A maior flor do mundo, de José Saramago

Por Pedro Fernandes


Não tenho muito o que falar sobre livros para crianças. E por um motivo apenas: não fui uma criança leitora. Meus pais mal tinham condições de por comida dentro de casa, quanto mais dinheiro para comprar livros; além de que, semi-analfabetos, um livro nunca lhes fez nada e nunca lhes faria nada. As escolas pelas quais passei, essas é que poderiam ter me incentivado a leitura, nunca sequer souberam o que era uma biblioteca, coisa que eu só vim saber na adolescência quando vim para a cidade e entrei num cômodo velho invadido por alguns clássicos da literatura nacional e uma centena de best-seller desses que já vem com um enredo pré-fabricado antes mesmo da sua composição. De modo que, os livros infantis que vim lê-los já foram na adolescência para a fase adulta. Li poucos, é verdade. E dos poucos que li, li este A maior flor do mundo, de José Saramago. Concidente com a data de hoje estive a relê-lo para elaboração de uma fala sobre esse livro por ocasião de um evento em Campina Grande, que acontecerá mais tarde, em junho, para ser mais exato, e do qual participarei.

O livro apesar de dirigido para crianças, não tem um enredo tão acessível a elas. Não digo do ponto de vista temático, mas do ponto de vista da composição textual. Me parece que o seu autor-narrador peca em contar esse conto infantil adulterado (no sentido de sê-lo para um público que não o infantil). Entretanto trata-se de um exercício de escrita no mínimo interessante, porque temos concomitante sua narração um texto que mira a si próprio, pondo-se ao relato da dificuldade que seu narrador, enquanto contador de história para crianças, sente. E vale sim, a pena ser lido, senão pela crianças, pelo adulto para criança (me parece que desse modo o enredo fica-lhe mais acessível).

"Encerrando a escrita ao caráter limítrofe da fantasia e do maravilhoso, Saramago reflete sobre a infância e o universo infantil e sobre a escrita para este universo. Ao fundir narrador em autor cria-se a ilusão de uma narrativa breve e muito simples sobre as aventuras de um herói com o objetivo de salvar uma flor, onde por força expressão maior, o escritor reflete sobre a infância e a literatura amarradas por um laço inabalável de que nas gerações mais novas encerra-se uma esperança do fazer grandes coisas a partir do simples." *

***

A maior flor do mundo, de José Saramago, por Juan Pablo Etcheverry

O diretor já recebeu algo em torno de 50 prêmios em todo o mundo com o curta-metragem Minotauromaquia, Pablo no labirinto. Depois, pôs mãos à obra de Saramago para dar vida a este mágico relato combinando a animação em massa de modelar. Depois da dica de leitura vale a pena ver o vídeo que tem narração do próprio escritor português.




* A citação está no meu texto A maior flor do mundo, de José Saramago. Um metatexto acerca da escrita literária para o universo infantil publicado nos Anais do II Encontro nacional sobre literatura infanto-juvenil e ensino.

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