvario pensar que a célebre canção remeta a um escapismo fantasioso, sonho extático, o que muito diz sobre essa irônica fábula de Terry Gilliam.

* Revista Bravo!, 2007, p.99.

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