Notas sobre o homenageado da 5ª edição do caderno-revista 7faces

Por Pedro Fernandes


“As pessoas só pensam nas coisas materiais. Ficamos presos às necessidades urgentes. Mas isso não dá conta da nossa humanidade, não nos completa como indivíduos e seca a poesia do nosso coração. A poesia nos empurra para uma dimensão além da sobrevivência básica.”


Salgado Maranhão em entrevista ao Jornal O Globo, 15 de julho de 2012.


Não fiz grande esforço para conhecer a obra de Salgado Maranhão; entendam conhecer pelo sentido mínimo possível dessa palavra porque o que tive foi um contato com vários poemas reunidos na antologia A cor da palavra. Esse contato se deu ano passado quando voltei ao campus central da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte e numa visita à Biblioteca Padre Sátiro Cavalcanti, como fazia nos tempos de estudante, dei com a edição publicada pela Imago e pela Fundação Biblioteca Nacional. À primeira vista foi uma surpresa descobrir esse nome porque tenho, não poucas vezes, a impressão de que a poesia no Brasil atravessa um elevado grau de crise, despindo-me daqui de quaisquer relações entre uma coisa e outra, porque disso terá tratado bem Marcos Siscar no seu catatau Poesia e Crise recém-publicado e folheado por esse que vos fala.

- Danado - dirão alguns - como é possível uma constatação dessas, sendo você um editor de uma revista eletrônica de poesia. Ao que eu respondo: - Justo por isso sou editor de uma revista eletrônica de poesia; como se este fosse um gesto para que se amenize a tal crise suspeita. Antes que eu volte ao nome Salgado Maranhão permitam-me alongar mais um pouco esse desvio para que eu explique mais um pouco disso que chamei de crise da poesia brasileira. São duas as razões: temos um universo de pessoas "escreventes" de poesia muito grande. A descida da poesia da sua estratosfera para o campo dos assuntos terrenos, projeção levada ao limite maior quando do desencadeamento promovido em grande medida do modernismo em diante, fez com que por qualquer coisa, mal do espírito, dor de cotovelo, autoajuda, paixonite crônica, tudo, levasse uma grande quantidade de pessoas a se autointitularem poetas e fazerem do erro profissão. Segundo, em decorrência da popularização da poesia, outros escreventes de poesia foram se refugiando nos seus grupinhos, montando seus próprios puxa-sacos e, sentindo-se, no meio da pirotecnia verbal, Mallarmès, Ezras Pounds, Maiakóvskis e outros “herméticos”. Vou ampliar o desvio propondo mais uma causa à essas duas: o puxa-saquismo esbarrou no culto de alguns nomes e, talvez, aquilo que eu chame de crise da poesia, comece por uma deficiência de leitura. Os do primeiro grupo e os do segundo grupo nunca leram efetivamente seus antecessores e o resultado é uma ovação exagerada com frases de efeito a nomes como, como, como quem mesmo? Ah! João Cabral de Melo Neto, o saudoso Carlos Drummond de Andrade, e... quem mais? Bem, deixem que eu volte ao Salgado Maranhão.

A leitura de alguns poemas esparsos na antologia A cor da palavra foi suficiente para que eu me encontrasse diante de uma poesia da nova geração, diga-se de passagem, porque Salgado tem seus 58 anos e, percalços à parte, é autor de uma obra em ampla projeção. Na época em que li, acabava de ter lançado o 4º número do caderno-revista 7faces e estava agora à cata do nome de um poeta que tivesse nome nacional, mas ainda pouco visto ou visto invisivelmente nalguns lugares. Até a edição lançada eu só havia posto em pauta poetas potiguares: Zila Mamede, Jorge Fernandes, Diva Cunha, Marize Castro... Precisava de um nome de outro lugar. Salgado Maranhão, pela identificação que tive pela sua poesia foi logo o indicado a ser homenageado. E, interessante, todos os requisitos que estava pensando para o novo nome, esse poeta me atendia. Sim, ele tem uma trajetória rara no meio literário, porque muito bem quisto por todos os grandes poetas, como Ferreira Gullar, Antonio Cícero e por aí vai, não se restringindo ao campo da poesia - Salgado já fez parcerias admiráveis como letrista e, certamente, muitos de vocês já assoviaram ou maturaram alguns versos ouvindo Paulinho da Viola, Ney Matogrosso, Zeca Baleiro, Zizi Possi, ou os paraibanos Zé e Elba Ramalho, sim, tenho certeza; como também tenho certeza que muitos não saberão de Salgado. É o visível invisível.

Salgado Maranhão fez uma caminhada brasileiríssima. Foi analfabeto até os 15 anos de idade, morador do interior do Maranhão e foi parar no Rio de Janeiro, com uma diferença de muitos nordestinos, levar uma força diferente da força bruta, mas que quando pode, é também tão bruta quanto: a força da palavra, descoberta pelo também poeta Torquato Neto. Agora, em agosto, ganha uma exposição em São Paulo em torno de sua obra e está sendo traduzido para o inglês, o alemão, o holandês, o italiano e o hebraico. E, claro, está com mais um livro de poesia para sair em 2013, além dos que já publicou até agora.  

Na edição de domingo (15/07) o jornal O globo de onde saiu a citação que abre essas notas e algumas das informações aqui publicadas, foi publicado um poema inédito de Salgado Maranhão que deixo com amostra da sua poesia. Interessados em ler a entrevista concedida por ele, ir aqui. Hoje fecha duas semanas em que a fan page no Facebook do caderno-revista 7faces tem soltado pérolas com notas breves de poemas do poeta. Um passeio por lá pode render boas surpresas - vá por aqui.


A febre verbal

A febre do poema
é o ruído do sonho
na palavra,
o clamor da eternidade
urgente
(como Sócrates
que queria tocar lira
antes de morrer.)
As impressões dão-se
ao risco
de cruzar o fogo
sem perder o jogo:
no céu da boca
o sol da linguagem
tece relâmpagos.
E disto é o reino da voz
sobre as sombras.
A febre do poema
é o tálamo
que dá língua
à pedra.
Um rito à borda do delito.


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