Bruno Schulz

Bruno Schulz em registro fotográfico de 1935.

Pela primeira vez a obra completa de Bruno Schulz é traduzida e publicada no Brasil pelo professor Henryk Siewierski e pela Cosac Naify. Nos anos 1990, a Editora Imago já havia traduzido e publicado alguns contos, “Lojas de canela”, de 1934, e “Sanatório sob o signo de clepsidra”, de 1937. A edição de agora inclui mais quatro contos inéditos. O livro vem com ilustrações do próprio escritor, que é autor também de uma considerável obra do tipo, além de uma apresentação escrita pelo poeta e ensaísta Czeslaw Milosz (Prêmio Nobel de Literatura de 1980), um posfácio do tradutor com sugestões de leitura e trechos dos diários de Witold Gombrowicz, amigo de Bruno Schulz e que junto com ele e Stanislaw Witkiewicz, constituíram o grupo que ficou conhecido como “os três mosqueteiros” da prosa polonesa de vanguarda.

A obra que ora sai publicada não constitui nem metade daquilo que Schulz produziu em vida. Por exemplo, além dos desenhos divididos em pelo menos oito cadernos, há uma produção extensa de correspondências e de ensaios críticos escritos para dar contas de questões teóricas como a relação literatura e realidade, para dar contas de novos trabalhos sendo publicados em seu país, como de Zofia Nalkowska, Kuncewiczowa, Juliuzs Wit, Mauriac, Jo van Ammers-Küller, ou ainda textos sobre Franz Kafka, autor que o próprio Schulz traduziu e compôs um extenso prólogo de apresentação da sua obra. Mas, o trabalho do professor Henryk e da Cosac Naify com este Ficções completas já um começo e uma bela mostra desse rico trabalho.

O autor é nascido em 1892, em Drohobycz (hoje Drohobych), Ucrânia. Conhecido como um dos expoentes da literatura polaca do século 20. Quando do seu nascimento, a província de Drohobycz era parte do Império Autro-Húngaro; depois passou às mãos da Polônia, no fim da Primeira Guerra Mundial e por pouco tempo a então União Soviética para ser tomada, logo no início da Segunda Guerra pelos alemães.

Ainda jovem, Schulz interessou-se pela pintura, mas foi estudar arquitetura na Universidade de Lwów, depois, sim, Belas Artes em Viena.

Iniciou na literatura por acaso. As cartas que escrevia ao amigo Witold chamou atenção do escritor Zofia Nalkowska que internalizou em Schulz o interesse em publicá-las como relatos curtos de ficção. E assim foram publicadas “Lojas de canela” e depois “Sanatório sob o signo de clepsidra”. Fluente em alemão e iídiche, os dois trabalhos não foram escritos nessas línguas, mas em polaco. Para o seu idioma traduziu, em 1936, O processo, de Franz Kafka. Dois anos depois, a Academia Polaca de Literatura deu-lhe o Laurel de Ouro, uma condecoração das mais importantes do meio literário.

Sabe-se que Schulz ensaiou escrever uma novela já intitulada por O messias, mas até então não se descobriu qualquer pista de um manuscrito. A tomada da sua cidade natal pelos nazistas transformou o artista num cidadão comum, professor de desenho e foi condenado ao viver no gueto, embora outras versões apontem-no como protegido por um oficial da Gestapo. Verdade ou não, o fato é que Schulz foi fuzilado por um oficial alemão em 1942.

Constituindo o que a crítica chama por singularidade, a obra de Schulz chega ao Brasil no ano em que se celebra os 120 anos de seu nascimento, data que lhe rendeu a inauguração de um museu em sua cidade natal, que, depois de ser posse de tantos, está integrada ao território da Ucrânia.

Sua obra serviu de ponto de partida para duas produções cinematográficas: Sanatorium pod Klepsydra, adaptação polaca do conto homônimo de 1934 e Ulica Krokodyli.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

20 + 1 livros de contos da literatura brasileira indispensáveis

Carolina Maria de Jesus, a escritora que catava papel numa favela

José Saramago e As intermitências da morte

Visões de Joseph Conrad

Cecília Meireles: transcendência, musicalidade e transparência

Sor Juana Inés de la Cruz, expoente literário e educativo do Século de Ouro espanhol

Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto

A melhor maneira de conhecer o ser humano é viajar a Marte (com Ray Bradbury)

Os diários de Sylvia Plath

Boletim Letras 360º #246