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Sanatório sob o signo da clepsidra, de Bruno Schulz

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Por Henrique Ruy S. Santos Sentir tudo excessivamente Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas E toda a realidade é um excesso, uma violência, Uma alucinação extraordinariamente nítida Que vivemos todos em comum com a fúria das almas. — Álvaro de Campos Começando em 2019, a Editora 34 empenhou-se na publicação, em português, com estupenda tradução do professor Henryk Siewierski, da ficção de Bruno Schulz, arquiteto, desenhista, professor e escritor polonês do século XX, há muito esgotado no Brasil. São, ao todo, dois livros de contos, o que não configura exatamente uma vasta obra literária (fala-se, ainda, de um romance inacabado e outras produções perdidas), mas o que, ainda assim, deve atrair os devidos louvores ao esforço editorial, uma vez que se trata de um escritor de primeira monta e em cuja prosa se percebe, como terei a oportunidade de comentar, muito do que de melhor se fez na literatura mundial do século XX, em termos de tendências gerais. No ano de 2019, saiu o pr...

O universo de Bruno Schulz

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Por Sergio Pitol Bruno Schulz, Autorretrato , 1920. Arquivo: Museu Nacional da Cracóvia.   No panorama da literatura polonesa de vanguarda, que decorreu no período entre as duas grandes guerras, destacam-se três figuras insólitas, totalmente diferentes entre si, cuja obra começa a ser devidamente apreciada apenas nos últimos anos. São eles: Stanisław Ignacy Witkiewicz, Witold Gombrowicz e Bruno Schulz. A obra desses três “excêntricos”, repleta de aparentes jogos, paródias, caricaturas, exageros levados à última instância, oferece-nos a mais rica fonte de ideias de todo aquele período. Antecipando-se em um quarto de século à literatura francesa, inglesa e norte-americana do absurdo, eles nos oferecem um antegozo do trágico absurdo em que o homem real se veria submerso alguns anos depois. O terror diante de um mundo que vai transformar o homem em coisa e, como coisa, em algo incapaz de sentimentos, alheio às ideias, radicalmente negado ao fantástico e à poesia e ao intelectual —...

Bruno Schulz: a felicidade de um mundo impreciso

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Por María Negroni Minha ideia é aprofundar-se infância a dentro (Bruno Schulz) Drohobycz, uma cidade pequeniníssima à beira dos Cárpatos, nos confins do então Império Austro-húngaro. Aí nasce, em 1892, Bruno Schulz. Uma criança doente, com problemas nos pulmões e no coração, que aprenderá desenhar e logo saberá falar polonês, alemão, russo, iídiche. Mais tarde irá viver em Viena para estudar Arquitetura. Também fará uma estadia em Paris. Schulz está na lista daqueles escritores que, como César Moro, disseram alguma vez “Je n’ai pas de Maison”. Drohobycz é e será sempre a “República dos Sonhos”, o lugar do maravilhoso, onde é possível intimar com o vasto mundo e suas antigas fábulas. Em algum momento, não necessariamente nesta ordem, traduz com Josefina Szelinska O processo , de Franz Kafka; ilustra Ferdydurke , de Witold Gombrowicz; troca correspondências com Thomas Mann; conhece Debora Vogel, escritora e doutora em Filosofia de Lwów que havia publicado uma antolog...

Os desenhos de Bruno Schulz

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Bruno Schulz. Autorretrato , de 1919 Antes de escrever, Bruno Schulz se dedicou às artes plásticas. Em 1914, interessou-se por essa expressão criativa e chegou a frequentar a Escola de Belas Artes em Viena. Durante o regime nazista, tornou-se professor de desenho, profissão que deixou de exercer em 1941, quando se iniciam as maiores represálias do regime alemão em Drohobycz: todos os judeus entre 16 e 65 anos são obrigados a trabalhar para os alemães; condenados ao trabalho forçado e aos guetos.  Schulz, como judeu, e numa tentativa de fugir das perseguições, vai morar nas ruínas de uma casa abandonada com os familiares. É quando conhece Feliks Landau, um soldado do regime, mas bastante interessado no trabalho artístico de Schulz e que se aproveita de suas qualidades e da situação para que realize a pintura de murais nas paredes da casa do seu filho pequeno. Esses murais foram levados em 2001 para Jerusalém sob alegação de mandado pelo governo ucraniano. De modo que, a ...

Bruno Schulz

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Bruno Schulz em registro fotográfico de 1935. Pela primeira vez a obra completa de Bruno Schulz é traduzida e publicada no Brasil pelo professor Henryk Siewierski e pela Cosac Naify. Nos anos 1990, a Editora Imago já havia traduzido e publicado alguns contos, “Lojas de canela”, de 1934, e “Sanatório sob o signo de clepsidra”, de 1937. A edição de agora inclui mais quatro contos inéditos. O livro vem com ilustrações do próprio escritor, que é autor também de uma considerável obra do tipo, além de uma apresentação escrita pelo poeta e ensaísta Czeslaw Milosz (Prêmio Nobel de Literatura de 1980), um posfácio do tradutor com sugestões de leitura e trechos dos diários de Witold Gombrowicz, amigo de Bruno Schulz e que junto com ele e Stanislaw Witkiewicz, constituíram o grupo que ficou conhecido como “os três mosqueteiros” da prosa polonesa de vanguarda. A obra que ora sai publicada não constitui nem metade daquilo que Schulz produziu em vida. Por exemplo, além dos desenhos divididos e...