A maior flor do mundo, de José Saramago

Por Pedro Fernandes



Não tenho muito o que falar sobre livros para crianças. E por um motivo apenas: não fui uma criança leitora. Meus pais mal tinham condições de por comida dentro de casa, livro, então, foi sempre um produto de luxo. Além de que, semi-analfabetos, um livro nunca lhes fez nada e nunca lhes faria nada. Depois, as escolas pelas quais passei, essas é que poderiam ter me incentivado à leitura, nunca sequer souberam o que era uma biblioteca, coisa que eu só vim saber na adolescência quando fui para a cidade e entrei num cômodo velho invadido por alguns clássicos da literatura nacional e uma centena de Best-Sellers desses que já vem com um enredo pré-fabricado antes mesmo da sua composição.

Os livros infantis que vim ler foram na adolescência para a fase adulta. Li poucos, é verdade. E dos poucos que li, está, por ossos do ofício, A maior flor do mundo, de José Saramago, publicado no Brasil pelo selo para publicações infantis da Companhia das Letras. A edição brasileira preserva os mesmos moldes da portuguesa; é ricamente ilustrada por João Caetano, um trabalho que dialoga e, ao mesmo tempo, amplia os sentidos do texto verbal.

Este livro, apesar de dirigido para crianças, não tem um enredo tão acessível a elas. Não digo do ponto de vista temático, mas do ponto de vista da composição textual. Me parece que o seu autor-narrador peca em contar esse conto infantil adulterado (no sentido de sê-lo para um público que não o infantil) e tem ciência disso. Mas, como tudo em literatura, pecar é necessário, porque daí pode vir a inovação. E o conto virado da crônica é uma novidade no âmbito das criações literárias infantis. 

Trata-se de um exercício de escrita no mínimo interessante, porque temos concomitante na sua narração um texto que mira a si próprio, pondo-se ao relato a dificuldade que seu narrador, enquanto contador de história para crianças, sente em se disponibilizar para este trabalho. E vale sim, a pena ser lido, senão pela crianças, pelo adulto para criança (me parece que desse modo o enredo fica-lhe mais acessível).

Encerrando a escrita ao caráter limítrofe da fantasia e do maravilhoso, Saramago reflete sobre a infância e o universo infantil e sobre a escrita para este universo. Ao fundir narrador em autor cria-se a ilusão de uma narrativa breve e muito simples sobre as aventuras de um herói com o objetivo de salvar uma flor, onde por força expressão maior, o escritor reflete sobre a infância e a literatura amarradas por um laço inabalável de que nas gerações mais novas encerra-se uma esperança do fazer grandes coisas a partir do simples.*

Não é apenas isso. A maior flor do mundo reúne uma consciência política, aquela indispensável à literatura do escritor português, que reanima a necessidade de nos desfazer da ideia de separação entre o mundo de criança e o mundo de adulto. Calcado na tradição, a obra leva o leitor a refletir sobre sua relação com outro, seu papel na comunidade a qual pertence e a uma preocupação para com o seu papel com o meio. A riqueza é tanta que uma só leitura é sempre insuficiente para dar conta dos sentidos propostos.

***

A maior flor do mundo, de José Saramago, por Juan Pablo Etcheverry

O diretor uruguaio recebeu até a realização deste filme algo em torno de 50 prêmios em todo o mundo com o curta-metragem Minotauromaquia, Pablo no labirinto. Depois, pôs mãos à obra do escritor português para dar vida a este mágico relato combinando a animação em massa de modelar. Depois da dica de leitura vale a pena ver o vídeo que tem narração do próprio José Saramago.





* A citação está no meu texto "A maior flor do mundo, de José Saramago. Um metatexto acerca da escrita literária para o universo infantil" publicado nos Anais do II Encontro nacional sobre literatura infanto-juvenil e ensino.

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